Ouvimos quase que como um mantra que as “mudanças climáticas”, ou seu parceiro, o “aquecimento global”, que ninguém sabe dizer onde foi parar, têm causado mais mortes e problemas por todo o mundo. Esse apelo alarmista tem tomado os canais de redes abertas no Brasil, sempre apresentando especialistas climáticos de araque, cujos discursos não trazem nada de pragmático, além de não condizerem com a realidade. Essencialmente, já trouxemos aqui as provas de que são as baixas temperaturas que imperam no cômputo de óbitos, na proporção de quase nove para um, contra as situações de calor extremo, especialmente pelas condições onde a pobreza impera, não tendo as pessoas recursos para se proteger.
Normalmente, outros tipos de eventos naturais são confundidos com clima, embora muitos deles estejam ligados a situações meteorológicas específicas ou sejam simplesmente fenômenos geológicos, como o afloramento de areias. Condições pedológicas para a formação de solos, especialmente o substrato O (o primeiro, mais superficial), apresentam uma ligação mais estreita com o clima e suas variações de longo período, mas não é disso que tratamos aqui.
Receba nossas atualizações
Os alardes em voga dizem que as “mudanças climáticas” têm aumentado diversos tipos de desastres, como inundações, registros de tornados (especialmente no Brasil), trovoadas etc., argumentando erroneamente que seriam desastres climáticos, ao invés de meteorológicos. De qualquer forma, em um primeiro momento, não são os eventos que têm aumentado, mas o número de registros observacionais. Esse fato é ignorado constantemente e precisa ser lembrado, pois, nos últimos 25 anos, o monitoramento sobre o meio e o número de testemunhas que conseguem registrar fenômenos aumentou significativamente. Ao mesmo tempo, a persistência televisiva de notícias força uma percepção equivocada sobre o assunto, e sabemos disso porque já fizemos pesquisas, gerando estatísticas sobre isso há mais de 15 anos.
Estudos sobre as mudanças climáticas
Se desconsiderarmos essa diferença metodológica e reunirmos em uma mesma categoria tanto os desastres provocados por fenômenos meteorológicos, como ventos, chuvas, granizo e neve, quanto fenômenos climáticos propriamente ditos, como secas (diferentes de estiagens), variações monçônicas, retrações ou reposições de gelo, ENOS–La Niña, ODP e miniglaciais, estaremos tratando de um mesmo conjunto de riscos ambientais.
Recentemente, Bjørn Lomborg, estatístico e professor dinamarquês, fez essa pergunta, consultou os dados e trouxe-nos a resposta. Lomborg, dentro do “espectro climático”, encaixa-se entre os céticos moderados. Ele é o autor do livro O Ambientalista Cético, obra que contempla uma quantidade enorme de dados que provam uma significativa melhora ambiental em vários aspectos, desde a qualidade da água e do ar à resolução de problemas, especialmente quando se combate a pobreza. Ele sempre criticou o exagero dado aos problemas ambientais, muitos deles imaginários, desfocando dos reais problemas da sociedade, como saneamento, melhor qualidade de vida e a elevação da distribuição da riqueza. A prosperidade generalizada melhora o ambiente, e não o contrário.
Lomborg sempre criticou a classe científica porque esta só apresenta os piores cenários sobre qualquer tema, muitas vezes manipulando dados de forma a figurarem com algum propósito, como, por exemplo, a redução do consumo de energia. De fato, dificilmente apresentam cenários ou condições reais dos ganhos conseguidos com o passar do tempo.
Nesse tema, em 1º de janeiro de 2026, Lomborg consultou o banco de dados disponível do International Disaster Database e obteve os valores médios de óbitos causados por inundações, secas, tempestades generalizadas e incêndios florestais, todos ocorridos dentro das décadas estabelecidas desde o ano de 1920, em que os conjuntos decadais foram fechados em “zero” (início da década) e “nove” (final da década), padrão este diferente do habitual usado em cronologias que iniciam em “um” e terminam em “zero” (ex.: 1921–1930 é a década de 20). Ele usou 1920–1929 e assim por diante, até 2019.
Uma vez estabelecidos esses conjuntos com suas médias, Lomborg dividiu os valores de cada década pelo número populacional global estimado exatamente no meio de cada década. Ou seja, para o período estabelecido de 1920–1929, numericamente o meio seria 1924,5; portanto, a população global estimada no final de dezembro de 1924, pois computou anos cheios. Embora não tenha a última década completa, Lomborg utilizou o período de 2020 a 2025, procedendo da mesma forma, com ponto médio em 2022,5. Os dados utilizados foram obtidos da ONG Our World in Data.
Como resultado, obteve a curva de risco de morte por relatos climáticos de 1920–2025, em que observou uma queda brutal de óbitos ocorridos pelas “causas climáticas” descritas anteriormente, enquanto a população cresceu de forma acentuada. O risco de óbitos por ano alcança quase uma média de 250 casos por milhão de habitantes do planeta no meio da década de 1920 e caiu vertiginosamente para cerca de 75 casos no meio da década de 1950 — bem menos da metade em 30 anos.
No segmento seguinte, entre o ponto médio das décadas de 1950 e o da década de 1970, houve outra queda abrupta, registrando dez óbitos por milhão de habitantes. Esse valor se manteve na década de 1980, caiu para menos de cinco na década de 1990, praticamente desaparecendo na escala proposta pelo gráfico para as décadas do século XXI (Fig. 1).

