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Arábia Saudita amplia o poder no Golfo Pérsico

Enfraquecimento do Irã trouxe à tona divergências sauditas com o governo dos Emirados Árabes, principalmente em relação ao Iêmen

Mohammad bin Salman príncipe herdeiro da Arábia Saudita
Mohammad bin Salman. príncipe herdeiro da Arábia Saudita. comanda o país | Foto: Reprodução/Wikimedia Commons

A ofensiva da Arábia Saudita, neste início de ano, contra forças apoiadas pelos Emirados Árabes Unidos no sul do Iêmen expôs um racha no Golfo Pérsico que estava oculto enquanto o Irã ocupava o centro das preocupações regionais. Os ataques ocorreram próximos ao porto de Mukalla e a pressão direta sobre o Conselho de Transição do Sul (STC) marcaram a decisão de Riad de enfrentar, no terreno, interesses de antigos aliados, como Abu Dhabi.

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O STC é uma milícia separatista financiada e armada pelos Emirados Árabes Unidos, que controla áreas estratégicas do sul iemenita e defende a autonomia ou a independência da antiga região.

Durante anos, Arábia Saudita, comandada por Mohammad bin Salman, o príncipe herdeiro, e Emirados foram tratados como um mesmo ator regional: ambas eram monarquias ricas alinhadas aos EUA e unidas pelo temor ao Irã. Essa leitura se sustentou enquanto Teerã representava uma ameaça crescente.

Depois do enfraquecimento iraniano, com os ataques de Israel em junho, diferenças antes contidas passaram a se refletir em decisões concretas. O conflito no Iêmen tornou-se o principal ponto de atrito. E o temor em relação ao Irã, que inclusive aproximada os sauditas de Israel, deixou de prevalecer.

A mudança saudita no terreno foi rápida. Em poucos dias, forças alinhadas ao governo iemenita, apoiado pelos sauditas e reconhecido internacionalmente, retomaram posições em Aden e em outras áreas do sul, empurrando o STC para a defensiva. O movimento encerrou um período em que Riad tolerou a expansão de um grupo armado sob a égide dos Emirados naquela região.

A resposta também ocorreu no plano político e midiático. O jornal saudita Arab News publicou uma capa com a manchete Procurado, em referência a Aidarous Al-Zubaidi, chefe do STC, que, com medo de represálias, deixou de comparecer a uma reunião em Riad e seguiu para Abu Dhabi.

“Em um momento em que deveria ter agido como um estadista e embarcado no voo programado para Riad para se reunir e apertar a mão do presidente iemenita Rashad Al-Alimi, concordando em priorizar os interesses do povo iemenita e buscar perdão por ações tomadas para ganho pessoal às custas da nação, Aidarous Al-Zubaidi optou por um não comparecimento, consolidando sua imagem como traidor de seu país”, declarou o Arab News.

Enquanto o STC recuava, o Conselho de Liderança Presidencial do Iêmen, liderado por Rashad Mohammed Al-Alimi, se reuniu em território saudita e iniciou um processo de consolidação política. Depois de anos de fragmentação, o governo reconhecido internacionalmente voltou a ocupar espaço no sul, com apoio direto de Riad.

A atuação saudita reflete uma visão distinta da adotada pelos Emirados. A Arábia Saudita prioriza a manutenção do governo iemenita reconhecido internacionalmente e rejeita iniciativas que fragmentem o país. Os Emirados, por sua vez, acreditam no fortalecimento do STC como força local no sul.

Esse padrão não se limita ao Iêmen. Na Somalilândia, os Emirados aprofundaram laços econômicos e de segurança, investiram no porto de Berbera e passaram a tratar a região como ativo estratégico, apesar da ausência de reconhecimento internacional. Para Riad, esse tipo de atuação amplia disputas por influência no Mar Vermelho e no Golfo de Áden.

Arábia Saudita e Israel

Há indícios de que o governo dos Emirados irá corroborar o reconhecimento de Israel à Somalilândia. A reação saudita ocorreu em um momento de rearranjo regional mais amplo.

Relatos passaram a associar discussões sobre reconhecimento da Somalilândia por Israel a uma ampliação da presença dos Emirados em áreas estratégicas do entorno do Mar Vermelho. Para a Arábia Saudita, esse cenário elevou o risco de perda de espaço em regiões sensíveis à sua segurança.

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No Sudão, a divergência entre Arábia Saudita e Emirados também ficou explícita. Riad atua como mediadora e defende negociações entre o Exército sudanês, liderado pelo general e chefe de Estado Abdel Fattah al-Burhan, e as Forças de Apoio Rápido, comandadas por Mohamed Hamdan Dagalo, o Hemedti.

Enquanto isso, os Emirados são acusados por autoridades ocidentais e por relatórios da Organização das Nações Unidas (ONU) de apoiar politicamente e militarmente as Forças de Apoio Rápido. O conflito já provocou milhares de mortes e aprofundou a instabilidade no Chifre da África.

Ao mesmo tempo, a política externa saudita passou a realçar o fim da escalada e equilibrar seus interesses. O reino restabeleceu relações com o Irã, que representa uma ameaça menor, com mediação chinesa. Ampliou o diálogo com a Turquia e apoiou a reinserção da Síria no circuito diplomático regional. Autoridades sauditas também intensificaram contatos com Washington para tratar de segurança regional, incluindo Iêmen, Sudão e Síria.

No caso de Israel, o enfraquecimento do Irã reduziu a pressão por uma normalização imediata com Riad. O governo saudita também passou a adotar uma postura mais cautelosa em relação a este tema, evitando compromissos que possam ampliar riscos de escalada regional ou afetar sua agenda interna e econômica.

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