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CO₂ nunca controlou temperaturas — Parte III

Dados históricos de temperatura põem em xeque o dogma climático que há décadas orienta governos, empresas, universidades e a mídia

temperatura da terra
Foto: Divulgação

Apresentamos a última parte do importante artigo publicado pela Queen’s University, do Ph.D. Bibek Bhatta, diretor do Programa de Mestrado em Contabilidade e Finanças, que discutiu a falta de correlação entre os dados de temperatura do ar obtidos das séries mais longas de Estações Meteorológicas de Superfície — EMS e as emissões de CO2 estimadas e registradas pela ONG Our World in Data. O trabalho apresentou séries longevas, superiores a cem anos e que alcançam impressionantes 210 anos. É importante apreciar as discussões realizadas nos dois primeiros artigos, tendo em vista que, ao final, apresentaremos as considerações do autor e nossas ponderações.

Depois de todas as análises de dados e cortes temporais, Bhatta encerrou explanando o quanto o tema do “aquecimento global” tem influenciado o desempenho de empresas, o padrão de comportamento dos investidores e os custos econômicos que envolvem os processos de transição, chegando até ao abandono de tecnologias. Ele relatou que os negócios começaram a avaliar os riscos que cercam o carbono por dois vieses diferentes. Em um deles, parte-se da suposição de que o próprio empreendimento ocasiona a “mudança climática” e, portanto, torna-se um risco legal e até psicológico, pela associação que o público pode fazer ao expor o negócio como um suposto “vilão”, incluindo a publicidade enganosa — vide, como exemplo, a agropecuária global, especialmente a brasileira.

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Por outro lado, além da própria precificação do risco de carbono nos mercados financeiros, da divulgação empresarial sobre a redução das emissões e dos métodos para mensurar e proteger-se contra exposições relacionadas ao clima, temos os enormes custos que podem simplesmente inviabilizar qualquer atividade, conforme a sua escala. Bhatta lembrou que os trabalhos acadêmicos sempre apontam suposições com consequências ambientais e sociais negativas atreladas ao aumento de CO2, mas nunca evidenciam diversos pontos positivos, como a alta fertilização por carbono que ocorre desde 1982.

Contudo, a avaliação direta que Bhatta realizou das séries mais longas de dados diários de temperatura disponíveis publicamente nas EMS confirmou seu resultado de não corroborar a hipótese de que o “CO₂ seja o principal fator do aquecimento global”, afirmou. “Se esse fosse o caso, períodos com maiores emissões de CO₂ apresentariam uma taxa de aquecimento mais rápida do que períodos com menores emissões”, completou. Nas conclusões, ele ressaltou o contraste apresentado pelo estudo, visto que alguns períodos recentes registraram um “resfriamento global”, apesar de os dados mostrarem acentuada elevação das emissões de CO2, como pesquisas anteriores já constataram.

Como o trabalho também demonstrou que o maior aumento da “temperatura média global do ar” ocorreu na virada do século XIX para o XX, mesmo com a mudança das definições e dos padrões dos intervalos de tempo, o resultado trouxe evidências suficientes para questionar seriamente “a suposição estabelecida a respeito do impacto das emissões de CO2 sobre o aquecimento global”, ressaltou. Suas conclusões alfinetaram diretamente o último relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas — IPCC, o AR6, de 2023, que, na página 42, afirmou que “as atividades humanas, principalmente por meio das emissões de gases de efeito estufa, causaram inequivocamente o aquecimento global (AGA)…”. Para Bhatta, as evidências empíricas apresentadas pelo trabalho não corroboram a relação direta afirmada pelo IPCC, baseada em modelos de computador altamente falhos, diante dos dados de todas as EMS analisadas, nas quais a ausência de informações foi inferior a 5% desde 1814

mudanças climáticas
Histograma contendo as variações cumulativas de temperatura (blocos rosa) e as emissões de CO₂ consideradas antrópicas (blocos pretos) ao longo de períodos móveis de 40 anos, com base em todas as estações meteorológicas de superfície cuja ausência de dados foi igual ou inferior a 5%. Foram apresentadas apenas as tendências de temperatura estatisticamente significativas. (Fonte: Bhatta, Queen’s University, 2025)

Com as informações em mãos e na condição de especialista em finanças, Bhatta criticou quatro grupos da sociedade contemporânea que têm trabalhado para que a premissa continue em voga, mostrando as ações sinérgicas na forma como atuam e o quanto a operação é danosa. Entre eles estão a academia, os políticos, os grupos corporativos públicos e privados e a mídia.

