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Contêineres no Porto do Rio de Janeiro (10/7/2025) | Foto: Pilar Olivares/Reuters
Edição 277

O espelho partido: Trump, tarifas e o custo do consórcio

O que está em jogo é o lugar do Brasil no mundo: se como nação livre e soberana, ou como apêndice útil de regimes que transformaram seus povos em reféns

“Não há tirania mais cruel do que aquela que é
perpetrada sob o escudo da lei e em nome da justiça.”

(Montesquieu, O Espírito das Leis)

A história, ao contrário do que pensam os jornalistas “profissionais” amigos do poder, não se escreve com manchetes chapa-branca. Escreve-se, quando muito, com ironias. E poucas são mais saborosas do que aquela servida na quarta-feira, 9, pelo presidente americano Donald Trump ao regime brasileiro. Ao impor uma tarifa de 50% sobre as exportações do Brasil para os Estados Unidos, Trump não apenas retaliou economicamente um país que, outrora considerado parceiro estratégico, resolveu se alinhar a uma confraria de ditaduras totalitárias e antiamericanas. Ele fez mais: entregou, com a crueza típica dos atos políticos significativos, um espelhinho à elite botocuda que hoje governa o Brasil. Um espelhinho cheio de manchas, rachado, e que reflete não a imagem apolínea da República democrática idealizada, mas a fisionomia dionisíaca, ébria e disforme, de um típico regime de exceção.

A medida não veio sozinha. Acompanhou-a uma carta, endereçada pessoalmente ao descondenado em chefe, em que o presidente americano, sem rodeios diplomáticos, acusou o governo brasileiro e o Supremo Tribunal Federal de promoverem censura, perseguição política, manipulação do sistema judicial e desrespeito à ordem democrática. Foi um desses raros momentos em que a retórica política abandona a hipocrisia usual e se torna uma denúncia moral. O melhor de tudo: apesar de político, Trump só precisou falar a verdade.

Do lado de cá, o reflexo foi previsível. Em sua pose habitual de monarca tropical — mezzo Getúlio, mezzo Chávez —, o marido de Janja convocou uma reunião de emergência. Sempre integrante do governo, só que agora de toga, o comunista Flávio Dino, apreciador de pantomimas, não teve coragem de mencionar Trump, limitando-se à retórica vazia da defesa da “soberania nacional” (como se fora possível um sujeito ser, ao mesmo tempo, comunista e patriota). Também Gleisi Hoffmann, sempre fiel ao script da indignação terceirizada, acusou Trump de investir contra a nossa soberania (uma “soberania” que consiste em orquestrar Petrolões, Aposentões e permanecer impune). Sim, os integrantes do regime PT-STF ousaram defender a mesma soberania que, até ontem, era alegremente hipotecada a Washington, desde que sob os auspícios de Joe Biden — e que, há tempos, é oferecida de joelhos a Pequim, Teerã e Moscou.

Presidente Lula da Silva: apreensão com a perda crescente de apoio no Congresso e busca de socorro com dinheiro público | Foto: Marcello Camargo/Agência Brasil
Presidente Lula da Silva | Foto: Marcello Camargo/Agência Brasil

Falar em soberania nacional no Brasil lulopetista é como ouvir um discurso sobre abstinência pronunciado por Calígula. Trata-se de um conceito mobilizado não por convicção, mas por conveniência. A soberania, neste caso, é uma fronteira sem princípio. Ela se contrai diante dos aliados e se expande diante dos adversários. Não é uma doutrina, é uma ferramenta. E, como toda ferramenta de regimes ideológicos, serve apenas à preservação do poder.

Durante as eleições de 2022, o lulopetismo beneficiou-se abertamente de interferências externas que, em qualquer outro contexto, teriam causado escândalo. O Departamento de Estado americano atuou discretamente, mas de forma assertiva, apoiando a narrativa de que havia uma ameaça golpista pairando sobre o Brasil. ONGs internacionais, plataformas digitais e grupos de “verificação de fatos” foram mobilizados para conter o dito “avanço autoritário” do então presidente Jair Bolsonaro.

Sob o comando unipessoal de Alexandre de Moraes, o STF e o TSE operaram como um verdadeiro partido-corte. Como já diagnosticado por alguns dos últimos comentaristas independentes do país, o STF tornou-se o novo Poder Moderador. Mas não no sentido constitucional do termo, e sim no seu avesso absolutista: moderador não por frear os excessos dos outros Poderes, mas por absorvê-los todos em si. O Congresso é hoje uma casa subalterna, cujos membros se equilibram entre a omissão covarde e a bajulação estratégica. E o Executivo… bom, o Executivo é apenas o braço orçamentário do que se convencionou chamar, com propriedade, de consórcio STF-PT.

