“’Não é este o carpinteiro, filho de Maria, e irmão de Tiago, e de José, e de Judas e de Simão? E não estão aqui conosco suas irmãs?’ E escandalizavam-se nele” (Marcos 6, 3)
O profeta Jeremias manifestou-se de maneira translúcida sobre a qualidade do poder emancipado de Deus. Sua denúncia contra o culto a Baal — sobretudo no vale de Ben-Hinom, onde crianças eram sacrificadas em nome da estabilidade política e da prosperidade — permanece estruturalmente válida a despeito das mudanças formais no objeto, tendo transcendido o contexto histórico-religioso de sua época.
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Eis que, divinamente inspirado, Jeremias transmitia há mais de 2,5 mil anos esta lição perene: toda elite que se coloca acima da lei moral eterna acaba exigindo sacrifícios humanos. Foram essas as palavras imortais do profeta (Jeremias 7, 30-32):
“Porque os filhos de Judá fizeram o que era mau aos meus olhos, diz o Senhor; puseram as suas abominações na casa que se chama pelo meu nome, para contaminá-la. E edificaram os altos de Tofete, que está no Vale do Filho de Hinom, para queimarem no fogo a seus filhos e a suas filhas, o que nunca ordenei, nem me subiu ao coração. Portanto, eis que vêm dias, diz o Senhor, em que não se chamará mais Tofete, nem Vale do Filho de Hinom, mas o Vale da Matança…”
Jeremias era fiel à tradição carmelita que, mais de dois séculos antes, seu mestre Elias inaugurara com o icônico embate contra os sacerdotes de Baal no Monte Carmelo. Não se tratara ali de uma mera disputa religiosa, mas de um choque entre duas antropologias políticas. Do lado baalita, o delírio extático, a violência ritual e a crença de que o sangue — próprio ou alheio — garante coesão e poder. Pelo lado de Elias, a ideia de um Deus transcendente que não se deixa lisonjear pelo sangue derramado, e que julga precisamente os que pretendem divinizar-se. A disciplina carmelita — de Santa Teresa d’Ávila, São João da Cruz, Santa Terezinha, Edith Stein etc. — nasce aí: como milícia espiritual contra a idolatria das elites político-sacerdotais.
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A tentação baalita nunca abandonou a civilização judaico-cristã — perseguindo-a como uma sombra, parasitando-a como uma térmita metafísica. Numa obra de referência sobre o milenarismo medieval, Norman Cohn mostrou como essa lógica reaparece, por exemplo, na heresia cristã dos “Irmãos do Espírito Livre”, surgida no século 13. Seus adeptos acreditavam ter alcançado uma perfeição tão absoluta que se tornavam incapazes de pecar. Temos aí um Baal interiorizado: não mais o ídolo externo, mas o próprio “eu” elevado à condição divina. Nas palavras de Cohn:
“O núcleo da heresia do Espírito Livre residia na atitude do adepto em relação a si mesmo: ele acreditava ter alcançado uma perfeição tão absoluta que se tornara incapaz de pecar. Embora as consequências práticas dessa crença pudessem variar, uma consequência possível era certamente o antinomianismo, ou a rejeição das normas morais. O ‘homem perfeito’ podia sempre concluir que lhe era permitido – ou até mesmo exigido – fazer aquilo que comumente era considerado proibido aos demais”.
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Por óbvio, há muito que as elites ocidentais se secularizaram. Todavia, embora tenham abandonado o judeo-cristianismo como pilar civilizacional e institucional, não abandonaram as suas versões heréticas enquanto prática espiritual. Com efeito, aquilo que os profetas hebreus e os primeiros cristãos denunciaram tornou-se, na modernidade, a religião funcional das elites ocidentais, que não cessam de parodiar rituais religiosos antigos e pagãos.
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O escândalo Epstein, por exemplo, expôs o conteúdo perturbador desses rituais. Mais do que cometer individualmente crimes sexuais contra menores, o bilionário arquitetou um verdadeiro mecanismo iniciático para representantes das elites política, financeira e cultural de todo o mundo. Nessa seita profana para bilionários e donos do mundo, que misturava a crueldade dos antigos ritos baalitas e o antinomianismo milenarista dos “Irmãos do Espírito Livre”, a violação de inocentes tornou-se uma senha de pertencimento, uma prova de que nada — nem a infância — é sagrado demais para ser poupado quando está em jogo a solidariedade da tribo dos que tudo podem.
Nas redes sociais, muitos lembraram do filme de Stanley Kubrick, De Olhos Bem Fechados. Diz-se que, originalmente, o consagrado cineasta pretendia denunciar diretamente o circuito de pedofilia e tráfico sexual de crianças no qual se envolviam bilionários e pessoas influentes mundo afora. O produto final exibido nas telonas, todavia, foi uma descrição até bastante atenuada dos mecanismos ritualísticos de coesão social da elite global. Seja como for, Kubrick conseguiu, com seu domínio da linguagem simbólica, lançar luz sobre a liturgia profana de uma elite mascarada, que reedita a velha pretensão gnóstico-milenarista de estar além do bem e do mal.
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Ora, não há nada que essa elite mais abomine que a revelação de seus procedimentos esotéricos. Pelo mesmo motivo, o cristianismo sempre foi intolerável às elites pagãs e neopagãs, bem como aos movimentos gnósticos, milenaristas e ocultistas. Contrariando a lógica iniciática, Cristo não admite verdades secretas nem permissões ocultas (João 18, 20). Ele proclama que a verdade será trazida à luz e que não há homem perfeito, mas apenas pecadores chamados à conversão. Onde os baalitas de ontem e de hoje operam por máscaras, Cristo opera por revelação. Onde os seguidores do “Espírito Livre” proclamam a impecabilidade dos iniciados, o Evangelho proclama a necessidade universal do arrependimento. Onde Jesus é mencionado, os fariseus se escandalizam.






































Foi épico o discurso de Nikolas Ferreira, no parlamento europeu, quando encerra seu discurso, conclamando Jesus.
O mundo precisa se voltar para o Deus Criador Misericordioso e enfrentar as monstruosidades banalizadas nos nossos dias.