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Política

'O Foro de São Paulo é uma ameaça real', disse Kast a Oeste em 2022

Governo Bolsonaro, costumes e economia foram os principais temas

José Antonio Kast, presidente eleito do Chile; direita retorna ao poder | Foto: Reprodução/X/@equipokast
José Antonio Kast, presidente eleito do Chile; direita retorna ao poder | Foto: Reprodução/X/@equipokast

(Entrevista publicada em 1° de julho de 2022)

“Radical” e “ultradireitista”. Os dois adjetivos usados pela velha imprensa para se referir a José Antonio Kast não resistem ao jeito polido e manso do ex-deputado que quase se tornou presidente do Chile em 2021. Caçula de dez irmãos, Kast nasceu em Santiago, em uma família de imigrantes alemães católicos. Sua relação com o liberalismo clássico também “vem de família”, conta: um de seus irmãos, Miguel, foi um dos Chicago Boys, o grupo de economistas que defendia a desregulação econômica como estratégia de crescimento, tendo sido ministro de Estado e presidente do Banco Central durante o governo de Augusto Pinochet.

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Advogado, Kast também foi deputado federal entre 2002 e 2014. Mesmo fora do Parlamento, fundou o Partido Republicano, em 2019, cujo estatuto informa ser “absolutamente contra o aborto em todas as suas formas, contra o casamento homossexual e a favor do direito dos filhos de ter pai e mãe”. O partido também promove “uma economia social de mercado, com forte defesa da livre-iniciativa privada em matéria econômica”.

A Oeste, Kast elogiou o “bom trabalho do governo Bolsonaro na economia e na segurança pública”. Sobre seu país, ele criticou o presidente Gabriel Boric, que, para ele, “está destruindo o Chile”. Também se manifestou contra o texto da nova Constituição, a qual não “trata dos problemas reais do país”. E não descartou disputar o Palácio La Moneda pela terceira vez, em 2025: “Se surgir a oportunidade, posso ir”.

Confira os principais trechos da entrevista.

O presidente Gabriel Boric anunciou um plano de segurança nacional para “reformar a polícia” e desarmar a população. Como o senhor vê isso?

Tradicionalmente, a esquerda argumenta que os criminosos são fruto de uma construção social e associam a pobreza ao crime. Claramente não é bem assim. Dentro desse pensamento, os “progressistas” tentam desacreditar as instituições policiais, não permitem o cumprimento das normas penais e sustentam que o uso de armas por civis gera violência. Lembro que, no Chile, temos uma lei rígida sobre posse de armas. Quem quiser tê-las, precisa cumprir requisitos, como passar em testes psicológicos e comprovar ser maior de idade. São os terroristas e os narcotraficantes que não cumprem as normas. O enfrentamento tem de ser feito às grandes organizações criminosas, e não ao povo. A esquerda tenta mudar o foco da discussão, pondo a culpa nas armas, e não nos criminosos. O presidente Gabriel Boric quer fazer como em ditaduras, a exemplo da Venezuela: somente o Estado pode ter armas, o que atenta contra as liberdades individuais. Seguindo essa lógica, como já ficou demonstrado em vários lugares, a criminalidade vai se expandindo por toda a sociedade. No Brasil, as políticas desarmamentistas de governos anteriores fizeram o índice de violência subir. Com a chegada de Bolsonaro e a aplicação rígida da lei, o nível de violência e o número de assassinatos caíram ostensivamente.

“A esquerda está se apoderando do sistema educacional, cooptando jovens e fazendo-os desacreditar na democracia.”

Há dez anos, a violência no Chile só aumenta. A que se atribui isso?

À forma inadequada com que os governos lidaram com o problema. O Estado de Direito tem de fazer valerem as leis, senão a impunidade prevalece. O Chile não fez isso. Quando há terrorismo, precisa-se combatê-lo com a lei, caso contrário, o narcotráfico vai crescer. O mesmo se aplica a outras circunstâncias. Se não há punição para quem rouba um carro, o criminoso se sente autorizado a agredir o condutor na próxima tentativa de assalto. Se um militante “progressista” bloqueia uma estrada e as autoridades não fazem nada, logo essa mesma pessoa vai dobrar a aposta e pôr fogo em pneus. Torna-se um ciclo interminável. O que temos visto no Chile é a esquerda se apoderando do sistema educacional, cooptando jovens e fazendo-os desacreditar na democracia. Assim, eles passam a enxergar a revolução como a única via para transformar a sociedade.

