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Política

Cultura política

'A esquerda usa sempre o poder de que dispõe justamente para impor a sua ideologia'

De 2016 a 2024, ocorreram 37 ataques de esquerda, motivados principalmente por ressentimento partidário ou oposição ao governo | Foto: Reprodução/Freepik
'A oposição no Brasil encontra-se em estado profundo de desorientação', afirma Flávio Gordon | Foto: Reprodução/Freepik

“Durante o período mais intenso, tornar-se comunista era adentrar um novo universo, verdadeiramente aderir a uma cultura, à qual não faltavam rituais de iniciação e um conjunto de normas, valores e linguagem próprios” (Rodrigo Patto Sá Motta, A Cultura Política Comunista).

A oposição no Brasil encontra-se em estado profundo de desorientação. Diante da realidade de um regime de exceção comandado por um consórcio entre Judiciário e Executivo, boa parte dos agentes que alegam querer derrotar o governo (e esses confundem “governo” com o mandato presidencial do descondenado-em-chefe) entrega-se a interpretações delirantes. Em seu raciocínio, o critério número um de avaliação do atual cenário — e a consequente linha de ação a ser adotada — é a perspectiva eleitoral para o ano que vem, quando teremos um pleito que, se nada for alterado no cenário político-institucional, ocorrerá de modo tão irregular, manipulado e aberrante quanto o ocorrido quatro anos antes, quando uma junta de magistrados eleitorais amarrou os braços e tapou a boca de um dos contendores, concedendo ao outro toda liberdade de ação.

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O centrão fisiológico e seus porta-vozes têm adotado essa perspectiva. Segundo eles, a receita para derrotar o PT (e, ao contrário de José Dirceu, quando falam em derrotar eles pensam apenas em “vencer eleições”) é apresentar-se como agente pacificador do país, como alguém que, superando a polarização e as disputas ideológicas, bem como o “atraso” do governo Lula, apresentará um plano de governo racional e eficaz. Segundo os adeptos dessa tese, essa é a única maneira de abordar a política de modo realista e pragmático.

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Na rede social X, um dos representantes dessa visão, alguém em tese contrário à hegemonia política da esquerda socialista no Brasil, escreveu: “A disputa não é ideológica. É disputa por poder”. A frase feita, expressa categoricamente sob forma de aforismo, explica em parte a assimetria da luta entre a esquerda e a direita no país. E expressa, sobretudo, a diferença entre a existência e a ausência de uma cultura política.

No século 19, o antropólogo britânico Edward B. Tylor, um dos pais da disciplina, definiu cultura como “um todo complexo que inclui conhecimento, crença, arte, moral, lei, costume e quaisquer outras capacidades e hábitos adquiridos pelo homem como membro da sociedade”. Segundo esse entendimento, a cultura é um ambiente total, que envolve o indivíduo por todos os lados, conformando as suas dimensões cognitiva, psíquica, emocional, social, histórica e simbólica. Eis, em resumo, a ideia antropológica clássica de cultura.

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Cultura no campo da política

Pois bem. Aplique-se esse entendimento ao campo da política, e teremos uma noção do que é uma cultura política. Assim como a cultura em geral, uma cultura política não pode ser compreendida como um corpo doutrinal ao qual se adere de maneira consciente e plenamente voluntária, como quem apanhasse produtos na prateleira do supermercado. Não se trata de um objeto extrínseco situado no campo visual de um sujeito, mas, ao contrário, do próprio campo visual pelo qual o sujeito contempla todo e qualquer objeto.

O falante maduro de uma mesma comunidade linguística (de uma mesma cultura, portanto) não precisa raciocinar gramaticalmente ou refletir sobre o vocabulário antes de falar. Ele simplesmente abre a boca e fala. Assim também um membro de uma determinada cultura política falará automaticamente — e sentirá, e interpretará, e agirá — como os outros membros da mesma cultura. Nesse sentido, a política pode ser concebida como aquilo que o sociólogo Pierre Bourdieu chamou de habitus.

Eis por que noções tipicamente liberais como as de “escolha racional” ou “cálculo de interesses” sejam inadequadas para a compreensão da política, cuja dimensão cultural não pode ser desconsiderada. Afinal, uma orientação política também traduz um complexo de valores, tradições, linguagem, simbolismos e representações compartilhados, que consolidam uma identidade coletiva, uma memória social e um fundamento para a ação prática.

Tendo uma cultura política consolidada no Brasil, a esquerda usa sempre o poder de que dispõe justamente para impor a sua ideologia — que podemos definir como o discurso pretextual que unifica e justifica, tanto prévia quanto retroativamente, a sua ação política. Tendo essa cultura, ela é mais capaz que a direita de organizar seus quadros para a ação, e de modo até intuitivo, muitas vezes sem a necessidade de doutrina expressa ou comando direto. Esse é o efeito da presença de uma cultura política, que serve para as pessoas se reconhecerem como iguais políticos, como membros de uma mesma comunidade moral, partícipes de uma mesma memória histórica e falantes de uma mesma linguagem.

Quando dizer é fazer

Dentro de uma mesma cultura política, os atores podem ter grandes divergências quanto aos meios de ação e quanto aos próprios objetivos a alcançar. Mas, reconhecendo-se como iguais, partilhando o mesmo simbolismo público e a mesma sensibilidade social, eles acabam agindo num mesmo sentido quando em oposição ao estrangeiro, o membro (real ou pressuposto) de uma cultura política distinta.

Portanto, é insensata a ideia de uma política sem ideologia ou supra-ideológica. Ao contrário do que se passa com a esquerda, a ausência de uma cultura política de direita faz com que, por detrás das ações dos diversos agentes, inexista um discurso e um simbolismo que lhes dê coerência e senso de continuidade histórica.

Análises como as do autor do comentário aqui considerado operam uma separação radical — e ideal — entre o fazer político e o que se diz desse fazer, como se esses dois planos não fossem interpenetrados e mutuamente dependentes na assim chamada realpolitik. De fato, talvez não haja outro ramo de atividade humana em que se aplique tão perfeitamente a máxima de John Austin, o célebre filósofo da linguagem: quando dizer é fazer.

No fim, quem tem mais chances de ganhar a luta política (que, mais uma vez, não se confunde com vencer eleições eventuais): quem compreende a relação entre política, ideologia e cultura ou quem acha essas são esferas autônomas? Os que entendem que ideologia e poder andam necessariamente de mãos dadas ou quem opera uma cisão teórica, artificial e ideal entre as duas coisas? Deixo a resposta ao leitor.

Leia também: “Trump, Hegseth e o retorno da sanidade”, artigo de Flávio Gordon publicado na Edição 290 da Revista Oeste

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1 comentário
  1. Elisa Ávila Rodrigues
    Elisa Ávila Rodrigues

    Ficou cortado o texto. Não aparece o final. Tem que melhorar muito a Revista. Pra que colocar vídeos em meio ao texto? Só atrapalham…

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