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Abdullatif bin Rashid Al Zayani, Benjamin Netanyahu, Donald Trump e Abdullah bin Zayed Al Nahyan participam da cerimônia dos Acordos de Abraão, na Casa Branca, em setembro de 2020 | Foto: Shutterstock
Edição 278

Sob a paz de Abraão

Do patriarca de judeus e muçulmanos vem o nome dos acordos diplomáticos que estão redesenhando o Oriente Médio

Os Acordos de Abraão, iniciativa lançada por Donald Trump no fim de seu primeiro mandato, buscam uma solução diplomática para o Oriente Médio — mas não apenas isso. Para compreender sua audácia e extensão, é importante retroceder um pouco na história e lembrar que a região do Levante tem vivido, nos últimos cem anos, um período conturbado. Depois de quatro séculos sob domínio do Império Otomano, seu imenso território foi desmembrado pelos países vitoriosos após a Primeira Guerra Mundial, originando inicialmente mandatos e, na sequência, Estados-nação artificiais, com fronteiras fadadas a serem repetidamente testadas e reconfiguradas.

Para completar o cenário já condenado ao caos, em 1947 a ONU votou pela partilha da Palestina, território sob o Mandato Britânico coabitado por árabes e judeus, para atender ao anseio judaico por um Estado moderno soberano em seu domínio ancestral — hoje encravado em meio a um oceano de nações árabes. A reação bélica da Liga Árabe foi imediata e conflagrou a Guerra da Independência de Israel (1948-49), seguida por décadas de conflitos e apenas dois frios acordos de paz.

Outdoor patrocinado pela Coalizão para a Segurança Regional, pedindo a expansão dos Acordos de Abraão, em Ramat Gan, Israel (26/6/2025) | Foto: Violeta Santos Moura/Reuters

Frente a esse cenário secular de atritos, o anúncio dos Acordos de Abraão surgiu como uma miragem. Iniciativa em forma de “guarda-chuva”, eles permitem a Israel e aos países árabes selarem tratados de diferentes naturezas, desde simples acordos de normalização — o que, por essas bandas, já representa um enorme passo — até estratégias conjuntas para o desenvolvimento econômico, cooperação diplomática, comercial, turística, tecnológica etc. O destino final são os tratados de paz.

Os Acordos foram formalizados em agosto de 2020 e rapidamente demostraram seu potencial, abrindo espaço para a percepção de que, finalmente, poderá haver paz e cooperação entre Israel e seus vizinhos árabes — e entre as próprias nações islâmicas.

“Os Acordos de Abraão são o resultado, e não a causa, da aproximação de alguns países moderados da região que se uniram em razão do surgimento de grupos radicais islâmicos a partir dos anos 1990, entre eles o Estado Islâmico, a Al-Qaeda e a Irmandade Muçulmana. Ou seja, eles estão sendo ‘costurados’ há décadas”, explica Yossi Kuperwasser, diretor de Projetos de Desenvolvimento no Oriente Médio do Jerusalem Center for Public Affairs.

A guerra dos tronos

Eran Lerman, vice-presidente do Jerusalem Institute for Strategy and Security, compara o ambiente daqueles anos à saga da série de TV A Guerra dos Tronos, apenas sem dragões ou princesas. “Houve um jogo de poder brutal entre variações da ideologia islâmica que, para ser contido, exigiu a coordenação de vários vizinhos.” Assim começou uma necessária parceria de segurança que, com o tempo, foi estendida para outras áreas. “Não demorou muito até que os países árabes entendessem que se relacionar com Israel não lhes causaria mal, muito pelo contrário. Isso os conduziu aos Acordos de Abraão”, resume Lerman. Esse entendimento também foi facilitado pela percepção de um inimigo comum: o Irã e sua influência na região por meio de milícias e grupos terroristas.

Da assinatura à ação

Os primeiros signatários foram os Emirados Árabes e o Bahrein, logo seguidos por Marrocos e Sudão. “É uma iniciativa massiva que oferece a oportunidade real de criar conectividade e melhores relações entre judeus e árabes”, comemora, sem esconder o otimismo, Shiri Fein-Grossman, diretora-executiva do Instituto de Relações entre Israel e África, envolvida desde o início na iniciativa como interlocutora de Israel.