Como o senhor vê a nova Constituição chilena?

Esperamos que os cidadãos rejeitem a atual proposta da Assembleia Constituinte. A maioria dos chilenos quis mudanças constitucionais, mas não essas que hoje levariam o país a um fracasso semelhante ao experimentado por outras nações com mudanças constitucionais parecidas. Queremos direcionar nossos esforços para resolver as causas urgentes da sociedade, que geraram a mobilização social de 2020. As pessoas foram às ruas porque queriam melhorar o sistema de saúde, as aposentadorias e as políticas habitacionais. Ressalto, porém, que todas essas exigências não requerem uma mudança constitucional, mas, sim, legislativa. A esquerda soube usar a sensibilidade das pessoas naquele momento e responsabilizou a Carta Magna por todos os males do Chile. Ao deparar com o novo texto constitucional sugerido, os cidadãos entenderam que ele não trata dos problemas reais do país, que vão continuar os mesmos se a medida passar do jeito que está.

O Banco Central do Chile prevê recessão na economia no ano que vem. Como reverter esse cenário?

Recuperando a confiança dos investidores, que foi dinamitada pela esquerda e por este governo. Para isso, temos de cortar impostos e reduzir o tamanho do Estado, concentrando seu poder no que é essencial. Precisamos também fazer com que as leis sejam cumpridas. Infelizmente, muitas normas são desrespeitadas no país. Além disso, o governo tem de melhorar a questão da imigração. Atualmente, temos um índice bem alto para o tamanho do país. É um problema grave, visto que o governo não pode fazer tudo. Por último, e não menos importante, faz-se necessário assegurar maior liberdade às pessoas.

“Os comunistas viram que o sistema marxista fracassou na economia e passaram a atuar no entorno de temas como ambientalismo e gênero.”

Qual a sua avaliação sobre o governo do presidente Jair Bolsonaro?

A forma como Bolsonaro lidou no enfrentamento da violência contra os brasileiros foi impressionante, algo que raramente se viu na América Latina. Modificando algumas leis e dando maior autoridade à polícia, o presidente conseguiu reduzir o poder do crime organizado. Outro dado relevante é a maneira como Bolsonaro desburocratizou o Estado, dando maior liberdade à iniciativa privada e permitindo às pessoas empreenderem com maior facilidade. A economia também vai bem. Se comparada a outros países, a inflação brasileira está relativamente baixa, sobretudo se equiparada a gestões anteriores de esquerda. Outro destaque que dou à política econômica de Bolsonaro é que foi possível baixar impostos em áreas distintas, favorecendo o mercado imobiliário e a entrada de investimentos no país. Sobre a condução dele da pandemia, só o tempo dirá se as estratégias do governo deram certo.

De que forma o senhor vê o Foro de São Paulo?

Trata-se de uma reformulação da esquerda depois da queda do muro de Berlim. Os comunistas viram que o sistema marxista fracassou na economia e passaram a atuar no eixo de discussões no entorno de temas como ambientalismo e gênero. A partir daí, reformularam-se como um todo e criaram meios de se instalar nas diferentes esferas de poder da sociedade. Foi uma estratégia exitosa no Brasil, na Venezuela, na Nicarágua, no México, na Argentina, entre outros países. É um processo lento e ao qual precisamos resistir. O Foro de São Paulo é uma ameaça real, porque seus dirigentes formulam estratégias para cada um dos países que querem dominar, estudando-o em sua plenitude e enfraquecendo a democracia. Quando chegam ao poder, causam destruição.

O senhor pretende se candidatar na próxima eleição presidencial?

Estamos realizando um projeto que vai além de uma candidatura. Vamos trabalhar todos os dias para que ideias que propiciem a liberdade cresçam. Para liderar essa iniciativa, pode ser eu ou outra pessoa que representam esse estilo de fazer política. Já disputei a Presidência duas vezes. Se surgir a oportunidade, posso ir, mas não é necessariamente o que buscamos. Por enquanto, continuamos trabalhando. Temos desafios muito grandes no curto prazo.

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1 comentário
  1. José Antônio Batalha Zocccoler
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