Semana passada, eu estava num aniversário infantil, do amigo do meu filho, cujos pais também são meus amigos, e lá discutimos vários assuntos sérios apropriados ao ambiente de festa de criança: a guerra na Ucrânia deve perdurar muito ainda ou não; o aquecimento global se tornou histeria coletiva; até que ponto o modo de criação moderna vem tolhendo a masculinidade dos meninos. Gosto muito do primeiro assunto, interesso-me pelas proposições do segundo, mas o terceiro vem sendo a mim realmente muito caro.
Talvez por ser pai de meninos — e por sempre ter me interessado pelo assunto: missão paterna na infância —, quando o papo degringola para tais paragens, sempre gosto de escutar as perspectivas de outros pais sobre o tema. Um deles dizia-nos que, na sua opinião, as telas vêm roubando da infância o seu caráter de erro e aprendizagem pela experiência; um segundo afirmava que, apesar de ter sim ressalvas à introdução da tecnologia nos primeiros sete anos da criança, não via exatamente como conter tal avanço, já que, desde a escola até as nossas casas, quase tudo está cada vez mais conectado; uma mãe que estava na roda acrescentou que, para ela, bastava aparar os excessos e tudo bem.
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Aquele papo era, de fato, o resumo de toda opinião de senso comum que gira em torno de pais preocupados com a influência das tecnologias nas vidas dos filhos, bem como suas racionalizações sobre o assunto. No entanto, acredito que estamos perdendo o principal ponto nesse caminho crítico. De fato, existem muitos problemas que advêm de uma criança com uma vida digital aberrantemente ativa: agressividade, falta de experiência social, exposição a conteúdos inadequados — da pornografia ao contato com possíveis abusadores —, desempenho patético em tarefas cotidianas e escolares, porém, o mais profundo e, talvez, o que gere num longo prazo o maior dano seja este: o tempo pífio de convívio entre pais e filhos.
Tá ok, eu sei que esse problema vem de épocas imemoráveis, não é de hoje que filhos crescem sem a presença paterna e/ou materna, mas é de nosso tempo a involução absurda do “abandono acompanhado”, isto é, as crianças têm pais por perto, diariamente, as mães cozinham para elas, os pais estão ao redor e, por vezes, sustentam a casa como um bom patriarca. No entanto, o que muitos não dizem é que, na hora de cozinhar, a mãe está ocupadíssima assistindo a um podcast ou interagindo no grupo das amigas; o pai está ali ao alcance de um braço estendido, mas ou está brigando por política no Instagram ou resolvendo eternamente um problema do trabalho. Enquanto isso, por não conseguirem, eles, os adultos, desvincularem-se de seus cracks tecnológicos, muitos inserem no consumo diário de suas crias a “dose segura” para acalmá-los e dissuadi-los de qualquer bagunça.
É aí que vejo uma variação interessante dos pais de nossos dias: eles passam o dia inteiro conectados — muitas vezes curtindo postagens que criticam tal atitude —, afastam-se cada dia mais do convívio real com suas crias, no entanto, são veementes e duros ao proibirem que seus filhos tenham smartphones e redes sociais para fazerem exatamente o que eles fazem de forma compulsiva. São os que chamo de “quase virtuosos”.
Quando se trata de criação, a lógica nem sempre funciona, e nem o mais fiel pedagogo positivista conseguiria explicar como pais atenciosos e verdadeiramente dedicados gestaram filhos que são desde viciados em drogas, ladrões, assassinos e abusadores. Conheço de perto a casa de uma família — onde habitei por anos como se fosse quase a minha casa — que entre dois filhos bem-sucedidos e arranjados, um se tornou viciado e encontra-se preso por constantes roubos de supermercados e de transeuntes em São Paulo.
Não obstante, tendo em conta esse caráter inapelável da liberdade humana para escolher o mau, mesmo em ambientes favoráveis à escolha do que é bom, ainda assim é inegável o peso real que há numa família desestruturada ante a psique de uma criança. O que mais vejo atualmente são pais que exigem dos filhos serem leitores de livros, por exemplo, mas que ficam apenas na exigência de autoridade, pois não passam para o exemplo efetivo.
As virtudes dos filhos, na grande maioria das vezes, são filhas das virtudes dos pais, assim como os vícios dos filhos, na grande maioria das vezes, são filhos dos vícios dos pais. As crianças, com suas necessidades de afirmação e direção, ainda que sem expressarem isso, imploram por pais que sejam amorosamente autoridades e esteios de sua casa. Um pai que não vence a próxima rolada no feed para dar atenção ao seu filho exala fraqueza e indiferença. Uma mãe perdida demais entre stories e grupos de WhatsApp para interagir com sua filha emana desprezo e descuido. Sendo assim, o debate sobre até que ponto uma criança deve ter contato com a tecnologia deveria ser presidido pela questão sobre até onde os pais contemporâneos estão dispostos a serem exemplos de autocontrole, de dedicação ao convívio familiar, de amor e autoridade paternal, mas, acima de tudo: de coerência. Por fim, o problema atual não me parece ser primeiro sobre “como cercear a tecnologia das crianças”, mas antes “como retirar os pais do uso compulsório de telas”. Assim como um cego não pode guiar outro cego, da mesma forma pais viciados em telas não conseguirão educar filhos com autodomínio apurado.
Leia também: “Falta clareza moral”, artigo publicado na Edição 314 da Revista Oeste





































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