Pragmáticos e velozes como costumam ser, os israelenses lançaram-se de cabeça. Visitas oficiais de líderes e ministros foram organizadas, escritórios de representação foram abertos, e prontamente surgiram empreendimentos conjuntos nos campos da saúde, agricultura, gestão de águas, educação e tecnologia. Neste momento, estuda-se a criação de uma zona franca. Até 2023, foram fechados acordos comerciais entre os países no valor de US$ 4 bilhões; a meta é chegar a US$ 1 trilhão e gerar 4 milhões de novos empregos.

Israel e Emirados Árabes encabeçam a lista de exemplos de sucesso, uma vez que nos três primeiros anos de acordo alcançaram a marca de US$ 2,5 bilhões em projetos de cibersegurança, agritech, gestão de águas e energia limpa. A expertise israelense de irrigação por gotejamento está sendo empregada pelo Marrocos para gerenciar sua crônica escassez de água. Bahrein assinou memorandos de entendimento com Israel lado a lado com os Emirados, investiu fortemente em campanhas para atrair turistas israelenses (com enorme sucesso), que ali dispõe de sinagogas, restaurantes kosher e até mesmo um museu do Holocausto. Já Jerusalém assistiu à chegada de centenas de milhares de visitantes do Golfo, algo impensável até pouco tempo atrás.

Paz de baixo para cima

Um aspecto interessante a ser notado é que essa iniciativa de paz está sendo consolidada “de baixo para cima”, criando uma experiência bastante diferente dos acordos selados entre Israel e o Egito (em 1979) ou a Jordânia (em 1994). “Com eles, temos uma paz fria. O modelo que construímos agora baseia-se na relação entre as pessoas, os negócios e as entidades, criando movimento financeiro, cultural, turístico, de investimento etc.”, afirma Grossman.

Outros países estão na “agulha” para ingressar nos Acordos, como a Indonésia, a Somália e a Mauritânia. Espera-se também que, em breve, seja incluída uma nova estrela fundamental para essa constelação abraâmica: a Arábia Saudita. Em Israel, cresce a expectativa de que até mesmo a Síria — caso seu novo presidente, Ahmed al-Shaara, consiga superar seu passado jihadista e criar uma unidade nacional — e o Líbano, inimigos declarados e protagonistas das piores guerras da região, estejam sendo discretamente preparados para integrar o bloco.

Grossman explica que os Acordos representam um desafio complexo, com muitas “pontas” a serem costuradas — participantes já definidos, outros em negociação e alguns ainda pouco convencidos, todos com perfis e objetivos diferentes. “É preciso conciliar aspectos civis e militares, econômicos e administrativos, que vão desde a abertura de rotas aéreas até tratados de taxação ou isenção de impostos, definição de política de vistos etc. E tudo isso começando do zero, em países que nunca antes abriram suas portas aos israelenses.”

Foto: Reprodução/@hojenomundomilitar

Gargalo geopolítico

A Arábia Saudita é peça-chave para o sucesso do projeto. Reino vasto que abriga os dois locais mais sagrados do Islã — Medina e Meca — e dono de enormes reservas de petróleo, sua entrada pode expandir significativamente o alcance dos Acordos, inspirando outros países resistentes à ideia. Não à toa, Donald Trump, padrinho e grande interessado no projeto, escolheu esse país como destino da primeira viagem oficial de seu segundo mandato presidencial.

“Precisamos aguardar para ver se a Arábia Saudita estará disposta a um acordo de paz completo com Israel ou se buscará apenas criar pontes econômicas neste momento”, reflete Arye Lighthouse, CEO do Abraham Accords Peace Institute, ONG criada para coordenar a iniciativa. Segundo ele, Jared Kushner — conselheiro de Trump no primeiro mandato e principal articulador dos Acordos — sempre repete que a questão não é se, mas quando os sauditas ingressarão. “Já há negócios sendo fechados nos bastidores, enquanto palestrantes e visitantes israelenses participam de eventos e conferências na Arábia Saudita”, descreve Lighthouse.

O que falta para que o primeiro-ministro e príncipe saudita Mohammed bin Salman se renda? Segundo ele, isso está condicionado a um plano factível de criação de um Estado palestino — e este é justamente o gargalo geopolítico desse grande acordo de normalização, o qual, por sua vez, é essencial para o encaminhamento do primeiro “filhote” dos Acordos de Abraão: o Corredor Econômico Índia-Oriente Médio-Europa (IMEC, na sigla em inglês).

