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Protestos no Irã: ruas clamam por ‘Morte ao ditador’

Manifestantes já controlam Teerã e derrubam estátuas dos heróis do regime. Trump avisou que os aiatolás ‘serão atingidos com muita força’

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Manifestantes se reúnem enquanto veículos queimam, em meio à crescente onda de protestos antigovernamentais em Teerã, capital do Irã — 9/1/2026 | Foto: Reprodução/Redes sociais/Via Reuters

Os protestos que atravessam o Irã chegaram ao 14º dia consecutivo, passando de uma manifestação de fundo econômico para um risco cada vez mais possível de derrubada do regime dos aiatolás. As manifestações começaram como uma reação popular à deterioração econômica, mas rapidamente se transformaram em um movimento abertamente hostil à ditadura islâmica que governa o país desde 1979. Em várias cidades, manifestantes passaram a entoar slogans contra o líder supremo, Ali Khamenei, e contra o sistema clerical que sustenta o regime.

Desde 28 de dezembro, manifestações ocorreram em dezenas de cidades e se espalharam por grande parte das províncias iranianas. Segundo análises da emissora britânica BBC, protestos com imagens verificadas ocorreram em pelo menos 17 das 31 Províncias do país, com relatos adicionais em outras regiões. O número real, segundo os próprios analistas, tende a ser maior, já que nem todas as manifestações geram registros em vídeo.

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“Em Teerã, manifestações espontâneas surgiram em reação direta à crise da economia e à perda acelerada do poder de compra”

A mudança de um protesto econômico para uma nova manifestação nacional contra o regime mostrou um alcance geográfico e simbólico muito maior do que o comum. Até a última quinta-feira, 8, mesmo cidades como Qom e Mashhad, centros religiosos do islamismo xiita e historicamente leais à teocracia, registravam protestos. Mas a partir de sexta-feira 9, mesmo a capital Teerã parece dominada pelos manifestantes. Para observadores externos, a adesão dessas localidades mostra que o desgaste do regime não se limita a grupos urbanos ou jovens dissidentes, mas alcança setores tradicionalmente alinhados ao poder clerical.

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Embora o governo iraniano ainda mantenha o controle das forças de segurança, a persistência dos protestos e sua expansão territorial configuram o maior desafio interno enfrentado pelo regime desde a revolta de 2022, desencadeada pela morte de Mahsa Amini sob custódia policial.

A faísca inicial foi econômica. No fim de dezembro, o rial iraniano sofreu mais uma forte desvalorização frente ao dólar e a outras moedas estrangeiras. O impacto foi imediato no custo de vida de uma população já pressionada por inflação elevada, desemprego e escassez de produtos básicos. Em Teerã, manifestações espontâneas surgiram em reação direta à crise da economia e à perda acelerada do poder de compra.

Os primeiros dias de protestos

Nos primeiros dias, os protestos tinham um tom predominantemente econômico. Manifestantes acusavam o governo de má gestão, corrupção e desperdício de recursos públicos, especialmente em operações militares e alianças internacionais que pouco beneficiam a população. As sanções internacionais continuam a pesar, mas muitos iranianos passaram a responsabilizar diretamente a estrutura do regime pelo colapso econômico.

O apoio milionário do regime ao Hezbollah e ao Hamas (grupos terroristas sunitas, ao contrário do próprio Irã) também foi significativo. O aiatolá Ali Khamenei chegou a oferecer “ajuda” de US$ 7 mensais a quem não se juntasse aos manifestantes, o que apenas alastrou ainda mais a reprovação popular.

Com o avanço das manifestações, no entanto, a pauta mudou. As críticas ao custo de vida deram lugar a ataques diretos ao sistema político. Em várias cidades, slogans econômicos foram substituídos por palavras de ordem contra o regime e contra Khamenei. O grito de “Morte ao ditador” voltou a ecoar em ruas, universidades e praças.

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Esse deslocamento do discurso é central para entender o momento atual. O que começou como um protesto por sobrevivência econômica tornou-se uma contestação aberta à legitimidade da ditadura iraniana.

Irã: manifestações contra a teocracia

À medida que o movimento se politizou, os protestos assumiram um caráter cada vez mais simbólico e confrontacional. Em diferentes cidades, manifestantes incendiaram imagens e faixas de Qasem Soleimani, general da Guarda Revolucionária Islâmica morto em 2020 em um ataque norte-americano. Embora o regime o trate como mártir, muitos iranianos veem o militar como símbolo do uso de recursos nacionais em guerras externas.

Também houve ataques a símbolos centrais da República Islâmica. Em algumas localidades, estátuas e retratos de Khamenei e de Ruhollah Khomeini, fundador do regime, foram vandalizados ou queimados. Esses atos representam uma ruptura simbólica profunda, já que tais figuras sempre foram tratadas como intocáveis pelo Estado.

“O regime tentou agir com cautela, tentando separar manifestantes com queixas econômicas de ‘agitadores’ supostamente ligados ao exterior”

As universidades voltaram a desempenhar papel relevante. Na Universidade de Teerã, estudantes romperam barreiras de segurança e protestaram dentro do campus, entoando slogans contra o regime. Em vídeos que circularam nas redes sociais, é possível ouvir gritos de apoio a Reza Pahlavi, filho do último xá do Irã — um sinal de que referências ao período pré-1979 deixaram de ser tabu em parte da sociedade.

Em resposta, forças de segurança reprimiram manifestações em algumas cidades. Organizações de direitos humanos contabilizam ao menos 25 mortes em cerca de dez dias. Casos mais graves foram registrados em localidades onde forças do regime abriram fogo contra manifestantes ou teriam disparado contra instalações médicas que atendiam feridos.

