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Política

Meu pai nunca leu Kant

A fraqueza virou método e vício. E o que não dizem sobre é que ela alimenta inimigos internos

kant
Foto: Reprodução

Existem coisas que somente a experiência de uma vida pode ensinar. Por exemplo, quando li na universidade Resposta à pergunta: O que é o Esclarecimento?, de Immanuel Kant, o texto dizia que “Esclarecimento [Aufklärung] é a saída do homem de sua menoridade, da qual ele próprio é culpado. A menoridade é a incapacidade de fazer uso de seu entendimento sem a direção de outro indivíduo. O homem é o próprio culpado dessa menoridade se a causa dela não se encontra na falta de entendimento, mas na falta de decisão e coragem de servir-se de si mesmo sem a direção de outrem”. Eu só consegui entender isso colocando a reflexão de Kant em perspectiva com a história de meu pai.

Meu pai — meu padrasto que considero pai — é um homem que foi forjado por meio de desgraças prematuras, perdeu os pais muito cedo, quando tinha sete anos, foi criado por sua irmã mais velha que, para sustentar a ela e seus irmãos, precisava trabalhar o dia todo. Como um dos mais novos dos irmãos, ele precisou aprender, ainda criança, a se virar seja com a comida, seja com as escrotices do mundo. Enquanto a modernidade se orgulha da dependência, a trajetória do meu pai ilustra o que Roosevelt chamava de “o homem na arena”; o homem que pisa no mundo e aprende sem lousas e ChatGPT. Menino negro, pobre, porém com uma educação moral incrivelmente sólida, forjada num catolicismo familiar absurdamente efetivo, o Beto — como é conhecido até hoje — não teve muito tempo de reflexão para entender que precisava ser forte e justo em seu mundo.

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Ele não teve aquele sucesso profissional que faz reels viralizarem e coachs contarem sua história em palestras milionárias, na verdade, até afastar-se do trabalho após um acidente, sempre foi um homem resignado como cobrador de ônibus. Certa vez, tomando uma cerveja com ele, perguntei: “O senhor já sofreu racismo?”, ele disse: “Muitas vezes” e se calou. Insisti: “Mas o que o senhor fez?”, ele respondeu: “Fui melhor que o racista”.

Meu pai não é dado a divagações — a não ser sobre religião e futebol, é claro —, em questões morais, quando eu era adolescente, ele costumava ser assertivo: deve ou não deve, vai quebrar a cara ou não.

Durante o acidente que quase o deixou aleijado, sua única preocupação era pedir que eu cuidasse da minha mãe e de minha irmã grávida. Abnegado, em nenhum instante falou dele próprio; e num mundo em que se disputa o melhor ângulo de postagem de uma foto, o melhor vídeo sobre o look do dia e se calcula qual o melhor arroba para determinada rede social, convenhamos, é preciso ser muito forte para não se julgar o centro das próprias preocupações.

Homens como o Beto parecem estar em extinção, pois a virtude da fortaleza é, sem dúvidas, o mais esfarelado dos valores em nossos dias. É bom mostrar fraqueza, denota humildade, empatia e “sororidade”. E como tais sinalizações de virtudes progressistas engajam, alimentam discursos militantes e concedem instrumentos poéticos para músicas melosas e postagens no Leo Dias, tornou-se bom ser fraco.

A fraqueza virou método e vício. E o que não dizem sobre é que ela alimenta inimigos internos, glutões, que jamais se saciam até não sobrar nada de nossas liberdades. Nós nos tornamos dependentes orgulhosos, e todo dependente orgulhoso tem um senhor supremo, o Estado, o líder estudantil, o guru intelectual, a tecnologia, o vício etc. E aí que se manifesta um dos paradoxos da modernidade: o indivíduo que mais goza de liberdade informacional, migratória, tecnológica e moral é o indivíduo mais dependente de forças terceiras para viver a própria vida.

Somos a geração que mais precisa de intervenções farmacológicas e psicológicas, que mais busca entretenimentos para apaziguar crises, que mais relaciona suas ideias a fast-foods ideológicos, que usa a tecnologia como droga e que defende as drogas como estilo de vida.

A fraqueza leva à justificação dos próprios erros, a justificação cai na autocomplacência, a autocomplacência, por sua vez, descamba na dependência, a dependência gera comodidade, e a comodidade cria homens e mulheres moralmente débeis, incapazes de administrar crises e conflitos. Esse homem frágil, com o passar do tempo, colherá as consequências de sua fraqueza; não tem como fugir dos efeitos da devassidão, não tem como fugir dos efeitos do vício em substâncias, então por que haveria de não chegar os boletos da fraqueza? E quando as consequências chegam, em essência, há apenas duas formas de agir: responder ao desafio com força, resolução e discernimento; ou delegar a uma força paternal que faça isso por você. O primeiro caminho é o caminho da maturidade e da decisão, da escolha pela autonomia. O segundo caminho é a escolha da dependência, do vitimismo e da imaturidade, dando a terceiros uma procuração de suas decisões. O problema do caminho dois? Só um: só há liberdade quando há autonomia, escolhas e enfrentamentos; na dependência consentida só há comodidade e parasitismo.

Sem nunca ter lido Kant, meu pai entendeu perfeitamente o conceito de “menoridade” (do alemão Unmündigkeit), isso é, um estado de submissão intelectual e moral consentida ante terceiros. Apesar de negro e pobre, ele sempre escolheu a autonomia consciente à vitimização covarde; meu pai tem defeitos, mas submissão moral não é um deles, sua existência jamais foi dada e nem alugada para terceiros.

O que meu pai e tantos outros pais, irmãos, mães, tios e avós praticam não é nada novo. Trata-se da velha honra de “aguentar firme”, de lamber as próprias feridas em vez de, na primeira arranhadura, chorar em um divã de R$ 500 a hora ou na timeline de alguma rede para milhares de pessoas; para esses homens e mulheres há grandiosidade em reajustar as próprias dores numa reflexão aberta sobre si próprios, em confrontar demônios internos e fazer um inventário sincero das próprias debilidades; para esses tipos de homens e mulheres, há virtude em lutar escondido contra as próprias inclinações erradas, em ser moralmente heroico sem precisar sinalizar virtude no Instagram.

Tais valores esquecidos, quando tornados meros discursos moralistas em bocas hipócritas, não passam de rigorismos e dissimulações sociais dispensáveis; mas quando praticados com maturidade e retidão por indivíduos inconformados com a escravidão moral e social de suas escolhas e condições, aí tais elementos formam um homem maduro, confiável, forte e — como cada vez se mostra mais claro — somente homens assim são confiáveis.

Afinal, o homem fraco, quando escutar seu grito de socorro, hesitará e, no máximo, pedirá ajuda ao Estado enquanto lamenta sua tremedeira embaixo de um edredom florido; o homem forte, por sua via, arrombará a porta do apartamento pronto para resolver o que o aflige. Quando a crise chegar e a sirene tocar, qual deles você vai querer como vizinho? Meu pai ou um especialista.

Leia também: “O supremo estafeta”, artigo de Augusto Nunes publicado na Edição 319 da Revista Oeste

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1 comentário
  1. Ana Cláudia Chaves da Silva
    Ana Cláudia Chaves da Silva

    Excelente reflexão. Parabéns, adoro seus artigos.

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