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Cultura

O vazio de gerações

A peça O Vazio da Mala está em cartaz no teatro Sesi, em São Paulo, e retrata conflitos em uma família judia por causa da guerra

O Vazio da Mala, com Emílio de Mello, Dinah Feldman e Noemi Marinho
Samuel reencontra a avó, sob os cuidados de Ruth, depois de 20 anos | Foto: Reprodução/Sesi

Uma das frases mais repetidas pela senhora Esther (Noemi Marinho), aos 92 anos, é sobre dois lados do céu de uma cidade. Da janela, ela diz que à sua esquerda, o céu está azul, mas à direita, já começa a ficar nublado.

Na peça O Vazio da Mala, em cartaz até 30 de junho no teatro Sesi, em São Paulo, Esther é uma sobrevivente judia da Segunda Guerra Mundial. A peça tem uma origem verídica, baseada em histórias que William Jedwab, primo da atriz Dinah Feldman, idealizadora da obra, lhe contou.

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E as diferentes nuances do céu refletem o próprio estado psíquico e emocional da protagonista, que vive no ano de 2005. De um lado, ela lembra de tudo, com a limpidez de um céu azul. De outro, a dor do passado e a senilidade a impedem de ver a realidade atual, de lembrar de suas perdas, de se deparar com a solidão.

Ao lado do neto, Samuel (Emílio de Mello, em grande performance), Esther é a única sobrevivente da família judia, nascida na Alemanha e que, fugindo da guerra na Europa, se transferiu para a China dominada pelos japoneses. Antes de chegar ao Brasil.

Samuel é um jornalista consagrado e ressentido pela falta de afeto do pai, Fritz (Fábio Herford), um fumante inverterado e agressivo, morto há cinco anos.

Diálogos entre ambos são relembrados, como saltos no tempo. Samuel retorna ao Brasil, país em que nasceu, depois de passar 20 anos em Tel-Aviv, onde casou e se separou.

Ele usa como pretexto a necessidade de vender o apartamento dos pais. Sem admitir também o desejo, que provoca um conflito interno, de reencontrar a avó no jantar de Pessach, comemoração anual para lembrar a libertação do povo judeu do Egito.

Quem serve de ponte entre a avó e o neto é a cuidadora de Esther, Ruth (Dinah Feldman), uma mulher bondosa e acolhedora, que tenta de todas as maneiras manter a senhora animada, mesmo com o passado e a solidão.

Nos momentos de desespero, quando Esther ouve uma campainha e se vê aprisionada à violência de outrora, Ruth tem a fórmula para acalmá-la. Ela cobre a senhora com um lençol. E diz, com ternura: “É só ficar quietinha que ninguém vai achar a senhora”.

Em outras ocasiões de “céu nublado”, Esther chama pelo filho e pelo marido, já mortos, e entrega sua atual existência a um delírio. Ruth, neste momento, a ajuda a se pentear, elogia sua feição, a faz se situar e até encarar com humor o fim da vida.

Em busca de respostas

No encontro entre Esther e Samuel, o neto se mostra frio. Entra em um quarto antigo e busca uma mala trancada, que a avó não queria que ninguém abrisse antes da morte dela.

Quem impede o neto de abri-la é Ruth. Samuel, então, mesmo resistindo, entra em um período de reflexão. Busca em sua avó a resposta para muitas de suas perguntas. A mala serve como um gancho para o diálogo.

A peça é entremeada por temas judaicos. O jantar de Pessach remete à história da familia. Entre as cenas, uma trilha sonora suave, concebida por Gregory Silvar, traz músicas tradicionais do repertório judaico, que conduzem a conversas sobre saudade, afeto e desilusão. Ao fundo, fotos da família de origem são projetadas e insistem em destacar o olhar triste do pai e do filho.

A peça criada por Dinah Feldman tem direção de Kiko Marques. No texto, de Nanna de Castro, fica claro como as marcas da perseguição nazista são difíceis de superar. Muitas vezes se sobrepõem às conquistas posteriores. Passam de geração em geração. Insistem em deixar nublado, um céu que, muitas vezes, já ficou azul.

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