Alexandre de Moraes, durante sessão plenária do STF (14/5/2025) | Foto: Fellipe Sampaio/STF
Alexandre de Moraes, durante sessão plenária do STF (14/5/2025) | Foto: Fellipe Sampaio/STF

Trump, ao denunciar essa configuração de poder, rompeu um dos pactos mais silenciosos da diplomacia moderna: o de fingir que países formalmente democráticos ainda o são, mesmo quando os fatos apontam o contrário. E o fez como se deve fazer quando o teatro das boas maneiras se esgota: diretamente, sem eufemismos, e com a autoridade de quem conhece, em carne própria, o funcionamento das engrenagens persecutórias do sistema judicial aparelhado.

É claro que não faltaram “especialistas” para classificar a carta de Trump como “interferência indevida”. Mas esses mesmos não moveram uma vírgula de indignação quando o descondenado, em seus primeiros meses de governo, dedicou-se a visitar e louvar ditadores — de Maduro a Xi Jinping, passando por Ortega e por figuras menores do panteão totalitário. Tampouco reclamaram quando o PT entregou a Petrobras a Evo Morales ou deu a onerosa Abreu e Lima de “presente” a Hugo Chávez. Nenhum editorial foi escrito, nenhuma moção parlamentar foi apresentada, nenhum juiz de primeira instância sugeriu inquérito.

A crítica à “interferência externa” só vale quando parte da direita. Quando é a esquerda que se ajoelha diante de potências autocráticas, trata-se de pragmatismo diplomático. E, se é o senil Joe Biden quem oferece sua mão tutelar, então se trata de “cooperação republicana”. A hipocrisia, no Brasil, já não é mais um desvio: é uma função institucional.

Mas o que Trump fez, ainda que alguns prefiram reduzi-lo a um ato impulsivo, carrega um peso geopolítico inegável. O Brasil está pagando, em prestações visíveis, o preço de ter trocado o Ocidente liberal pela aliança promíscua com o eixo autoritário. Pequim, Teerã, Moscou, Pyongyang, Manágua e Caracas: essas são as novas luzes-guia da política externa brasileira. E, como toda escolha tem um custo, o país agora sente os efeitos colaterais de sua nova posição no tabuleiro internacional.

Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump | Foto: Reprodução/Flickr
Donald Trump, presidente dos Estados Unidos | Foto: Reprodução/Flickr

A tarifa de 50% sobre os produtos brasileiros — sobretudo agrícolas e industriais — não é apenas uma represália econômica. É um recado civilizacional. O Brasil já não é visto como parceiro confiável, mas como satélite ideológico. Não é visto como aliado político, mas como um país em processo de decomposição institucional, onde o Judiciário faz política, o Executivo faz propaganda e o Legislativo faz silêncio.

A consequência econômica será devastadora, sobretudo para o agronegócio, que há anos sustenta a balança comercial brasileira. Mas o problema vai além dos números. O que está em jogo é o lugar do Brasil no mundo: se como nação livre e soberana, ou como apêndice útil de regimes que transformaram seus povos em reféns. O alerta de Trump não é apenas para os próceres do regime brasileiro. É para todos os que, dentro do Brasil, chancelaram, por ação ou omissão, a ditadura socialista ora vigente.

Curiosamente — ou nem tanto —, a reação mais nervosa à carta de Trump partiu justamente daqueles que, até ontem, vangloriavam-se de sua diplomacia “respeitada internacionalmente”. A súbita perda de compostura revela que o regime sabe, ainda que não o confesse, que sua aparência democrática é frágil. E que sua narrativa internacional só resiste enquanto não for confrontada por um ator de peso.

É o que distingue Trump de tantos outros líderes ocidentais: ele não participa do jogo da simulação civilizada. Ele aponta, denuncia, age. E o faz não por capricho, mas por princípio. Porque, goste-se ou não de sua retórica, Trump compreende que o valor central da ordem democrática reside na liberdade — de expressão, de organização, de oposição. E que, onde a liberdade é suprimida por tribunais politizados, já não há democracia, mas apenas a sua fantasia.

