No bairro vizinho ao meu, não é nada incomum ver adolescentes em praças em horário de aula e, quando ousei perguntar de modo despropositado a um deles se eles trabalhavam por ali, a resposta foi: “Não trabalhamos tio, tá osso”. O “tá osso”, suponho, deve querer dizer “não conseguimos emprego, ainda que arduamente tentemos”, ou que ele tão somente não se importa e quer dar uma impressão de estar tentando algo. O que era notável, no entanto, era o iPhone novinho no qual ele estava arrastando o dedo antes de eu interrompê-lo.
Em 2023, segundo o Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio, cerca de 20% dos brasileiros de 15 a 29 anos não estudavam nem estavam ocupados — aproximadamente um em cada cinco jovens. Em números absolutos, isso dá 11 milhões de jovens. Entre as causas relatadas aos pesquisadores para não trabalharem nem estudarem estão:
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- gravidez — a maioria dos jovens é do sexo feminino;
- famílias desestruturadas, pobreza extrema, falta de trabalho; e
- o mais assustador deles: o mero “desinteresse”.
Quero me concentrar aqui nesse último aspecto, pois não é preciso dizer que não trabalhar nem estudar tende a perpetuar a pobreza, o que reduz o capital humano, a expectativa de vida e a própria sanidade mental desses indivíduos; que famílias desestruturadas tendem a gerar filhos sem capacidade de julgar a hora certa de uma gravidez e a forma certa de lidar com o sexo; e que o desinteresse e a falta de emprego são gêmeos do mesmo zigoto.
Quanto ao “desinteresse” puro e simples, não parece ser segredo que uma das epidemias escondidas de nossos dias é o da futilidade, e se tem algo que a futilidade gera, é o próprio desinteresse — um círculo vicioso. Entendam, com “futilidade” não quero gastar ofensa à toa, não se trata de xingamento, mas de mera análise. Se fizermos uma breve pesquisa na internet sobre o significado da palavra, encontraremos algo como “característica de quem dá importância ao que é superficial, algo ou alguém que se torna irrelevante, insignificante”. Mas a melhor definição é a do Oxford Languages: alguém que “pouco faz e sabe, [e que] somente se distrai com coisas irrelevantes”.
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Tal definição chega ao cerne da questão: parte significativa dos jovens brasileiros está se tornando incapaz de fazer coisas com significado e propósito, pois não sabem fazê-las devido ao excesso de distrações e à incapacidade de gerência emocional.

Um livro sobre a juventude fútil
Um dos livros mais importantes a serem lançados ano que vem será, sem sombra de dúvidas, Dopamine Kids, de Michaeleen Doucleff. Por ser do meio editorial, já o li, e posso garantir que é fenomenal. A autora mostra como as crianças e, por consequência, os adolescentes e jovens estão literalmente se drogando com dopamina postiça, gerada principalmente pelas telas e alimentos ultraprocessados. Tais telas e “alimentos de plástico” geram liberação de dopamina por meio de uma satisfação imediatista e artificial, liberação essa que estimula de forma incessante nossos hormônios a ponto de criar dependência real. Smartphones e junk food, junto à estupidificação parental, estão criando jovens sem capacidade alguma de gerenciamento emocional e, por consequência, incapazes de estudarem plenamente, de se relacionarem de forma sadia, incapazes de administrarem frustrações e males normais da vida.
Em resumo, temos uma geração viciada em prazeres imediatos, incapaz de racionalizar de forma madura decepções e perdas, de buscar soluções eficazes para dramas. Os pais? Estão na mesma. Porém, eles logo morrerão, e muitos já construíram suas vidas antes do advento do vício em telas. O problema são os jovens fúteis, que terão que gerenciar o futuro nosso e de nossos netos, são eles que terão que pensar com sagacidade boa parte dos rumos de nossa humanidade. Mas como, se tais jovens não conseguem sequer gerenciar seus desejos sexuais, o horário que passam no Instagram, ou seguir uma dieta mais do que três dias?
“Experimente hoje ser mais que um à toa, ter um porquê para levantar pela manhã, ler um livro de boa literatura, ou então consertar analogicamente um carro ou a batedeira de sua vizinha”
“E a solução”? Perguntam as multidões… Estabelecer limites claros, fazer os jovens saírem de suas cavernas tecnológicas com um banho de realidade e, quiçá, água gelada — literalmente —; privação inteligente e diálogo franco são indispensáveis. Mas aí surge outro problema: como fazer isso se os próprios pais estão na mesma caverna? Pois é… Eis a questão. Por ora, pois este artigo não traz uma solução final, mas, quem sabe, ele o faça largar o smartphone ao menos este sábado, faça você considerar o ato de sentar ao lado de seu marido ou mulher para conversar. Talvez o texto faça você decidir levar seu filho ao parquinho em vez de assistir a mais um episódio seja lá do que for.
Sinceramente, penso que a futilidade é uma das pouquíssimas “doenças” que nem causas políticas, econômicas e tecnológicas podem decretar o falecimento do hospedeiro sem seu consentimento tácito. A futilidade é, antes de tudo, intrinsecamente moral, psicológica e individual. Isto é, depende imensamente mais de uma tomada de decisão do fútil do que de intervenções terceiras. Experimente hoje ser mais que um à toa, ter um porquê para levantar pela manhã, ler um livro de boa literatura, ou então consertar analogicamente um carro ou a batedeira de sua vizinha. É libertador e profundamente humano não ser uma ameba digital.
Leia também: “Devemos desafiar a juventude woke“, artigo de Joanna Williams, da Spiked, publicado na Edição 89 da Revista Oeste






































Parece materia séria, mas é simplesmente a formula do “criar um problema pra VENDER uma solução” essa materia é um marketing do livro, uma propaganda velada, atitude vedada pela agencia nacional de publicidade e o cdc art 36
Terão emprego sim: no narcotráfico!!! Não foi um ministro, analfabeto funcional, desse desgoverno, quem disse que “o tráfico emprega muita gente”?
O teremos no futuro? Um bando de idiotas úteis sendo constantemente manipulados?
Aproveito para sugerir a leitura de “A Fábrica de Cretinos Digitais” de Michel Desmurget.