Diante de resultados tão evidentes, Bhatta afirmou que a academia deveria ser muito mais cautelosa ao expor qualquer coisa sobre AGA ou a suposta “mudança climática”. Afirmou que os pesquisadores de todas as áreas deveriam reconhecer as diversas incertezas existentes, bem como deixar claro para todos que seus modelos trabalham com uma hipótese sem evidências empíricas de que o CO₂ antrópico exerça o controle central, cerne das discussões.

O professor alertou para o problema de a hipótese ser apresentada nos meios educacionais como factual ou consolidada, como um projeto de extensão acadêmica, influenciando o material didático, especialmente o destinado a crianças e jovens em idade escolar. O ensino do AGA como consenso ou verdade absoluta está muito mais próximo da ideologia e da imposição de agendas progressistas do que da ciência, diminuindo a importância questionadora trazida pelo método científico na verificação de hipóteses, justamente em um período crítico do aprendizado humano. Somente a promoção de um ambiente de investigação permitiria que os jovens alunos compreendessem toda a problemática do que se entende como macroclima terrestre e suas complexidades.

Para os políticos e profissionais que atuam no ramo, Bhatta ressaltou que seu trabalho deveria ser fonte de alterações drásticas na formulação de políticas públicas e privadas, pois uma quantidade colossal de recursos foi despendida para tentar mudar estruturas globais de produção e energia, além de atividades gerais, incluindo comércio e finanças, com base na suposição vaga de que o AGA fosse verdadeiro. Ele sugeriu uma análise mais rigorosa e uma revisão urgente de todas as políticas climáticas construídas nos últimos anos. Ressaltou que a medida “é essencial para garantir que tais políticas sejam eficazes, economicamente viáveis e baseadas em evidências empíricas robustas”.

Quanto às organizações privadas e públicas, Bhatta relembrou o quanto se institucionalizaram as absurdas “medidas voluntárias de redução de carbono”, como as praticadas pela Science Based Targets — SBTi (Metas Baseadas na Ciência), que de ciência nada têm e, de voluntárias, menos ainda. O nome é disfarçado de modo semelhante ao Mercado Voluntário de Carbono (VCM), sob a premissa de que os esforços são cruciais para a “estabilidade climática”, seja lá o que isso signifique, sem a comprovação da hipótese AGA. Como complemento, sempre se aplica o “princípio da precaução” para garantir a imposição do uso da hipótese. Como a pesquisa sugere que a relação causal entre o CO₂ antropogênico e o “aquecimento global” é fraca ou inexistente, tais iniciativas se tornaram altamente dispendiosas, impedindo as empresas de dar, dentro dos limites da lei, o melhor destino aos capitais, causando perdas aos acionistas e afastando-se de metas e objetivos empresariais para atender a demandas externas incoerentes.

Bhatta apertou a ferida ao sugerir que é necessário “um realinhamento racional da sustentabilidade corporativa, afastando-se das métricas centradas no carbono, mas seguindo estratégias de verdadeira eficiência de recursos, com retornos econômicos mensuráveis”. O problema é que há uma verdadeira incompatibilidade entre racionalidade e sustentabilidade, mesmo que alguns ainda teimem em misturar as duas coisas. O desenvolvimento racional não pode ser interpretado como “desenvolvimento sustentado” (ONU-2030) só porque o último incorporou melhorias técnicas ou novas metodologias de avanços reais. Ambos são diferentes em seu âmago estrutural e conceitual, e a mistura é proposital para que o discurso da sustentabilidade perdure.

Vale comentar o que Bhatta não citou: a parte que envolve o enraizamento de tais práticas, servindo a outros interesses. Sempre são as empresas públicas ou instituições governamentais as primeiras a aderir a tais empreitadas, formando a massa crítica inicial para que a coisa fermente. A ação seminal permite que grandes engodos sociais tomem volume por meio de financiamento público, especialmente em países como o Brasil. São as “iniciativas” do mundo woke, ESG, socioambientais e climáticas, entre outras, que têm criado todo tipo de entrave substancial à sociedade. É importante que as pessoas entendam que são seus impostos e suas escolhas políticas que iniciam todo o processo e o mantêm funcionando.