A tragédia brasileira, portanto, é menos econômica do que simbólica. A tarifa de 50% é o castigo pelo desprezo à liberdade. É o aviso de que o mundo livre não aceitará passivamente a erosão das instituições em nome de um projeto autoritário travestido de civilização. E é, sobretudo, o espelho partido que nos devolve a imagem do que nos tornamos: uma democracia sem povo, uma soberania sem nação, uma República da coisa privada. Trump apenas segurou o espelho. E nele se viu, sem retoques, o retrato fiel do Brasil sob o consórcio. Um país em que a diplomacia virou antiamericanismo, a cadeira do tribunal virou trono, e o povo virou réu.

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14 comentários
  1. Antonio Carlos Neves
    Antonio Carlos Neves

    Flavio, não esta faltando o entendimento entre os Ministérios da Defesa dos EUA e do BRASIL? Afinal, o próprio Barroso confessou que quando presidente do TSE, pediu apoio aos EUA para dissuadir ações antidemocráticas por parte de MILITARES brasileiros que dependem de cooperação com os Estados Unidos em questões militares?. E agora, que tal Trump se reaproximar dos militares para combater o atual regime autoritário do SISTEMA?.
    Creio que até a velha imprensa tradicional covarde aplaudiria, e a sociedade passaria a admirar novamente as FFAA brasileiras.

  2. Marcelo Gurgel
    Marcelo Gurgel

    Flávio Gordon sempre brilhante nas suas colocações.

  3. MARIA DE LOURDES FERNANDES CAUDURO
    MARIA DE LOURDES FERNANDES CAUDURO

    Parabens Gordon! Excelente texto claro, objetivo . Gostaria que mais pessoas o lessem, mas infelizmente não posso compartilhá-lo pois atingi o limite de compartilhamento nesta edição! Seria muito difícil mandar para o meu e-mail? Abraço. [email protected]

  4. MARIA DE LOURDES FERNANDES CAUDURO
    MARIA DE LOURDES FERNANDES CAUDURO

    Parabens Gordon! Excelente texto claro, objetivo . Gostaria que mais pessoas o lessem, mas infelizmente não posso compartilhá-lo pois atingi o limite de compartilhamento nesta edição! Seria muito difícil mandar para o meu e-mail? Abraço. [email protected]

  5. Gelson Noé Manzoni de Oliveira
    Gelson Noé Manzoni de Oliveira

    O melhor texto desta edição de Oeste. Parabéns, Fávio Gordon.

  6. Renato Perim
    Renato Perim

    Legítimo sucessor de JR Guzzo, Flávio Gordon é definitivamente a revelação do novo jornalismo com J maiúsculo. Parabéns por todas as reportagens, Flávio.

  7. Zulene Reis
    Zulene Reis

    Ainda existem jornalistas que escrevem nossa língua pátria tão desprezada, atualmente: parabéns, Flávio Gordon! Acompanho você na Gazeta do Povo e no X, sempre lúcido e corajoso.

  8. Erasmo Silvestre da Silva
    Erasmo Silvestre da Silva

    Palmas pra Flávio Gordon, deixou o intelecto literário de lado e explicitou com claresa sem pretensões antropológicas. Flávio você tá de parabéns. Ô revista boa danada!!!

  9. Gleidson Saldanha Leite
    Gleidson Saldanha Leite

    Flávio Gordon como sempre fantástico. Escolhe as palavras e as encaixa cirurgicamente no texto. A maneira como se expressa é perfeita

  10. José Oscar Cagliari Hernandes
    José Oscar Cagliari Hernandes

    Como sempre, perfeito. Espero que as sanções não parem por aí. Quem sabe o poder legislativo crie um pouco de vergonha, haja menos em benefício próprio.

  11. Teresa Guzzo
    Teresa Guzzo

    Sempre umprazer ler seus artigos Flávio Gordon. Sim,não somos mais uma Democracia,quando a liberdade de expressão é negada pelo autoritarismo sem escrúpulos, vence a Ditadura.Multas milionárias são impostas a quem contraria esse consórcio que nos governa e usam o medo e o terror para a população. Nossa economia, na qual o agronegócio é fundamental foi abalada,não por Trump que expôs a realidade em que estamos vivendo, mas por fanáticos que se beneficiam de um governo corrupto.

O presidente dos EUA, Donald Trump, fala à imprensa na Sala de Imprensa da Casa Branca em Washington D.C., EUA (27/6/2025) | Foto: Reuters/Ken Cedeno Anterior:
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