publicidade
Cultura

God of War: Sons of Sparta abandona formato 3D por metroidvania nostálgico e polêmico

O novo jogo derivado da franquia explora o passado de Kratos e de seu irmão Deimos; aventura em pixel art entrega um combate tático e competente

God of War: Sons of Sparta abandona formato 3D por metroidvania nostálgico e polêmico
O metroidvania adota uma bela estética e substitui as famosas Lâminas do Caos pelo uso muito tático da lança e do escudo | Foto: Divulgação/SIE

A franquia God of War construiu um legado imensurável ao longo de duas décadas de existência no mercado. O personagem Kratos se consolidou como uma das figuras mais icônicas e complexas de toda a história dos videogames. O público acompanhou o seu longo crescimento desde a fúria desenfreada na era grega até a redenção na fase nórdica. 

A Sony e a Santa Monica Studio surpreenderam o mundo do entretenimento durante a última State of Play com um anúncio totalmente inesperado: o título God of War: Sons of Sparta que chegou ao mercado para quebrar todos os paradigmas estruturais estabelecidos pela série.

Receba nossas atualizações

+ Leia mais notícias de Cultura em Oeste

A nova obra descarta os épicos tridimensionais e os famosos planos-sequência ininterruptos que marcaram a geração atual de consoles, enquanto a desenvolvedora Mega Cat Studios assume a ousada missão de entregar um jogo no estilo pixel art

Essa transição radical de uma superprodução milionária para um formato bidimensional retrô exige um grande reajuste imediato de expectativas. O projeto não busca replicar a escala imensa e a grandiosidade visual dos seus irmãos maiores de forma alguma. O objetivo central deste capítulo derivado é preencher uma lacuna temporal específica e oferecer uma experiência muito mais intimista aos fãs.

A forja de um espartano e o peso da narrativa

A estrutura narrativa figura como um dos aspectos mais curiosos e emocionalmente ressonantes do novo projeto da Sony. O roteiro utiliza uma premissa retrospectiva na qual o Kratos adulto narra os violentos acontecimentos da sua juventude para Calliope, permitindo que o lendário dublador T.C. Carson retorne de forma brilhante para conduzir as falas do protagonista. 

Nós sabemos o destino trágico e cruel que aguarda a pequena menina e o irmão do protagonista de antemão, então ouvir o Fantasma de Esparta tentando extrair lições de moral de suas duras memórias cria uma ironia dramática muito palpável na história.

A narrativa jogável transporta os fãs diretamente para os tempos brutais do impiedoso campo de treinamento militar espartano. Kratos e Deimos ignoram as ordens expressas dos oficiais superiores e partem rapidamente em uma perigosa missão de resgate de um jovem companheiro. 

O protagonista já demonstra traços marcantes para a sua personalidade futura, como o pragmatismo extremo e a reverência cega aos deuses gregos. Deimos atua perfeitamente como o seu contraponto emocional através da forte impulsividade e dos constantes questionamentos sobre as regras da sociedade. 

O debate entre o rigoroso dever militar e o amor fraterno dita o ritmo das interações diárias. Os diálogos apresentam a jovialidade e a personalidade de ambos com bastante maestria também, apelando ao humor certeiro algumas vezes.

A quebra da exploração clássica no mapa

A inegável força dramática da história se torna o maior calcanhar de Aquiles do design de níveis criado pelo estúdio, visto que o gênero metroidvania prospera na imersão solitária e na sensação de se perder em um mapa hostil. 

Os desenvolvedores tentaram importar o estilo moderno de contação de histórias cinematográfico para o modesto e contido molde da segunda dimensão. O resultado desbalanceado dessa ousada mistura artística gera um ritmo frequentemente truncado e prejudicial para o fluxo natural de exploração. 

Os diálogos longos e as constantes intervenções verbais interrompem a jornada de forma com certa frequência e quebram o isolamento atmosférico. Porém, a desenvolvedora acertou em cheio ao deixar as icônicas Lâminas do Caos de fora deste capítulo focado no passado da saga. O jogador controla um guerreiro inexperiente que ainda não forjou o seu conhecido e amaldiçoado pacto sangrento com o deus Ares. 