Para exemplificar o papel da mídia, Bhatta citou o trabalho de Ye e Qi, de 2025, demonstrando que a imprensa, de forma generalizada, dissemina a hipótese AGA, desacreditando a dissidência sempre que possível e tornando-se uma força ativa na regulamentação ambiental e climática informalmente, enquanto manipula opiniões. Ele afirmou que “a narrativa impulsionada pela mídia está desconectada do registro observacional”, o que nos sugere que os devidos meios legais e de verificação de conduta deveriam ser acionados, por tratarem a perspectiva AGA como fato, quando mais parece propaganda enganosa. O silêncio dos órgãos ou das agências que se dizem “reguladoras” é estarrecedor.

Uma abordagem responsável da mídia deveria se apresentar de forma mais equilibrada, fundamentada em evidências empíricas auditáveis e verificáveis. O modo de operação enviesado baseia-se na própria forma como a academia divulga suas coisas. Vejamos, por exemplo, algo tão simples quanto a cobertura de gelo marinho do Ártico ou da Antártida. Qualquer pessoa que pesquisar em sites como os da NASA e da NOAA encontrará facilmente o alarmismo sobre o ano em que a cobertura de gelo esteve em seu nível mínimo, sempre ressaltado como um recorde assustador, mas não verá a contrapartida de qualquer recorde máximo. Para as temperaturas, ocorre justamente o oposto. Um exemplo foi o terrível inverno de 2025-2026 no Hemisfério Norte, atribuído à “mudança climática”, e o atual verão europeu de 2026, quente por causa do “aquecimento global”. Assim, continuam a incorporar os valores máximos ou mínimos dos parâmetros como se fossem ruins, conforme a ocasião, mas nunca o contrário. Portanto, a culpa é substancialmente da atividade científica, pois, embora a mídia aumente, ela não inventa!

Por fim, Bhatta elencou as limitações do trabalho, o que nos permitiu tecer alguns comentários complementares ao exposto. Primeiramente, Bhatta trouxe suas preocupações quanto à qualidade dos dados. Ele citou que os dados brutos de temperatura de algumas estações meteorológicas não foram digitalizados corretamente, exemplificando com as EMS do Reino Unido em Armagh, Oxford, Sheffield, Durham e Stornoway, que fazem parte do grupo das mais antigas em operação.

Notemos que o professor Bhatta passou pelos mesmos problemas relatados em outros artigos da RW, apresentados pela bióloga e pesquisadora independente australiana Dra. Jennifer Marohasy, sobre o Birô de Meteorologia Australiano (Australian Bureau of Meteorology — BoM, série de reportagens aqui). Bhatta citou que fez um pedido de acesso à informação para obter dados brutos diários de temperatura das estações, mas o Escritório de Meteorologia do Reino Unido (Met Office), em carta datada de 27 de março de 2025, declarou: “Os dados que não passaram pelos processos de controle de qualidade permanecem não digitalizados e estão disponíveis apenas em formato impresso antes de 1960, portanto, não podemos fornecer esse conjunto de dados”.

Segundo Bhatta, a informação pode levantar questões sobre a qualidade dos dados reconstruídos quando os próprios dados brutos permanecem não digitalizados. Da mesma forma, considerando que os dados passam por um processo de controle de qualidade, permanece a possibilidade de introdução de ruído nas informações reconstruídas. Também não sabemos a que tipo de “controle de qualidade” eles se referem, e há suspeitas legítimas de adulteração de dados ou omissões, segundo Marohasy, Sullivan, Anthony Watts e muitos outros. Pesquisas futuras poderiam beneficiar-se de um esforço sistemático para digitalizar os arquivos históricos, o que possibilitaria uma análise mais robusta e direta. O grande problema é quem faria o trabalho e como poderíamos confiar nele, pois, se tais dados não foram sequer digitalizados pelos órgãos de meteorologia, temos de entender que também não foram computados em lugar algum. Assim, soa estranho que se possa argumentar em favor da “mudança climática” sem sequer conhecer a fundo a base de dados.

