Desde a década de 1940, de um modo geral, a esquerda arrogou para si a missão de ser antinazista por natureza, não exatamente porque a ideologia da suástica fosse muito diferente da de foice e martelo, o que de fato não é. Suas práticas, ideias, ações e consequências, pelo contrário, são iguais — quando não piores — em uma análise sincera da história do século 20. Tal autoproclamação se deu depois de a União Soviética ser ameaçada pela ânsia bélica da Alemanha nazista em seu território; diante disso não sobrou muito a Stálin a não ser se juntar aos Aliados. Foram as tropas soviéticas que lideraram a ofensiva final sobre Berlim e invadiram o bunker de Hitler no dia fatídico.
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Desde então os comunistas adotaram tal primazia do combate ao nazismo, seja ele o imaginário — prudencial para sua propaganda — ou o real. A direita conservadora — talvez antes mesmo de os teóricos comunistas perceberem o mal do nazismo, como demonstram pensadores como Eric Voegelin e Ludwig von Mises e, na política, certamente antes de Stálin (basta lembrar as advertências de Winston Churchill sobre Hitler já em março de 1933) —, compreendia com clareza o que representavam o ditador alemão e suas ideias. E se é bem verdade que houve setores da dita “direita” europeia que apoiaram e se encantaram pelo alemão e por sua ideologia macabra, não é mentira também que as ideias de Hitler se basearam no ideário econômico e cultural do comunismo. Quando Hitler deu uma entrevista a Richard Breiting, em 1931, ele afirmou: “Quando era um trabalhador, me ocupava com literatura socialista ou, se preferir, marxista”.

Foi Hitler quem disse ainda: “Além disso, há mais coisas que nos ligam ao bolchevismo do que nos separam dele. Há, acima de tudo, um sentimento revolucionário genuíno, vivo em toda a Rússia, exceto onde há marxistas judeus. Sempre levei essa circunstância em consideração e dei ordens para que ex-comunistas fossem admitidos no partido imediatamente. O social-democrata pequeno-burguês e o dirigente sindical jamais se tornarão nacional-socialistas, mas o comunista sempre poderá”. Isso está no livro The Voice of Destruction, de Hermann Rauschning.
Depois da fundação moderna de Israel, em 14 de maio de 1948, e a escolha por uma democracia ao estilo liberal ocidental, já se sabia que seria questão de tempo para que os comunistas começassem a atacar o novo país. E foi o que ocorreu, ainda que no primeiro ano de fundação do Estado de Israel Stálin tenha apoiado a ideia, não demorou muito para que, já em 1949, dado ao alinhamento dos líderes judeus à democracia de estilo norte-americana, a URSS passasse a acusar Israel de ser um Estado sionista. Esse termo, aliás, como verão, continua sendo a exata terminologia do ataque dos neossoviéticos brasileiros, europeus e norte-americanos. Aqueles que então se afirmavam como defensores dos judeus e caçadores de antissemitas, passaram a odiar Israel por meio de inúmeras desculpas; e se não mais por meras questões de raça — mas também por isso —, agora o faziam com relação à cultura, à geopolítica e à economia alinhada ao Ocidente.
E aqui deve ficar claro que o comunismo, durante o século 20, embora em propaganda se colocasse contrário ao racismo de todos os tipos, produziu em diversos momentos manifestações concretas de antissemitismo político e institucional. Na União Soviética, especialmente depois de 1948, Stálin conduziu campanhas que disfarçavam o preconceito sob o manto do “antissionismo”: escritores e intelectuais judeus foram perseguidos na ofensiva contra o “cosmopolitismo sem raízes”, o Comitê Judaico Antifascista foi dissolvido e seus líderes executados, e o “caso dos médicos”, em 1952 — vale a pena pesquisar —, inventou uma conspiração judaica para assassinar dirigentes soviéticos.