O arsenal inicial de Kratos reflete a sua rigorosa herança cultural e conta puramente com o uso de uma lança e um escudo. O sistema de combate concentra os seus grandes esforços em aprofundar as complexas mecânicas de defesa e ataque desse equipamento tradicional espartano. As batalhas exigem uma abordagem mais tática focada na paciência e na administração do Espírito Espartano.

Defesa perfeita e o desgaste mecânico da ação

O uso estratégico e inteligente do escudo é imperativo para a sobrevivência em qualquer confronto direto contra os monstros. O guerreiro precisa bloquear investidas furtivas e executar aparos no momento exato da animação inimiga para quebrar a guarda do monstro. O jogador pode substituir as partes fundamentais da lança nas lojas para adicionar efeitos de fogo ou veneno em seus golpes mortais. 

O combate afiado, infelizmente, sofre de um desgaste progressivo e irreversível à medida que a barra de vida do personagem principal se expande. A inteligência artificial não se adapta aos confrontos, transformando a ação em um exercício monótono de esmagar botões.

O mapa enorme que abrange a Lacônia contém mais de 20 biomas visualmente distintos e repletos de segredos milenares ocultos. O aventureiro percorrerá pântanos putrefatos infestados de insetos, aquedutos labirínticos, grandes montanhas congeladas e enormes templos em ruínas na sua missão principal. 

As belas ferramentas divinas encontradas funcionam simultaneamente como úteis armamentos de combate direto e essenciais chaves de exploração de cenários bloqueados. O estilingue solar de Apolo e a foice de Deméter forçam o usuário perspicaz a reavaliar os ambientes visitados anteriormente no mapa. O busto de Licurgo se destaca absurdamente por fotografar a tela e fixar lembretes perfeitos da geografia local.

A arte em pixels e a ausência de cooperação

A escolha arriscada da nova direção artística gerou debates muito fervorosos dentro da gigantesca e apaixonada comunidade de fãs da série de ação. A desenvolvedora terceirizada entregou um trabalho de altíssima competência técnica através das fluidas animações bidimensionais dos dois impetuosos irmãos espartanos em campo. Os designs dos inimigos comuns beiram o genérico e carecem gravemente da assinatura aterrorizante e grandiosa que caracterizava as feras do estúdio original. 

A obra compensa as falhas gráficas ocasionais com uma trilha sonora magistral, composta com extrema sensibilidade pelo músico Bear McCreary utilizando recursos eletrônicos em melodias que persistem na cabeça.

Leia mais:

A presença muito ativa de Deimos no grupo gerava uma grande expectativa por uma experiência totalmente cooperativa durante a extensa e profunda campanha. Porém, o jogo frustra rapidamente essa esperança mecânica, pois reserva o cobiçado formato cooperativo apenas para o divertido e isolado modo de arena destravável. 

O usuário pode curtir a violência do Poço das Agonias com um amigo logo depois de rolar os créditos finais da aventura solitária. God of War: Sons of Sparta demonstra coragem ao abandonar o fotorrealismo e agrada aos fãs, mas a sua exploração linear rígida e guiada impede a consagração definitiva da obra no sagrado panteão dos clássicos metroidvanias.

Leia mais:

Leia mais sobre:

0 comentários
Nenhum comentário para este artigo, seja o primeiro.
Canal Oeste
Nossos colunistas
J. R. Guzzo (diretor perpétuo)
Augusto Nunes
Ana Paula Henkel
Guilherme Fiuza
Rodrigo Constantino
Alexandre Garcia
Antonio Cabrera
Eugênio Esber
Eugênio Esber
Evaristo de Miranda
Flávio Gordon
Roberto Motta
Miriam Sanger
Adalberto Piotto
Frank Furedi, da Spiked
Jeffrey A. Tucker.
Theodore Dalrymple
Flavio Morgenstern
Ubiratan Jorge Iorio
publicidade
Background
NEWSLETTER
Cadastre-se e receba nossas newsletter com matérias exclusivas toda semana
Background
TELEGRAM
Cadastre-se e receba nossas newsletter com matérias exclusivas toda semana
publicidade
Background
Assine a Revista Oeste
Seja um dos brasileiros que acreditam que o bom jornalismo transforma um país.