Por exemplo, em 2008, iniciei um trabalho de catalogação de cartas meteorológicas sinópticas brasileiras de mais de um século, perdidas em um acervo que hoje já virou lixo. Na época, em uma entrevista sobre o assunto, fiz o seguinte questionamento: como podem fazer afirmações sobre um elevado “aquecimento global” quando as próprias instituições não realizaram o levantamento estatístico de dados antigos para averiguar o que pronunciam? Vejam que o Met Office confessou não ter dados digitalizados anteriores a 1960 em muitas de suas EMS antigas, o que permitiria recuar no tempo para ampliar a base empírica de dados e análises. Ou seja, são justamente os dados do segundo período frio do século XX. A Dra. Marohasy viu a mesma coisa no BoM australiano. O que estão escondendo?

Em segundo lugar, as EMS, além de continentais, concentraram-se basicamente nos EUA e em parte da Europa, mas com uma representação muito escassa ou nula da África, da América do Sul e do Sudeste Asiático, mesmo na amostra expandida, sem falar da Antártida e de quase todo o hemisfério oceânico do Sul. A limitação pode levantar questões sobre a possibilidade de as tendências de “aquecimento” e “resfriamento” observadas no estudo de Bhatta serem aplicadas às áreas mal representadas, o que é um fato diante da baixa cobertura até 1950.

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Mapa-múndi que apresenta, de forma esquemática, a baixa cobertura da coleta direta de dados meteorológicos até 1950. (Fonte: adaptação do autor, 2022)

Porém, sabemos que os efeitos de continentalidade do Hemisfério Norte são muito maiores. Portanto, como a grande massa de dados usados na pesquisa provém do Hemisfério Norte, podemos inferir que, além de irrisório, o aquecimento provavelmente se restringiu ao Norte, tendo em vista que as imensas áreas oceânicas do Hemisfério Sul tendem a equilibrar as temperaturas, além de os dois períodos de grande congelamento antártico estarem bem registrados nos anos de 1970 a 1986 e de 2006 a 2015. A inferência não é feita de forma leviana, mas se baseia nas avaliações de satélites que começaram no último período “quente”, de 1986 a 1998.

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“Aquecendo” ou “resfriando”, vimos que as variações são aparentemente intensas em cada pequeno período de 21 a 42 anos, o que indica a alta variabilidade da temperatura, algo esperado para as imensas escalas abordadas. Também se demonstrou a definição básica de clima, que incorpora a alta variabilidade de seus parâmetros, incluindo a temperatura do ar. Ademais, se pegarmos os dois valores mais extremos registrados da fictícia “temperatura média global do ar” do GISS-NASA, teremos uma variação de apenas 1,5 °C em 210 anos (0,007 °C por ano e 0,7 °C por século), sendo que a mais alta ocorreu no começo do século XX. Também sempre relembraremos que a grandeza física “temperatura do ar atmosférico” só é avaliada até a primeira casa decimal. Todo e qualquer valor além disso não passa de exercício matemático teórico.

Enfim, mais uma vez, evidenciou-se a fraude da hipótese que se mantém em voga há mais de 40 anos, mas que se arrasta por quase quatro séculos. Bhatta não trouxe nada de inédito em relação ao que já foi falado, mas teve o mérito de destrinchar ainda mais a inexistência da relação segundo a qual o CO₂ controlaria as tais “temperaturas médias globais do ar”, quebrando o âmago da hipótese com dados bem estruturados. Se o CO₂ não controla sequer as temperaturas, muito menos influenciará o macroclima terrestre, cuja alta complexidade é impossível de ser reduzida a uma única e inexpressiva variável de partes por milhão (PPM). Ademais, não existe uma relação segundo a qual, dada uma “temperatura média global do ar”, todo o macroclima estaria definido como se a Terra fosse um forno controlado por termostato. Tais suposições são altamente anticientíficas e deveriam ser simplesmente esquecidas, e seus propositores, responsabilizados pelo atraso e pelo caos que impuseram a toda a humanidade.

Leia também: “O agro também fala alemão”, artigo de Evaristo de Miranda publicado na Edição 332 da Revista Oeste

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