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Política

Flávio Gordon: 'Bolsonaro, o Idiota'

Insulto de Vorcaro ao ex-presidente mostra como as elites desprezam quem está fora do sistema

O ex-presidente Jair Bolsonaro: posto e patente ameaçados | Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
Bolsonaro segue preso na Papudinha | Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

“Eu sei que sou ridículo. Agora sei melhor do que todos que sou ridículo.” (O Idiota, Fiódor Dostoievski)

Em mensagem enviada à sua manteúda, o mafioso Daniel Vorcaro refere-se a Jair Bolsonaro como “idiota”. A intenção era obviamente hostil. No vocabulário corrente da elite política e financeira nacional, “idiota” significa alguém incapaz de compreender as sutilezas do poder, a aritmética das conveniências ou o teatro das virtudes públicas. Vorcaro poderia ter optado por “imbecil”, termo escolhido por Alexandre de Moraes para se referir aos internautas brasileiros de direita. Ou por “mané”, a famigerada ofensa lançada por Luís Roberto Barroso contra um eleitor de Bolsonaro.

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“Idiota”, “imbecil” e “mané” têm, nesse sentido, a mesmíssima função, a saber: firmar a distinção entre “nós” — a elite dos malandros, dos espertos, dos reis da cocada preta, dos poderosos, intocáveis e acima da lei — e “eles” — os simplórios, os estúpidos, os que não têm poder, os “contribuintes”, os que não têm modos nem pedigree. Estes, enfim, os que não fazem parte da “Turma” — a cleptocracia que comanda a República.

Portanto, o ex-controlador do Banco Master (e de boa parte de Brasília) tem razão. Bolsonaro é um idiota. Não, obviamente, no sentido pretendido por Vorcaro, Alexandre, Barroso et caterva. Há insultos que, quando examinados com alguma atenção literária, acabam se convertendo em elogios involuntários.

Pois há uma concepção alternativa de “idiota”, aquela consagrada por Dostoievski no romance homônimo: O Idiota, publicado em 1869. O protagonista, o príncipe Lev Nikoláievitch Myshkin, não é estúpido. Pelo contrário: é perspicaz, sincero, profundamente humano. O que o torna um “idiota” aos olhos dos outros é algo muito mais grave. Ele é incapaz de cinismo. Não sabe fingir virtudes que não possui. Não domina a arte da intriga elegante nem o cálculo frio das vantagens. Num ambiente construído sobre ambição, vaidade e dissimulação, só poderia mesmo parecer uma anomalia.

Myshkin é considerado um idiota precisamente por não saber participar do jogo social que estrutura a vida das elites locais. Algo semelhante ocorre com Bolsonaro no ambiente político brasileiro. Brasília é uma corte tropical cuja etiqueta fundamental consiste em nunca dizer exatamente o que se pensa. Ali prospera o político que domina a retórica da moderação enquanto negocia nos bastidores; o banqueiro que financia todas as facções ao mesmo tempo; o tecnocrata que ostenta virtudes republicanas enquanto administra discretamente seus próprios interesses.

Por que Bolsonaro é detestado pelas elites

Nesse ambiente, desde quando era um parlamentar do “baixo clero” (epíteto que sempre lhe foi atribuído), Bolsonaro sempre pareceu deslocado — quase que antropologicamente deslocado. Falta-lhe o verniz polido do profissional da política. Falta-lhe, sobretudo, a hipocrisia disciplinada que permite ao establishment proclamar valores elevados enquanto pratica vícios muito terrenos.

Daí a irritação quase visceral que ele provoca em certos círculos. O problema de Bolsonaro não é exatamente o que ele faz, mas como ele faz: de maneira direta demais, transparente demais, desajeitada demais para o gosto de uma elite que vive da coreografia das aparências. Bolsonaro é o relógio Cassio no pulso, num universo de Pateks Philippes.

Assim como Myshkin, Bolsonaro frequentemente parece incapaz de perceber as regras implícitas do jogo social. Diz o que pensa quando seria politicamente mais prudente recitar um clichê. Expõe conflitos que, segundo o protocolo da elite, deveriam permanecer cuidadosamente velados. Em vez de se adaptar à atmosfera rarefeita dos salões do poder, insiste em falar a linguagem mais áspera das ruas.

