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O Orb é uma tecnologia criada por Sam Altman para identificar humanos na internet por meio da digitalização da íris, a fim de distinguir pessoas reais de bots de inteligência artificial | Foto: Reprodução/WorldCoin
Edição 275

Esta máquina quer saber se você é humano

Iniciativa do criador do ChatGPT pretende ajudar a distinguir os humanos das inteligências artificiais

Chegamos a um ponto em que já não é fácil saber quem escreveu o quê. O avanço vertiginoso da inteligência artificial nos últimos dois anos produziu textos tão sofisticados que muitas vezes se confundem com a escrita humana — e, para piorar, há quem se aproveite disso. A fronteira entre autor e algoritmo se tornou difusa, levantando uma questão incômoda: como garantir que um texto assinado por alguém foi realmente escrito por essa pessoa? É uma corrida silenciosa, mas urgente, para proteger não apenas os direitos autorais, mas a própria noção de autoria. Porque, se todo mundo pode dizer “fui eu que escrevi”, então ninguém escreveu nada.

Prova disso é que esse parágrafo acima não foi escrito por mim, mas pelo ChatGPT. Quem fez o quê? — essa é a questão. A clara identificação de obras criadas por inteligência artificial deveria ser uma atitude natural dos autores, mas nem todo mundo tem esse senso de honestidade. Pior ainda quando bots de IA se comunicam com a gente sem deixar clara sua origem.

Sam Altman, o criador do ChatGPT, resolveu partir para um caminho inverso: já que está difícil identificar uma IA, o negócio é identificar os humanos. Sua proposta é que esse processo seja realizado por meio de uma invenção chamada Orb. Sua iniciativa virou capa da revista Time desta semana.

A capa da Time destaca o Orb, dispositivo inovador da World, que representa a transformação tecnológica que está por vir | Foto: Reprodução/Time

O plano de Altman, segundo a matéria de Billy Perrigo para a Time: você se inscreve para o Orb. A câmera identifica as características únicas da íris de seus olhos. “Segundos depois, você vai receber no seu celular a prova inviolável de sua humanidade: um número binário com 12,8 mil algarismos, conhecido como código de íris. Ao mesmo tempo, um pacote de criptomoedas chamado World, valendo aproximadamente US$ 42, será transferido para sua carteira digital — sua recompensa por se tornar um ‘humano verificado’.”

‘A maior rede financeira do mundo’

Sam Altman está tentando se adiantar a um problema inevitável que ele mesmo ajudou a criar, e que se tornou parte da evolução humana. Ainda segundo a matéria da Time:

“Uma vez que a tecnologia que ele desenvolveu na OpenAI ultrapassar certo nível de inteligência (…), será marcado o fim de uma era na internet e o início de outra, na qual a IA se torna tão avançada, tão parecida com os humanos, que não vai mais ser possível dizer que o que você leu, viu ou ouviu on-line veio de uma pessoa real. Quando isso acontecer, imagina Altman, nós vamos precisar de uma nova infraestrutura para a internet: uma camada de verificação para distinguir pessoas reais do número crescente de bots e ‘agentes’ de inteligência artificial.”

Sam Altman prevê uma nova era na internet, na qual a IA será indistinguível dos humanos, e propõe uma infraestrutura de verificação para diferenciar pessoas reais de bots e agentes de IA | Foto: Shutterstock

O objetivo de Sam Altman não é nada modesto. Por meio de sua instituição Tools for Humanity (“Instrumentos para a Humanidade”), ele pretende certificar a condição humana de 50 milhões de pessoas até o fim do ano. Seria apenas o primeiro passo para a identificação de todos os humanos. 

E aí o projeto se complica mais em seus objetivos. O prêmio em bitcoin serviria ao mesmo tempo como um incentivo e base para a criação da “maior rede financeira do mundo”. A ideia de Altman — hoje dono de uma fortuna calculada em US$ 1,7 bilhão — é aproveitar o Orb para gerar uma espécie de “renda universal básica”. 

‘Em benefício de toda a humanidade’

Aplicativos à base de IA estão se tornando cada vez mais capazes de substituir com vantagem os humanos em várias tarefas. São parceiros em projetos, podem ser ótimos professores, realizar atendimentos médicos à distância, e muito mais. “A chegada desses agentes virtuais”, ressalta a matéria da Time, “vai acelerar nossa produtividade e liberar uma era de abundância material, segundo previsão de seus investidores”.

Mas sabemos que nem todos os humanos vão fazer bom uso desse salto tecnológico. A ideia de Sam Altman nada tem a ver com “controle” da IA. O foco está em tentar identificar com clareza quem é humano e quem não é na selva de boas e más intenções em que a internet vive. 

Altman parte de um princípio muito simples: “Humanos têm íris, inteligência artificial não tem”. Já que nem sempre é possível identificar a autoria de algo criado por IA, vamos fazer o contrário: identificar os humanos. 

Sam Altman costuma fazer promessas cheias de boas intenções que mudam ao longo do tempo. A própria OpenAI, de onde saiu o ChatGPT, era para ser uma organização não lucrativa quando foi lançada, em 2005, com o objetivo de desenvolver uma inteligência artificial geral (AGI, na sigla em inglês) “segura em benefício de toda a humanidade”. Em 2019, virou uma empresa lucrativa, o que gerou atrito com o cocriador Elon Musk. Em março, de não lucrativa a OpenAI passou a ser avaliada em US$ 300 bilhões — o equivalente ao PIB de países como Portugal e Noruega.

Seu projeto World, que começou com uma simples identificação de humanos, já virou outra coisa, nem sempre simples de entender. Uma mistura de sistema financeiro, rede social, hub de aplicativos e carteira digital. 

O aplicativo WorldApp mostra que mais de 28,7 milhões de humanos já se inscreveram e 5.655 Orbs foram instalados em 1.153 localizações de 46 países. 

Uma iniciativa como o Orb pode gerar medo e confusão. Às vezes parece o enredo de um filme de espionagem. Um gênio do mal estaria recolhendo todas as identidades do mundo? Com que objetivo?

O World garante que isso não vai acontecer. “Depois de verificar que você é humano, os dados são criptografados, enviados para o seu telefone e permanentemente excluídos do Orb”, informa o site oficial do projeto. “Apenas o seu telefone possui seus dados e seu World ID.”

O World está presente no Brasil desde o ano passado e chegou a distribuir o equivalente a cerca de R$ 600, a título de incentivo, a cada pessoa que escaneou sua íris no Orb. Mas a Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD) proibiu essa remuneração por “infringir a Lei Geral de Proteção de Dados”. O World informou que “pausou voluntária e temporariamente o serviço de verificações no Brasil. Os espaços do World permanecem abertos para fornecer educação e informações ao público”. Os Orbs esperam a autorização do governo federal para voltar a funcionar. 

A complexidade do projeto pode deixar qualquer um meio confuso. Mas a necessidade de diferenciar humanos de bots de inteligência artificial cresce conforme a IA se aperfeiçoa. O projeto World vai ser bem-sucedido nessa distinção? É cedo para dizer. O importante é encarar esse problema de frente com conhecimento, técnica e sabedoria. E não cultuar pesadelos paranoicos que não levam a lugar algum.

A complexidade do projeto World pode gerar confusão, mas a crescente necessidade de distinguir humanos de IA exige uma abordagem cuidadosa e sábia, sem cair em paranoias infundadas | Foto: Revista Oeste

dagomirmarquezi.com
@dagomirmarquezi

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1 comentário
  1. Felipe Polido Fernandes
    Felipe Polido Fernandes

    Não vou escanear minha íris nesse troço nunca kk

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