Na quinta-feira 18, o portal Metrópoles veiculou uma reportagem sobre “denúncias” de discriminação relacionadas à escola cívico-militar Lourenço Filho, no Planalto Paulista. Segundo as tais “denúncias” dos alunos dos 6º a 8º anos, a direção da escola vem pressionando os alunos a manter uma padronização nos cortes de cabelo, tanto para os garotos quanto para as garotas. E, ao que parece, tal medida vem tolhendo profundamente as liberdades e autonomias dos estudantes — segundo eles próprios. Vamos lá…
O mundo que só tem regras, e não tem liberdades, com certeza é um mundo restrito, ditatorial e monocromático. Sem dúvidas não é um lugar bom para se viver. No entanto, um mundo sem regras é tão caótico quanto o primeiro. Um ambiente sem parâmetros de moralidade, sem um arquétipo de conduta e brio para cumprimento de deveres, com certeza será um espaço de desordem absoluta. E sabe o que “ordem absoluta” e a “desordem absoluta” têm em comum? Ambas são ABSOLUTAS. E, num campo de absolutismos, tanto as regras excessivas quanto a liberalidade total inevitavelmente se vertem em opressão. Caso tenha dúvidas, sugiro a leitura de Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley e Herzog de Saul Bellow.
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Então, o mundo ideal seria o… Pare de ser trouxa, não existem mundos ideais. Existe apenas o mundo com suas dificuldades persistentes e soluções limitadas, cabe-nos apenas a arte de, na medida do possível, equilibrar certas aporias enquanto solucionamos outras, tudo com inteligência e coragem a fim de evitar quaisquer tipos de totalitarismo.
E, com tal ceticismo político, que orgulhosamente cultivo dia a dia, sem cessar, confesso que não consigo enxergar como uma regra de corte de cabelo pode retirar a liberdade existencial de alguém; assim como não poder entrar de bermuda nos fóruns nunca desencadeou depressões em massa dos amantes de calças curtas. Claro, se estivermos falando da Coreia do Norte, que fez os jovens obrigatoriamente terem o mesmo corte de seu líder maluco, aí vemos uma correlação, mas, como todas as correlações, é preciso enxergar o todo; e, ao que parece — corrijam-me se estiver errado —, a escola Lourenço Filho não mantém um regime ao estilo norte-coreano. Além disso, naquele jogo de equilíbrio que citei acima, ao que Russell Kirk chamava de “via dos sensatos”, o jovem deve aprender que nem tudo na vida em sociedade são bodys splash de melancia e dancinhas sincronizadas de TikTok. Ao homem e à mulher, em sociedade, cabem certos deveres com os quais não concordamos e dos quais nem gostamos de cumprir. Bem-vindos ao mundo real, alecrins.
+ Eu só via sofrimento. Ela sorriu
Veja, definitivamente eu não concordo com as taxas de juros do cartão do Atacadão — e fica aqui a mais importante crítica socioeconômica deste ensaio —, mas ainda assim eu tenho que pagá-las. Talvez um dia, algum mecanismo de macroeconomia corrija isso, mas, até lá, tenho que cumprir com as obrigações que assumi. Quando servi ao Exército, uma das coisas mais penosas que tinha para mim não era tirar guarda em madrugadas frias ou ter que marchar horas a fio sem nenhum propósito nobre que justificasse aquele teatro, mas sim ter que me barbear diariamente. Faltam-me muitas coisas, desde algumas virtudes dignas até mesmo dinheiro para comprar a casa própria, mas algo que nunca me faltou foi uma espessa e frondosa barba. Barbear-me todos os dias machucava bastante a pele, a ponto de surgir, com o tempo, uma alergia feia. Como protesto contra o Exército — pega essa, esquerda! —, nunca mais me barbeei depois que dei baixa.
Tais hábitos militares tolheram minha autonomia sobre meu próprio estilo, tiraram da minha vida, durante anos, a possibilidade de cursar uma faculdade e ter uma barba imponente. Mas, olhando em retrospectiva, eles me deram um senso de dever, capacidade de ordenança e companheirismo que eu não teria obtido sem a farda verde-oliva. Hoje, não vejo como aquela restrição à barba grande pôde, de alguma forma, ter maculado a minha liberdade como homem; a lição dura e nada romântica que os oficiais me deram, apesar de nunca terem falado exatamente a respeito, é a verdade de que o mundo não está aqui para agradar meus desejos voláteis e coceiras estéticas. Os boletos da conta de energia, o sêmen fecundando o óvulo de sua namorada, a regra de vestimenta da empresa, o gabarito do Enem, o câncer no colorretal e a morte de um parente simplesmente cagam para o que você gosta, o estilo capilar que você adota e as preferências ideológicas que você segue. Há coisas que simplesmente precisam ser feitas, resolvidas e suportadas, custe o que custar.
+ Às vezes nem é TDHA, é só falta de vergonha na cara
E poucas coisas nos preparam mais para tais situações do que abdicar, vez ou outra, de nossas vontades. O título da matéria do Metrópoles é o seguinte: “Alunos relatam pressão para cortar cabelo em escola cívico-militar”. Eu, sinceramente, me questiono: se os jovens dessa escola não aguentam a “pressão” de manter um corte de cabelo padronizado, como a sociedade pode esperar que eles assumam o risco de um investimento, que assumam a responsabilidade de criarem filhos, de sustentarem pais moribundos durante a velhice e de fazerem escolhas corretas em sociedade? Se não treinarmos nossos pupilos a sustentarem sequer a pressão de um corte capilar padrão, pouquíssimas coisas poderemos esperar deles.
E, venha cá: nem é papo de “homens fortes X homens fracos”, não. É simplesmente treinar nossos brios para situações que exigem de nós sacrifícios de nossos fetiches e gostos. Pois, creiam, caros jovens, virão dias que o sacrifício do cabelo padronizado parecerá para vocês algo tão irrelevante que aquela “pressão” da escola lhe dará saudades. Há situações da vida que invariavelmente atingem a todos, cedo ou tarde. Situações essas que não se resolvem com protestos na Avenida Paulista, textões no Metrópoles e reels no Instagram. Todos passam por dias em que mal dá para pentear o cabelo e lembrar qual o gênero teremos aquele dia. Há dias, alecrins, que só nos resta viver, enfrentar, suportar e vencer. E, quando esse dia chegar, tenham certeza que o cabelo azul e o black power serão a última coisa a se pensar. E, no fim, a questão é sempre a mesma: você suportará?
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