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Eis a dimensão dostoievskiana da presença de Jair Bolsonaro na cena política nacional. Para o establishment político-financeiro, um homem que não domina perfeitamente a arte da dissimulação só pode ser um idiota, um “beócio” — como também se lhe referiu Vorcaro. E talvez seja justamente por isso que tantos brasileiros comuns — também chamados de “idiotas” e “manés” a cada desafortunado encontro com uma cleptocracia nacional que os despreza — o compreendam intuitivamente. Eles também sabem, por experiência própria, que a sociedade brasileira é governada por uma elite que ostenta belas virtudes públicas com a mesma desenvoltura com que pratica os piores vícios privados.

Nesse mundo de máscaras, o “idiota” — aquele que não sabe mentir com elegância — acaba adquirindo uma estranha dignidade. Como o príncipe de Dostoievski, Bolsonaro sente-se deslocado entre os grandes profissionais do poder. E é esse deslocamento que explica tanto o desprezo que desperta nas elites quanto a lealdade obstinada que inspira fora delas. Se isso é ser idiota, então é uma forma singularmente respeitável de idiotia.

Leia também: “Vá em frente, ministro”, artigo de Augusto Nunes e Carlo Cauti publicado na Edição 312 da Revista Oeste

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7 comentários
  1. Aeduardo
    Aeduardo

    Sensacional, esplêndido artigo de autoria de um profissional que passarei a acompanhar com mais atenção!
    Uma pena -lamentável- de não haver uma forma na página para compartilhar a definição aqui aprendida !
    Leitura suave de um esclarecimento conciso e sutil de quem é o nosso ex Presidente da República (maiúsculo).

  2. RAFAEL MORENO JUNIOR
    RAFAEL MORENO JUNIOR

    Sr. Flávio Gordon, meus parabéns, mas um parabéns de excelência, do mais alto nível! O seu texto é absoluto, mostra a realidade do que vivemos no Brasil hoje e, acima de tudo, o que o Sr. Jair Bolsonaro vem enfrentando desde sempre. As colocações, os adjetivos e o entendimento de tudo que envolve esse teatro do poder é mostrado de modo objetivo e claro. E como ocorreu com o prícipe russo do romance citado, vemos que é um jogo atemporal e que ocorre em todo lugar que exista gente, então infelizmente a perspectiva é muito ruim e espero que a cada dia somemos mais e mais “idiotas” como Bolonaro pra termos alguma chance de equilibrar a batalha com os cleptocratas que aí se encontram!

  3. Marcelo DANTON Silva
    Marcelo DANTON Silva

    Todo IDEALISTA é Idiota!
    Mais idiota ainda …é o idealista que NÃO deixa Roubar tanto.
    AGORA o IDIOTA que MERECE TUDO de pior é o que NÃO deixa ROUBAR NADA.
    Nem os amigos que se aproximaram e nem os inimigos declarados.
    ESSE último tem de ter a vida desgraçada, preso, imolado em praça pública!
    A família também.
    Os apoiadores então…para a guilhotina….maximo das leis ….Sem Anistia…aplicadas mesmo sem provas.

    Mas sabem em que MOMENTO da vida do IDIOTA essa definição É PERTINENTE!?
    Quando SE DEIXA TRAIR Sistematicamente.
    Nesse quesito…Bolsonaro PAI ..É a plenitude do significado de IDIOTICE.

    Vida Longa e Próspera ao CLÃ BOLSONARO,
    para verem seus inimigos OBLITERADOS…
    SEM PERDÃO ou ANISTIA!
    Chega de BOSTIL TIL TIL….
    Queremos o BRASIL de Volta! Com Bolsonaro!

    1. Marcelo DANTON Silva
      Marcelo DANTON Silva

      PS.
      Eu sou idealista também, portanto, um IDIOTA!
      MAS sempre Deixo Bem Claro como trato traidores…..Vorcaro seria um bebezinho.
      Prefiro que me Temam do que me Amem!
      E o idiota mesmo….é aquele que “pagaria pra ver”.

  4. Antonio Saggese Netto
    Antonio Saggese Netto

    Esse texto deveria ser impresso isoladamente, fora da revista, e distribuído gratuitamente pelo Brasil afora.

  5. Marcelo DANTON Silva
    Marcelo DANTON Silva

    Oras! Isso é antigo…BASTA OLHAREM Direito aos donos do Banco ITAU e do nióbio!
    Olhem!

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