Corredor Econômico Índia-Oriente Médio-Europa | Ilustração: Reprodução

Os objetivos do IMEC são grandiosos, a começar pela expansão de parcerias entre diferentes países do mundo para criar novas rotas e mercados — um contrapeso explícito à iniciativa lançada pela China, em 2013, que ficou conhecida como “Nova Rota da Seda”. O corredor configuraria também uma rota alternativa ao Canal de Suez, sob controle egípcio, e ao Estreito de Ormuz, controlado pelo Irã, hoje a principal rota de transporte do petróleo produzido no Golfo Pérsico.

Os líderes árabes enfatizam que o compromisso dos EUA é uma pré-condição indispensável para seu sucesso, mostrando claramente seu interesse na consolidação de um bloco econômico próprio. O custo estimado dessa rota intermodal, que prevê transporte marítimo, ferroviário e terrestre, é estimado em US$ 580 bilhões. Trump e o primeiro-ministro indiano, Narendra Modi — aliás, um grande parceiro de Israel —, anunciarão em breve um encontro global dos participantes, a ocorrer antes do fim de 2025.

Para a Arábia Saudita, integrar os Acordos de Abraão e o IMEC é fundamental para a execução do ambicioso plano Visão 2030, um conjunto de ações com o qual pretende modernizar sua economia e se tornar uma potência mundial em investimentos. Assentada sobre algumas das maiores reservas mundiais de petróleo, a monarquia tem os recursos — mas entende que o acesso aos principais hubs tecnológicos e financeiros internacionais depende de sua integração regional.

O IMEC representa para Israel muito mais do que a oportunidade de criar finalmente laços diplomáticos com outros países do Oriente Médio. Ele retiraria o país da restritiva posição de “ilha” regional, expandindo em número e qualidade seus parceiros econômicos e tornando-o, na prática, uma ponte comercial estratégica entre a Europa e a Ásia. Um sonho que pode ser viabilizado, desde que Israel consiga encontrar uma solução permanente para a longeva disputa com os palestinos — não à toa, Trump tem participado apaixonadamente desse tema.

O presidente Donald Trump participa da cerimônia de assinatura dos Acordos de Abraão entre Israel, Emirados Árabes Unidos e Bahrein, na Casa Branca, em Washington, D.C., em setembro de 2020 | Foto: Shutterstock

Pedras no caminho

Esses dois símbolos poderosos de cooperação regional foram celebrados por uns e encarados como ameaça por outros. No topo da lista de opositores está o Irã e seus proxies. A indignação ficou evidente em 7 de outubro de 2023, quando o Hamas iniciou uma guerra sangrenta com o objetivo — entre outros — de interromper as conversações entre Israel e Arábia Saudita. Autoridades palestinas já haviam criticado os Acordos. Segundo o Centro Palestino de Pesquisa e Políticas, 80% da população os descreveu como um ato de “traição, insulto e abandono”.

O mesmo 7 de outubro, entretanto, se transformou no primeiro teste de resiliência dos Acordos de Abraão. “Alguns países signatários reduziram sua intensidade diplomática, mas ninguém os abandonou. Ao contrário, os Acordos permitiram o transporte de produtos entre Emirados Árabes, Bahrein e Israel via Arábia Saudita, evitando o Mar Vermelho e a ameaça dos Houthis, um dos proxies do Irã”, explica Grossman.

Além disso, a Emirates, companhia aérea emiradense, foi a única, junto às israelenses, a manter seus voos durante toda a guerra, uma demonstração prática de que os Acordos vieram para ficar. Grossman cita ainda um exemplo na área da defesa: na noite de 14 de abril, Emirados Árabes e Jordânia derrubaram parte dos drones e mísseis lançados pelo Irã contra Israel.

É certo que ainda é cedo para comemorar, principalmente enquanto a região continua se contorcendo em busca de equilíbrio. Mas já é quase possível antever o dia em que os países dessa parte do mundo, que há milênios povoa o imaginário humano com histórias bíblicas e as lendárias 1001 noites, retomarão sua glória passada, abandonarão a guerra, explorarão conjunta e pacificamente seus infinitos recursos humanos e naturais e, por fim, assumirão a posição de destaque que merecem.

Quando isso acontecer, finalmente os descendentes abraânicos árabes e judeus poderão cultivar um destino de paz, progresso e equilíbrio.

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