publicidade
Brasil

A nova covid-21

É correto continuar classificando essa “nova” doença como covid-19?

Ômicron Foto: Gerd Altmann/Pixabay

No início de 2020, a Organização Mundial da Saúde (OMS) classificou a covid-19 como uma nova doença, pois é causada por um vírus novo (na época), o Sars-Cov-2, com características clínicas e fisiopatológicas específicas, decorrentes de alterações no sistema de coagulação e inflamação de vários tecidos e órgãos, principalmente os pulmões.

A variante Ômicron apresenta inúmeras diferenças (“mutações”) em seu genoma em relação às variantes mais virulentas de Sars-CoV-2. O quadro clínico dos pacientes acometidos por esta variante, especialmente entre os indivíduos previamente vacinados, é muito similar ao da gripe comum, que acomete principalmente as vias aéreas superiores (dificilmente ataca os pulmões), e, portanto, difere sobremaneira da covid-19 descrita pela OMS. 

Receba nossas atualizações

As mutações são eventos genético-moleculares espontâneos e, infelizmente, não temos como fazer previsões de que daqui para a frente as novas variantes do coronavírus serão cada vez menos agressivas aos seres humanos. Seria como prever como seriam os novos seres vivos no futuro. O que é impossível! Ou seja, fazer previsões futuras são meras especulações.

Na África do Sul, a Ômicron contaminou a maioria da população sem levar a um acréscimo significativo na incidência de mortes. Por lá, os casos estão caindo vertiginosamente a cada dia. Tudo isso ocorreu em pouco mais de dois meses, desde a identificação dessa nova variante.

A situação da pandemia no Brasil

No Brasil, no momento, estamos sendo acometidos pela variante Ômicron e simultaneamente por outros vírus respiratórios que causam a gripe. Nos últimos dias, o movimento nos prontos-socorros no Brasil aumentou bastante por conta disso. Felizmente, a grande maioria dos casos é de síndrome respiratória leve, sem necessidade de internação. Mas, como sempre ocorreu, as síndromes gripais associadas a esses outros vírus podem, da mesma forma, levar à necessidade de internação e até mesmo ao óbito, principalmente nos vulneráveis, como idosos, pessoas com doenças pulmonares crônicas e imunossuprimidos.

A boa notícia, até agora, é que, embora o número de casos de covid diagnosticados tenha aumentado, os números de casos graves e de mortes estão estáveis ou até mesmo diminuindo. Apesar de já circular no Brasil desde dezembro, a variante Ômicron fez sua primeira vítima no último dia 6 — um paciente idoso, previamente vacinado e com sérios problemas pulmonares crônicos. Talvez, se esse mesmo paciente tivesse sido acometido pelo vírus influenza, o desfecho poderia ter sido o mesmo.

O que estamos presenciando agora é uma pandemia de testes positivos para vírus Sars-CoV-2 em pessoas assintomáticas (não doentes!).

Como em qualquer estudo epidemiológico sério, seria importante definir previamente o que é chamado de “caso”, diferenciando os testes positivos entre sintomáticos e assintomáticos, ou seja, quem são os “doentes” e os “não doentes”. Epidemiologicamente falando, essa falta de definição inflaciona o número de “casos novos” e, consequentemente, a taxa de incidência da doença.

O custo financeiro-social de diagnosticar e isolar pessoas assintomáticas está sendo desproporcionalmente elevado, tendo em vista a benignidade da doença. Temos observado voos comerciais sendo cancelados e pessoas voltando a se isolar. É o retorno do lockdown. Faz lembrar a narração de A Guerra dos Mundos, realizada em 1938, por Orson Welles. É necessário dar um basta a isso!

A população está assustada. É totalmente compreensível, pois as “feridas emocionais” causadas pela pandemia da “verdadeira” covid-19 ainda estão abertas. Com esse cenário descrito acima, devemos pensar de forma mais racional e menos emocional (ou mesmo menos política) sobre a real necessidade de testar pessoas assintomáticas. Será que vale a pena fazer testes e mais testes em todas as pessoas? Será que pessoas assintomáticas que já tomaram a vacina precisam ser testadas?

A verdadeira pandemia da covid-19 parece estar passando e deixou vários legados, entre eles:

• redução da morbiletalidade, com a contribuição da vacinação da população realizada com sucesso no Brasil até final de 2021 — embora outras questões ainda precisem ser esclarecidas, como, por exemplo, quantas doses de reforço serão necessárias, quais faixas etárias deverão ser incluídas no Programa Nacional de Imunizações, entre outras;

• as vacinas atualmente disponíveis não evitam a contaminação nem a transmissão de novas variantes;

• para evitar complicações e óbitos, além do custo econômico e social, os indivíduos suscetíveis e vulneráveis devem continuar tomando as vacinas de rotina contra vírus respiratórios (Sars, influenza, etc.);

• para evitar o contágio de outras pessoas e a disseminação de doenças respiratórias, os indivíduos sintomáticos, acometidos por qualquer síndrome respiratória, devem usar máscaras efetivas (N95), devem evitar o contato com pessoas vulneráveis e devem manter certo grau de isolamento, dentro do possível.

É correto continuar classificando essa “nova” doença como covid-19? Não seria melhor classificá-la como covid-21?

A mudança de nomenclatura dessa nova doença atual, além de necessária, certamente teria um impacto psicossocial enorme na população.

Que a covid-21 seja, enfim, uma “gripezinha”!

José Luiz B. Bevilacqua é médico, cirurgião oncológico e mastologista, doutor em Cirurgia pela Faculdade de Medicina da USP

Leia mais sobre:

4 comentários
  1. Flavio Pascoa Teles De Menezes
    Flavio Pascoa Teles De Menezes

    Além de ter conseguido discorrer com riqueza de dados e argumentos sobre o atual estágio da Covid 19, o autor tem a coragem necessária para propor uma inovação fundamental: – redefinir a epidemia como Covid 21!

  2. Errol Bicalho
    Errol Bicalho

    Perfeita colocação. Covid 19 n existe mais, vacinas n estão atualizadas p esta ultima variante. Porque forçar vacinação de crianças então.

  3. Davi AHS
    Davi AHS

    Excelente artigo. Essas ideias traduzem fielmente a minha experiência pessoal. Espero que as autoridades sanitárias nacionais e mundiais tenha a oportunidade de discuti-las.

  4. Celso De Sampaio Amaral Neto
    Celso De Sampaio Amaral Neto

    Concordo, acabei de ter a Covid sei lá o que e o quadro foi bem leve, focado basicamente, nas vias aéreas superiores, muito diferente da Covid que matou meu primo e sócio em 15, em Maio de 20! É uma outra doença…..que precisa ser rebatizada.

Canal Oeste
Nossos colunistas
J. R. Guzzo (diretor perpétuo)
Augusto Nunes
Ana Paula Henkel
Guilherme Fiuza
Rodrigo Constantino
Alexandre Garcia
Antonio Cabrera
Eugênio Esber
Eugênio Esber
Evaristo de Miranda
Flávio Gordon
Roberto Motta
Miriam Sanger
Adalberto Piotto
Frank Furedi, da Spiked
Jeffrey A. Tucker.
Theodore Dalrymple
Flavio Morgenstern
Ubiratan Jorge Iorio
publicidade
Background
NEWSLETTER
Cadastre-se e receba nossas newsletter com matérias exclusivas toda semana
Background
TELEGRAM
Cadastre-se e receba nossas newsletter com matérias exclusivas toda semana
publicidade
Background
Assine a Revista Oeste
Seja um dos brasileiros que acreditam que o bom jornalismo transforma um país.