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Ilustração: Montagem Revista Oeste/Shutterstock/Yuri Murakami
Edição 274

A taxação da selfie

'A mensagem principal já foi passada: o governo não medirá esforços para dar ao contribuinte a chance de pagar tudo que o governo gastar'

— Quando me falaram dessa história de “governo do amor”, custei a acreditar.

— Por quê?

— Porque governo não é amoroso. Governo é governo.

— E agora? Você acredita?

— Mais do que acredito. Eu vejo!

— E como você definiria o governo do amor?

— É um governo que só traz boas notícias. Entendo isso como uma forma de amor.

— Qual foi a notícia boa que mais aqueceu seu coração nos últimos tempos?

— Acho que foi sobre impostos. A parte tributária sempre me acalenta.

— Em que aspecto?

— A gente se sente bem com a gente mesmo quando percebe que está ajudando a construir uma grande nação.

— Você está dizendo que se sente orgulhoso como contribuinte.

— Mais que isso. Toda vez que o Haddad aparece na TV, me sinto um patriota.

— Pena que ele saiu de férias. Tá com saudade?

— Muita. Mas ele merecia. Até um trabalhador incansável pelo seu país tem uma hora que cansa.

— Cansou bem no meio da discussão do novo pacote de impostos, né?

— Evidente. Você já segurou um pacote desses? O negócio é pesado. Não fica achando que é moleza, não. É porque o Haddad tá sempre com aquela expressão serena, aquele ar tranquilo de quem a qualquer momento vai dedilhar um violão na TV. Mas essa doçura esconde um esforço monumental pra segurar o pacote.

— Será que as novas medidas passam no Congresso?

— Isso é o de menos.

— De menos?!

— Claro. A mensagem principal já foi passada: o governo não medirá esforços para dar ao contribuinte a chance de pagar tudo que o governo gastar. O nome disso é responsabilidade fiscal. Nem um centavo gasto pelo governo ficará descoberto pelo contribuinte.

— Pra não se endividar, né?

— Exatamente. Você pegou o espírito da coisa. Melhor pagar agora do que depois com juros.

— E os juros estão altos.

— Os juros estão altos porque os impostos estão baixos.

— Baixos?

— Quanto você paga pra usar o WhatsApp? Zero! Não existe almoço grátis, meu amigo. Falta muita coisa pra taxar. É que o governo é tímido nessa área. Mas pode deixar que com o tempo vamos pagar imposto até pra fazer selfie.

— Como seria isso?

— Direito de imagem. Isso sempre existiu e sempre foi cobrado. Mas com a explosão das selfies as pessoas passaram a produzir e divulgar sua própria imagem, num aumento preocupante da informalidade. O governo tem que entrar pra regular isso.

— Taxando as selfies.

— Claro. Como falei, não existe almoço grátis. Se você está se beneficiando de algo gratuitamente, alguém está perdendo. No caso, o país. Acredito até que, com a taxação da selfie, será possível revogar o aumento do IOF.

— Aí o mercado reagiria bem.

— Entendeu como funciona? Tudo é uma questão de expectativa. Acho até que o Haddad poderia antecipar o plano de taxação da selfie pra acalmar o mercado.

— Por que você não dá essa ideia pra ele?

— Não gosto de interromper as férias dos outros. Deixa o homem descansar.

Fernando Haddad, ministro da Fazenda, e presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no Palácio do Planalto | Foto: Ricardo Stuckert/PR

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10 comentários
  1. James Cesar M A Souto
    James Cesar M A Souto

    “A clandestinidade da produção de selfies sem proteção dos direitos de imagem” é o fim, mesmo!
    Kkkkkkkkkkk
    Fiúza é inacreditável!

  2. Lúcia Helena Fagundes Romanhol
    Lúcia Helena Fagundes Romanhol

    Um ministrinho medíocre como taxades só pode pensar em aumentar impostos mesmos!

  3. Carlos Sergio Souza Rose
    Carlos Sergio Souza Rose

    Maravilhoso Fiuza. Valeu a manhã desta quarta-feira.

  4. Candido Andre Sampaio Toledo Cabral
    Candido Andre Sampaio Toledo Cabral

    É osso! Deixar de prover seus sonhos e sua família para prover a gastança desta quadrilha de volta a cena do crime.

  5. José Antonio Lunardini
    José Antonio Lunardini

    Fantástico mas cuidado com as “dicas”.

  6. Robson Oliveira Aires
    Robson Oliveira Aires

    Fiuza, não dê ideias para esse desgoverno.

  7. Luiz Alberto Silva Dias
    Luiz Alberto Silva Dias

    Só mesmo levando na ironia e fazendo gozação dos atos levianos do desgoverno atual para tornar a amargura de viver aqui mais suportável.

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