Um jato executivo Dassault Falcon 7X, de R$ 100 milhões, aquece as turbinas na pista. Dentro, ou a caminho, um banqueiro rumo a Dubai ou Malta. Do lado de fora, a Polícia Federal chega para interromper a viagem. O protagonista é Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. Mas a história supera a tentativa de fuga. O caso expõe as vísceras de uma gestão fraudulenta e a lentidão imperdoável de quem deveria vigiar nosso dinheiro.
Preciso começar este artigo com um disclaimer para você, investidor. Nos últimos dias, vi muita gente apontando o dedo para quem comprou os CDBs do Banco Master. Chamam de ganância ou ingenuidade. Discordo. Olhando friamente para o cardápio dos investimentos, colocar uma pequena fatia do patrimônio nesses títulos faz sentido matemático. Em algumas ocasiões, o banco oferecia taxas de até 130% do CDI. Quem respeitou o limite de R$ 250 mil do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) controlou o risco. Buscou o retorno máximo com a proteção do sistema. O erro não foi de quem quis rentabilizar a carteira com inteligência. O erro, o crime e a vergonha reside na permissividade do banco e dos reguladores.
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O que houve no Master não foi acidente. Foi projeto pensado. A instituição cresceu de forma anabolizada, multiplicando seu patrimônio líquido de maneira que desafiava a lógica contábil. A “mágica” operada pela gestão de Vorcaro consistia em criar dinheiro a partir do nada. A investigação aponta para a emissão de títulos sem lastro, a famosa “carteira podre” maquiada de ativos saudáveis. Eles captavam bilhões no mercado oferecendo juros estratosféricos e usavam esse dinheiro para comprar ativos de baixa liquidez ou duvidosos. Para cobrir o buraco, criavam créditos fictícios. É a velha alquimia de transformar pó em ouro, pelo menos até a polícia bater na porta.
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A audácia da gestão era tamanha que tentaram vender essa “bomba de fumaça” para o Estado. A operação com o Banco de Brasília (BRB) é um escândalo à parte. O Master vendeu carteiras de crédito fantasmas para o banco estatal por bilhões de reais. O dinheiro do contribuinte e do correntista do BRB foi usado para dar sobrevida a um esquema que já estava morto. E aqui entra o ponto que mais deveria incomodar. Onde estavam os órgãos de controle durante essa farra?
Temos um Banco Central respeitado mundialmente e uma estrutura de fiscalização que deveria ser à prova de balas. Mesmo assim, o Master emitiu R$ 50 bilhões em CDBs. O mercado inteiro já sussurrava sobre a insolvência do banco. Qualquer analista desprezava esses ativos. Gestores sérios mantinham distância. Entretanto, a máquina de captar dinheiro continuou girando livremente. A liquidação extrajudicial decretada agora, embora necessária, chega com um atraso que custará caro. O FGC terá que desembolsar dezenas de bilhões de reais, consumindo um terço de suas reservas. O sistema financeiro paga a conta da letargia.
O componente político na história do Banco Master

Existe também um componente político que serviu de escudo para essa aventura irresponsável. A facilidade com que o Master transitou entre fundos de pensão estaduais e municipais é assustadora. Estamos falando de quase R$ 2 bilhões de dinheiro de aposentadorias de servidores públicos aplicados em letras financeiras do banco. O Rioprevidência, sozinho, tem quase R$ 1 bilhão enterrado lá. Esses gestores de regimes próprios de previdência, muitas vezes indicados políticos, compraram papéis sem garantia do FGC. Eles colocaram o futuro de milhares de famílias em um castelo de cartas. Qual o nível de influência política exercido para que esses fundos ignorassem o risco óbvio em troca de promessas vazias de rentabilidade.
“O dano institucional é permanente. A credibilidade do nosso sistema sofreu um arranhão”
A venda para a Fictor Holding, com supostos investidores árabes, foi o ato final de desespero. Uma clara cortina de fumaça lançada horas antes da prisão para tentar ganhar tempo ou justificar uma saída do país. A narrativa da defesa, alegando uma viagem de negócios legítima, colide frontalmente com a apreensão de passaportes, joias e milhões em espécie. Quem viaja para fechar um negócio bilionário geralmente não precisa carregar sua fortuna em dinheiro vivo e bens móveis.
O investidor pessoa física, aquele que mencionei no início, vai recuperar seu dinheiro via FGC, mesmo que demore alguns dias ou meses. Ele sairá ileso financeiramente, e que bom que isso ocorrerá. Mas o dano institucional é permanente. A credibilidade do nosso sistema sofreu um arranhão. Permitimos que uma instituição operasse alavancada ao extremo, com práticas de gestão temerária, sob os narizes das autoridades por tempo demais.
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Acredito que esse cenário todo nos ensine uma lição amarga. O mercado financeiro não perdoa desaforos contábeis, mas a justiça humana tarda. A gestão do Banco Master apostou na impunidade e na complexidade de suas operações para confundir a todos. Quase conseguiram. Se o Banco Central tivesse aprovado a venda para o BRB meses atrás, o prejuízo teria sido socializado silenciosamente com a população do Distrito Federal. Felizmente, a trava funcionou no último segundo.
A Operação Compliance Zero tem o nome perfeito. Havia regras, leis e manuais de boas práticas. Tudo foi ignorado em nome da expansão acelerada e do enriquecimento de poucos. O dono do banco pode ter perdido o voo para Dubai, mas quem paga a passagem de volta para a realidade somos todos nós, participantes de um mercado financeiro que precisa ser, acima de tudo, baseado na confiança. Sem ela, não há taxa de juro alta que compense o risco de ver o avião do banqueiro decolar enquanto o nosso patrimônio fica no chão.
Leia também: “O castelo de areia chamado Banco Master”, reportagem de Carlo Cauti e Gustavo Segré publicada na Edição 297 da Revista Oeste
Por Leonardo Chagas. Especialista em investimentos e planejador financeiro, atuando com gestão de patrimônio na Musa Capital. Bacharel em relações internacionais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, é diretor da Rede Liberdade, presidente do Conselho do Instituto Atlantos e colaborador do Instituto Millenium
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