Apesar da violência, a repressão tem sido mais contida do que em episódios anteriores. Em 2022, durante os protestos desencadeados pela morte de Mahsa Amini, mais de 550 pessoas teriam sido mortas pelas forças de segurança. Desta vez, o regime tentou agir com cautela, tentando separar manifestantes com queixas econômicas de “agitadores” supostamente ligados ao exterior. A reação, novamente, foi aumento dos protestos. Relatos nem sempre confirmados afirmam que diversas autoridades da repressão se juntaram aos manifestantes em grandes cidades, como Mashhad, segunda maior cidade do Irã.

O que dizem analistas, sobre o Irã

Analistas apontam dois fatores principais para essa postura. O primeiro é o desgaste interno: um massacre em larga escala poderia ampliar ainda mais a revolta e aprofundar a crise de legitimidade. O segundo é o cenário internacional. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, advertiu publicamente num primeiro momento que uma repressão violenta contra manifestantes pacíficos poderia provocar uma resposta americana. Já na sexta-feira, seu tom aumentou: afirmou sobre o regime dos aiatólas que “eles serão atingidos com muita força”.

Ao mesmo tempo, o Irã enfrenta isolamento crescente. Suas alianças com China e Rússia não impediram a deterioração das condições de vida da população. O projeto de expansão regional, com forte atuação no Líbano, na Síria, em Gaza e no Iêmen, consumiu bilhões de dólares e hoje enfrenta recuos significativos.

“Elon Musk escreveu em farsi o lema ‘Que decepção’ para o aiatolá Khamenei, uma frase que os manifestantes do Irã passaram a ecoar”

Rumores publicados pela imprensa britânica mostram que setores do regime discutem cenários de emergência, incluindo planos de retirada da cúpula governante caso a instabilidade se agrave. Enquanto isso, o filho do xá deposto em 1979, Reza Pahvali, postou na rede social X que está na hora de o povo persa retomar o controle do país, e afirmou que está pronto para retornar ao país.

O X, por sinal, foi palco de novos embates virtuais, tais como ocorreu desde 2010, quando pessoas do mundo inteiro trocaram sua localização para Teerã, para atrapalhar o trabalho da polícia política da ditadura para encontrar os críticos ao regime nas redes sociais.

Na quarta-feira 7, Elon Musk escreveu em farsi o lema “Que decepção” para o aiatolá Khamenei, uma frase que os manifestantes passaram a ecoar. Na sexta-feira, o X, ao menos na versão em desktop, trocou a bandeira do Irã para a antiga bandeira do Império Persa, com a imagem de um leão. O próprio aiatolá Khamenei retirou a bandeira do seu perfil, enquanto algumas pessoas importantes de seu staff passaram a publicar a bandeira persa com o leão.

Mercado passa a considerar como “possível” queda do regime

Os protestos que chegam ao 14º dia no Irã não significam, necessariamente, uma queda iminente da ditadura islâmica, embora os eventos estejam ocorrendo com tamanha rapidez que os analistas esperam a qualquer momento pela notícia da renúncia ou queda de Ali Khamenei. Mais do que isso, as manifestações representam algo igualmente perigoso para regimes autoritários: a perda progressiva do medo e da legitimidade. Quando a crise econômica se transforma em contestação política aberta, o poder passa a depender quase exclusivamente da força.

Se o movimento arrefecer, o regime poderá sobreviver mais uma vez, ainda que mais fragilizado e isolado. Se persistir e se aprofundar, especialmente com adesão de setores religiosos e das forças de segurança, o Irã poderá entrar em um ciclo de instabilidade prolongada.

Em qualquer dos cenários, uma conclusão já se impõe: o modelo político instaurado em 1979 mostra sinais claros de esgotamento. E, pela primeira vez em anos, esse esgotamento está sendo exposto de forma pública, ampla e persistente nas ruas do próprio Irã.

Leia também: “À beira do abismo”, reportagem de Miriam Sanger publicada na Edição 304 da Revista Oeste

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7 comentários
  1. Carlos Pommer
    Carlos Pommer

    E o Brasil segue na mesma: o povo cada vez mais pobre, se contentando com bolsa disso e daquilo, as universidades ainda na doutrinação comunista.
    Impressionante como o ideal brasileiro é se tornar Cuba,
    Já passamos da Venezuela faz tempo.

  2. Antonio Da Silva
    Antonio Da Silva

    O Irã é a prova viva que não devemos nunca basear nossos votos levando em consideração a religião, sempre maldita e profana. Os religiosos acabaram com uma nação que era exemplo de democracia e liberdade até final dos anos 70. Temos que acabar com a abjeta bancada evangélica. Quer ser religioso? Seja. Mas jamais entrem na política com suas morais tortas envenenando políticas sociais. Todo religioso fanático na política, que trás sua moral falida baseado em livros de ficção escritos há quase 2.000 anos atrás, serve apenas para envenenar o país.

  3. David S
    David S

    Os malucos já estão de malas prontas, tentando achar um chiqueiro para se exilarem!……

  4. Antonio Da Silva
    Antonio Da Silva

    Irã até início da década de 70 era um país com muita liberdade. Foi só religiosos tomarem conta do país, tornando-se um país teocrático, que virou um terror. Não se deve misturar pastores, aiatolás e etc com política. Sempre termina mal.

    1. Christian
      Christian

      O CHIQUEIRO agora é a RUSSIA. Até os chineses se deram conta que estes ditadores são uma LEPRA..

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