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No mesmo espírito, a Tchecoslováquia encenou o julgamento Slánský, no qual onze comunistas, em sua maioria judeus, foram executados sob acusações de sionismo — já ficou claro, a este ponto, que o “sionismo” é a desculpa histórica da esquerda para perseguir judeus. Essas ações comunistas revelavam um uso instrumental do antissemitismo: serviam para purgar opositores internos, estabelecer limites aos judeus e suas características históricas, além de reforçar o poder pessoal dos líderes, camuflando preconceito étnico como zelo ideológico.
Fenômenos semelhantes se repetiram em outros regimes do bloco soviético. Na Polônia, em 1968, uma campanha “antissionista” depois da Guerra dos Seis Dias degenerou em expurgo antissemita em larga escala, com milhares de judeus expulsos de universidades e cargos públicos. Na Hungria e na Romênia, as lideranças comunistas adotaram retóricas nacionalistas que associavam o “sionismo internacional” a conspirações burguesas, enquanto intelectuais marxistas reproduziam estereótipos sobre o “judeu cosmopolita”. Embora o comunismo proclamasse a igualdade entre os povos, a lógica autoritária e o oportunismo político frequentemente reintroduziram o antissemitismo como instrumento de poder e controle ideológico, convertendo o “inimigo de classe” em inimigo étnico sempre que conveniente.
Hoje assistimos isso novamente. No Brasil, a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), no último dia 2 de outubro, foi palco de uma manifestação em apoio à Palestina, todavia, o que se viu em seu conteúdo foram discursos em defesa do Hamas, cantos antissemitas e apoio aberto ao terrorismo. O combate, eles diziam —vejam só —, era contra o sionismo de Israel. Isso tem se replicado pelo mundo desde o ataque de 7 de outubro de 2023.
Esse é o tipo de antissemitismo “que pode”, segundo o nosso atual padrão moral e político, pois quando a desculpa se aloja em um SIONISMO qualquer, está então autorizada a repulsa e a pregação da supressão judaica como forma de “protesto democrático”. Jamais existiram tantos antinazistas nas universidades que odiassem de tal maneira os judeus. É verdade que unanimidade tende a ser burra, o que significa que, obviamente, nem todo socialista concorda com essa radicalização antissemita da esquerda, porém, se ficam oportunamente quietos ante o absurdo, isso já basta para não serem meros inocentes.
Esta semana, na Faculdade de Direito da USP, estudantes se mobilizaram em prol do cancelamento da palestra de André Lajst, cientista político, judeu, e CEO do Stand With US Brasil — organização ligada à promoção e defesa dos valores judaicos no mundo. Adivinham do que acusaram Lajst: sionismo. Como disse, aqui a história se repete, e nesse caso, até a desculpa. Fico com a sensatez do professor Alain Besançon que em seu monumental A infelicidade do século dizia que: “A amnésia do comunismo e a memória do nazismo se exasperam mutuamente quando a simples e justa memória basta para condená-los a um e outro”.
A esquerda radical, por melhor que seja sua propaganda, não consegue resistir a um descortínio sincero de suas ideias e ações. A suposta defesa dos direitos palestinos nada mais é do que vagas escusas para suas reais intenções políticas: a revolução, a tomada do poder, a imposição de seus ideais. Se amanhã a Palestina se estruturar, e sua visão de Estado se alinhar à democracia liberal, rapidamente a esquerda ajustará seu discurso para torná-la má, para combater sua existência e, quiçá, chamá-la de antissemita. O socialismo continua sendo esse amontoado de contradições calculadas, feitas para enganar jornalistas, população desavisada e jovens ingênuos. O antissemitismo ainda existe de fato, e cabe dizer que os que se autointitulam antinazistas são hoje os que mais se aproximam de uma perseguição sistemática, cultural e ideológica aos judeus no Ocidente. Conforme Rauschning, Hitler afirmou: “Aprendi muito com o marxismo, como não hesito em admitir”. Talvez o contrário seja mais verdadeiro do que o nosso mainstream socialista seja capaz de admitir.
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