As imagens dramáticas que abrem o texto, assim como algumas outras já publicadas nesta seção, podem causar desconforto. Registradas pelo fotojornalista Stanley J. Forman em 22 de julho de 1975, revelam o desespero da jovem Diana Bryant, de 19 anos, e sua afilhada Tiare Jones, de 2, ao caírem de uma escada de incêndio enquanto um apartamento pegava fogo em Boston. O registro foi publicado na ocasião pelo jornal Boston Herald e ficou mundialmente famoso, chamado de Fire Escape Collapse, ou Fire on Marlborough Street.


Diana e Tiare saíram pela janela do apartamento em chamas, localizado na Rua Marlborough, e, escoltadas pelo bombeiro Robert O’Neil, aguardaram na escada de incêndio do edifício até que a escada de resgate giratória os alcançasse. Assim que o bombeiro se agarrou à escada de resgate, a escada de incêndio desabou sob seus pés, e elas caíram no chão, cinco andares abaixo, de cerca de 15 metros de altura.
A foto foi tirada com uma câmera motorizada e também mostra vasos de plantas caindo. Diana morreu naquele mesmo dia, mas a criança sobreviveu, com a queda amortecida pelo corpo da mulher. É trágico passar, em segundos, da esperança de resgate imediato para uma fatalidade. Imagens congeladas para sempre testemunharam a vida antes da morte.

Stanley Forman, ao tentar registrar o trabalho heroico dos bombeiros, viu-se, incrédulo, testemunhando uma tragédia dentro de outra tragédia. Estas foram as palavras angustiadas de Stanley, ao relembrar o evento e contar a dinâmica do testemunho fotográfico:
“Foi no dia 22 de julho de 1975. Estava quase na hora de eu deixar a redação do Boston Herald depois do expediente. Recebemos uma ligação sobre um incêndio em uma das áreas mais antigas da cidade, com prédios de estilo vitoriano. Eu fui até o local e corri até a parte de trás do prédio, porque os bombeiros estavam gritando que precisavam de um caminhão com escada para resgatar as pessoas que estavam presas na escada de incêndio do edifício.
Quando olhei para cima, havia uma mulher e uma criança na escada de emergência, e elas estavam se debruçando para tentar escapar do calor do fogo que estava atrás delas. Enquanto isso, um bombeiro chamado Bob O’Neil escalou a parte da frente do prédio até o telhado e viu as duas na escada de incêndio. Ele se abaixou na direção da escada para resgatá-las.

Eu fiquei em uma posição em que pudesse fotografar o que acreditava ser uma operação rotineira de resgate. Uma escada de um caminhão foi acionada para retirá-las do prédio. Elas estavam a uma altura de 15 metros. O’Neil disse a Diana que ele subiria na escada do caminhão e pediu que ela entregasse a criança a ele.
O’Neil estava quase chegando à escada do caminhão quando a escada de incêndio cedeu. Eu estava fotografando quando elas caíram. Depois, eu virei de costas. Eu entendi o que estava acontecendo e não queria vê-las no chão. Eu ainda me lembro do momento em que virei o corpo. Eu tremia.
Depois fiquei sabendo que não teria visto as duas atingirem o chão porque elas caíram atrás de uma cerca onde se encontravam os lixos. Quando finalmente me virei, eu não as vi, mas vi o bombeiro pendurado à escada do caminhão com uma mão, como um macaco, se segurando com muita força. Ele conseguiu voltar depois, com segurança, para o topo do prédio.
Segundo os bombeiros, a mulher amorteceu a queda da criança. Diana morreu na noite daquele mesmo dia. Naquele momento, eu não sabia que a imagem teria um impacto tão grande. Quando comecei a olhar os negativos, voltei as minhas atenções para as cenas do resgate, quando as duas ainda estavam agarradas uma à outra. Eu nem olhei para essa fotografia, porque eu não sabia exatamente o que tinha conseguido registrar. Eu sabia que havia fotografado as duas durante a queda, mas eu só percebi a grandeza da tragédia depois que revelei o filme.
A imagem foi publicada primeiro pelo Boston Herald e depois em jornais de todo o mundo. Houve muito debate sobre a publicação de uma cena tão horrível.
Nunca fiquei incomodado pela controvérsia. Quando penso sobre a publicação da fotografia, não acredito que foi assim horrível. A mulher, no momento da imagem, não estava morta; nós não mostramos uma pessoa morta na primeira página do jornal. Ela morreu, sim, o que é uma coisa horrível. Mas não achei que a escolha de publicar a foto foi ruim. Mas eu sou o fotógrafo, tenho certa inclinação nesse caso.
Sempre que existem histórias sobre incêndio ou tragédias, como no caso do furacão em Nova Orleans, elas fazem as pessoas ficarem mais atentas. Minha fotografia fez com que as pessoas saíssem de casa e checassem as escadas de incêndio, além de reivindicar mudanças na lei. Ela também foi usada em panfletos sobre segurança em caso de fogo por muitos anos.
Trinta anos depois, é bom saber que eu fiz a coisa certa. Eu nunca vi uma imagem como aquela desde então. Já vi fotos que gostaria de ter feito, mas nunca vi nada tão dramático como aquilo. Quando se diz que uma fotografia vale por mil palavras, essa certamente vale por 10 mil.”
Eis aí o dilema entre o direito de denunciar e os princípios morais. A imprensa foi acusada de invadir a privacidade de Diana Bryant, que morreu em razão da queda, e de ser sensacionalista. Em contrapartida, a imagem levou as autoridades de Boston a reescreverem suas leis sobre segurança em escadas de emergência. Grupos de segurança contra incêndio em todo o país usaram a foto para promover iniciativas semelhantes em outras cidades.
Apesar da polêmica gerada e das questões morais levantadas, a fotografia de Stanley ganhou o Prêmio Pulitzer de Fotografia de Notícias Instantâneas em 1976, bem como o prêmio World Press Photo of the Year.

Daniela Giorno é diretora de arte de Oeste e, a cada edição, seleciona uma imagem relevante na semana. São fotografias esteticamente interessantes, clássicas ou que simplesmente merecem ser vistas, revistas ou conhecidas.
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É ridículo, patético e hipócrita acusar alguém pela publicação da foto. Trata-se apenas de um retrato da realidade, sem filtros.
Causa muito mais desconforto as fotos do holocausto, com esqueletos humanos ainda com vida, mas que também fazem parte da história sem filtros do nosso mundo, infelizmente!
Excelente coluna.
Giorno santa muito obrigado pelas memórias em todas as revistas