No último mês, Israel e os Estados Unidos bombardearam incessantemente o Irã, numa campanha militar sem precedentes. Os pilotos israelenses relatam uma rotina extenuante: voam longas distâncias — entre 3 mil e 3,4 mil quilômetros por missão —, cumprem seus objetivos, retornam a Israel, se alimentam, dormem e imediatamente recomeçam esse ciclo.
Cada incursão dura cerca de cinco horas, numa espécie de ponte aérea bélica solitária. Os pilotos navegam sozinhos na cabine.
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Para viabilizar essas operações, aviões norte-americanos de reabastecimento permanecem estrategicamente posicionados nos céus do Oriente Médio, atuando como postos de reabastecimento flutuantes para os jatos em missão.
Ataques cirúrgicos e rede de inteligência
Essa cena, que remete à ficção, se dá porque o Irã perdeu todo o seu aparato de defesa aérea. Está completamente rendido aos inimigos. As forças norte-americanas e israelenses circulam pelo espaço aéreo daquele país sem risco. É uma cena nunca vista na história das guerras.
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Israel já atingiu cerca de milhares de alvos militares, ligados à indústria bélica e às forças de segurança do regime. Além disso, eliminou quase todos os líderes políticos, militares e estratégicos do Irã por meio de ataques cirúrgicos, possibilitados por uma sofisticada rede de inteligência.
O Mossad, infiltrado profundamente dentro do país e também das lideranças locais, desempenha um papel notável na campanha. Sua eficiência, obviamente resultado da colaboração proveniente do alto escalão do regime, conduziu a uma verdadeira caça às bruxas dentro do governo iraniano.
Ainda assim, o regime islâmico age como se estivesse vencendo a guerra. De onde vem essa convicção?
Radicalismo ou desconexão e desinformação
Especialistas em Irã encontram duas formas de explicar a miopia do regime em relação à sua própria condição.
A primeira está ligada ao radicalismo dos líderes fundamentalistas, que faz com que enxerguem o conflito sob uma ótica puramente ideológica. Essa visão valoriza a sobrevivência do regime fundamentalista islâmico acima de tudo — mesmo que isso implique a destruição do país, a morte de civis ou até mesmo a de seus líderes máximos.
Essa é a lógica da cultura do martírio, no qual o sacrifício é visto como uma causa nobre. É isso que acontece no momento: há enormes perdas estruturais e humanas, mas o regime até o momento sobreviveu à ofensiva.
A segunda explicação é baseada em uma visão prática, de desconexão da realidade. Com a eliminação de centenas de líderes de alto escalão — e posteriormente de seus substitutos —, as cadeias de comando do regime foram desmanteladas. Desde janeiro, depois da repressão dos protestos populares que resultou em cerca de 40 mil civis mortos, a internet e a telefonia foram cortadas, isolando as cidades espalhadas por um país de dimensões continentais.
As redes de comunicação, todas estatais, transmitem apenas propaganda oficial e ocultam a destruição provocada pelos bombardeios. Grande parte das forças de segurança encontra-se sem comando, com líderes mortos ou incomunicáveis, e evita o uso de eletrônicos para evitar o rastreamento pelas forças inimigas.
Ou seja, apesar dos reveses, o regime acredita em sua sobrevivência ao ignorar as evidências de colapso interno e de isolamento internacional. Essa crença é reforçada pelo fato de ele ainda manter o controle do Estreito de Ormuz.
Exigências descabidas
A miopia também explica por que o regime iraniano tem feito exigências bem pouco realistas para encerrar o conflito, como a instituição de tarifas para uso do estreito, indenizações pelos bombardeios sofridos e liberdade total para o enriquecimento de urânio. Já os Estados Unidos exigem sua rendição. Esse cenário não indica a possibilidade de uma solução diplomática.
A tentativa do Irã de envolver países vizinhos no conflito também exibe a visão equivocada do regime. Emirados Árabes Unidos, Kuwait, Omã, Catar e Arábia Saudita foram alvos de bombardeios — não apenas nas bases norte-americanas que acomodam em seu território, mas também em instalações civis, como hotéis e aeroportos, e infraestrutura de energia.
A agressividade surpreendeu até os Estados Unidos: Donald Trump a classificou como a “maior surpresa” do conflito. Como resultado, em vez de criar pressão internacional contra os EUA — único objetivo que explica essa estratégia —, os ataques iranianos provocaram a fúria destes países contra si.
Interessante notar que esta longa guerra no Oriente Médio não serve apenas para destronar seu agente mais destrutivo: ela torna visível para todo o mundo que os países árabes estão longe de formar um bloco coeso. O príncipe e primeiro-ministro da Arábia Saudita deu um bom exemplo disso quando há alguns anos, em entrevista, comparou Ali Khamenei a Hitler: “Acredito que o líder supremo iraniano faz com que Hitler pareça um mocinho. Hitler não fez o que o supremo líder está tentando fazer — Hitler tentou conquistar a Europa, e o aiatolá tenta conquistar o mundo”.
Por fim, o Oriente Médio está, mais do que ansioso por encerrar esse conflito, curioso para ingressar no cenário geopolítico que surgirá depois dele, uma vez que novas forças se reagruparão e haverá um redesenho importante na relação entre os países. O Golfo Árabe que emergirá depois dessa guerra será, sem nenhuma dúvida, muito diferente do que é hoje.
Leia também: “O povo do Irã está pronto”, reportagem publicada na Edição 314 da Revista Oeste





































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