Lembremos que o valor de “quase zero” não significa que os óbitos desapareceram, mas que a escala-base de referência de “milhão de habitantes” não apresenta mais resolução para a informação que se quer expressar. Isso mostra que o número de óbitos referentes aos “riscos climáticos” descritos pelo autor diminuiu tanto que a referência precisa mudar para “por 10 milhões de habitantes”, ao invés de “por milhão de habitantes”, ou outra base que se queira expressar.
A verdade vem à tona
Com esses dados, Lomborg demonstrou que o risco de morte por desastres relacionados ao clima despencou 99,4%, enquanto a população mundial quadruplicou ao longo do mesmo período. Em valores absolutos, saiu de 241 na década de 1920 para 1,5 na década de 2020. Lomborg ainda aproveitou a mesma base de dados de óbitos qualificados e trouxe o conjunto global de acidentes de trânsito com mortes. Estes, na atualidade, superam os climáticos em mais de cem vezes, pois seu valor para a relação atual é de 145 óbitos por milhão de habitantes. Claro, temos um “mundo” muito mais automotivo (na verdade, mais nos centros urbanos), mas, claro, também teríamos as “mudanças climáticas” e o “aquecimento global” severo, que, como falamos antes, ninguém sabe onde foram parar.
Lomborg reafirma aquilo que sempre alertamos: a prosperidade, a riqueza e a inteligência em resolver os problemas com grande sabedoria e expertise técnica adicionaram mais resiliência às sociedades, o que claramente reduziu os riscos de mortes por causa de fenômenos meteorológicos e climáticos. “Isso anula qualquer possível sinal climático”, concluiu.
No Brasil, alguns eventos com tornados, muitos deles não registrados visualmente, têm despertado a ideia de que nunca aconteceram ou de que o número de ocorrências vem aumentando, como as registradas no verão de 2026 no Estado do Paraná, com três registros. Poucos atentam para o fato de que, nos últimos 20 anos, muitas pequenas vilas ou cidades cresceram e hoje temos também mais monitoramento e testemunhas, o que eleva os registros.
Vale ressaltar que esses eventos já foram computados e rastreados pela Força Aérea Brasileira (FAB) desde a década de 1970. Esse trabalho foi conduzido pelo coronel especialista em meteorologia Dimitrie Nechet, agraciado com a Medalha Santos-Dumont (MSD) em 15/6/1984. A partir desse levantamento, foi elaborado um “mapa” dos tornados do país, reunindo todos os registros possíveis de trombas d’água (tornados sobre o mar), tornados e nuvens-funil, inclusive ocorrências anteriores àquela década (Fig. 2).

Outro trabalho relevante foi publicado em 1976 pelo coronel especialista em meteorologia José Soares Lima, também agraciado com a medalha em 17/6/1986. Na época capitão e chefe do Centro Meteorológico de Aeródromo Classe 1 (CMA-1) de Porto Alegre, ele analisou uma ocorrência severa registrada em 5/12/1975, em Santa Maria (RS), propondo um método de prognóstico do fenômeno a partir do estudo detalhado desse caso.
O que diz a ciência
Assim, as ocorrências não são novas e, como bem previu o coronel Lima, “em algumas áreas tropicais e subtropicais, as nuvens-funil (que ainda não são tornados, pois não tocaram o solo) podem ser mais frequentes do que se imagina, o que poderá ser demonstrado à medida que a rede de estações de observações se expandir”. Os registros de trombas d’água subiram nas praias paulistas em vários verões, desde que as câmeras se popularizaram, a partir de 2000, o que reforça a ideia de aumento do monitoramento.
Posso citar um evento que estudei na região de Indaiatuba junto a dois outros colegas da meteorologia no interior de São Paulo, em 25 de maio de 2005. Portanto, há mais de 20 anos, quando pelo menos três tornados, variando entre as categorias F0 a F3, fizeram um verdadeiro estrago pela região. Vagões pesando mais de 20 toneladas foram simplesmente descarrilados. Colunas de concreto armado com ferro de alta bitola para suportar galpões foram retorcidas como parafusos. Partes inteiras de automóveis de uma indústria automobilística local, dispostas em contêineres aramados, foram “entregues” intactas em uma fábrica de embalagens, distante quase 500 metros. Debris metálicos com mais de 10 metros voaram, espalhando-se por toda a região, quando não “abraçaram” outras estruturas com a velocidade do impacto (Figs. 3A a D).


Essa macrorregião, onde se situa o Aeroporto Internacional de Viracopos–Campinas (SBKP), é velha conhecida por ser assolada por ventos fortes. Seu relevo, constituído de extensas planícies desimpedidas, é bastante semelhante a outras regiões análogas pelo planeta onde ocorrem esses fenômenos, quando estão presentes condições atmosféricas de alta instabilidade com nuvens Cumulonimbus, típicas de verões, por exemplo.
Lembro-me bem de quando trabalhei na Companhia “C” de Viracopos (Cia Charlie), da antiga Tasa (Telecomunicações Aeronáuticas S.A.), em meados dos anos 1990. Praticamente em todas as tardes, nosso Centro Meteorológico de Aeródromo Classe 2 (CMA-2) recebia o “Aviso de Aeródromo”, alertando sobre rajadas de vento que poderiam alcançar de 30 a 40 nós (55 a 74 km/h), para que o COE e o Controle de Pátio amarrassem as aeronaves de porte menor. Caso contrário, simplesmente sairiam voando sozinhas, arrastadas pelo vento.
+ Leia notícias do Mundo em Oeste





































Entre ou assine para enviar um comentário.
Você precisa de uma assinatura válida para enviar um comentário, faça um upgrade aqui.