Dentes de Ouro (Editora Danúbio) é quase que literalmente uma obra que morde — e não solta. Douglas Lobo construiu, com rara capacidade, um romance que mistura sordidez urbana, humor ácido e uma percepção cirúrgica das contradições humanas, tudo isso em meio a uma caçada a javalis que beira o sobrenatural. O livro se move entre o realismo brutal e a alegoria folclórica, dando um ritmo de thriller ao mesmo tempo que coça, com boa capacidade, a nossa linguagem suburbana e reflexões metafísicas. O autor cria uma narrativa nada empolada; pelo contrário, lembra-nos do melhor de Stephen King — quando esse não tenta ser poeta —, e o texto de Lobo pulsa com a energia de uma obra construída de um só fôlego, mas que, ainda assim, consegue criar aqueles “silêncios narrados” típicos dos bons suspenses.
Ao acompanhar a saga de Everardo, Firmino, Américo, Aurora e Venâncio na busca de Dentes de Ouro — um javali que beira o demoníaco, que mata com estratégia e inteligência —, seguimos também um roteiro que soube mesclar romance, drama familiar, crença popular e terror na medida correta. Com uma proposta subentendida de debater até que ponto certas crenças não carregam forças de verdade, e certos ceticismos preconceituosos não trazem seu tanto de cegueira, Lobo conseguiu tocar quase tudo que um bom brasileiro gosta quando o assunto é entretenimento literário e cinematográfico. E, obviamente, quando se coloca nesse molho uma cidade típica de nossos interiores, pessoas que bem podem parecer com nossas vizinhas, tios e pais, tudo isso é untado num texto que nos prende.
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Acredito, porém, que uma das virtudes do livro é também seu defeito: os capítulos correm rápido, pois são relativamente curtos, de desenvolvimento ligeiro — ainda que bem amarrados. Todavia, parece-me que, nessa rapidez, o autor deixou de lado certa profundidade nas tramas psicológicas que tornam o ambiente mais tangível, os personagens mais humanos e os dramas mais profundos. A mãe de Aurora, por exemplo, é abandonada numa doença no meio do livro, praticamente desaparecendo sem mais nem menos. Além disso, tanto Américo como sua fazenda — local onde toda a ação do livro transcorre — tiveram pouca ou quase nenhuma profundidade histórica desenvolvida pelo autor e, dado que o livro dá a entender que o problema dos javalis marombas e demoníacos é algo cristalizado em folclore naquela região, um passado mais detalhado para a fazenda e a família do fazendeiro comporia um rendado roteirístico mais completo.
A força do romance, no entanto, está na voz narrativa: direta, ferina, às vezes debochada, outras vezes surpreendentemente lírica. O narrador parece observar seus personagens com um misto de compaixão e ironia; ninguém é totalmente vilão, ninguém é totalmente vítima. As situações que ele descreve — encontros improváveis, pequenos delitos, deslizes morais, acertos ambíguos — espelham o caos cotidiano de forma tão crua quanto simbólica, e aquilo que parece despropositado volta à tona, como o bater dos pratos de fanfarra do filho do fazendeiro ou a bomba de fedor da infância de Venâncio e Aurora.
O Dentes de Ouro que dá título ao livro funciona quase como um talismã narrativo: algo que brilha, mas cujo brilho denuncia mais do que seduz. É o símbolo do valor duvidoso que atribuímos às nossas escolhas, às nossas memórias e às máscaras que vestimos para sobreviver e, acima de tudo, diz respeito ao alimento — isto é, à proteína de nossas almas — que os nossos demônios roubam para poder ganhar músculos, inteligência e ferocidade contra nós mesmos. Os demônios que tratamos com as enzimas da devassidão, dos erros e das culpas.
Douglas Lobo, dessa forma, nos entrega um romance que é, ao mesmo tempo, entretenimento vigoroso e reflexão profunda — se conseguirmos mergulhar além do terror de recreação. Dentes de Ouro confirma um autor que domina o gesto literário e sabe usar a literatura para iluminar o cenário do bom suspense nacional. Lobo não parece ser daquele tipo pedante, cheio de berreiros textuais, lacrações de turba ou um fabricante de horror óbvio e barato; aqui, ele se apresenta como alguém que não é um mero químico de diversões: usa a literatura para vasculhar, e não só para dar cambalhotas diagramadas e shows pirotécnicos impressos em Pólen 90.
Por fim, vale cada centavo e cada hora gasta. Esse é um livro para quem gosta de ficção inteligente, crítica cheia de personalidade e um cheirinho típico do interior brasileiro e de suas crenças. Se for o seu caso, compre sem medo.
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Hei, Oeste, quando vocês farão uma matéria sobre “O Trono Ameaçado” publicado pela Ubiq? ´Spoiler, o livro termina pacificando o reino com uma anistia depois de um “show trial” de golpe em que a própria vitima do suposto golpe foi o juiz.
Parece o Brasil, mas é pura Idade Média.