Pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp) desenvolveram um modelo matemático para identificar detritos espaciais mais suscetíveis a alterações orbitais próximas à Terra. A ferramenta permite mapear regiões de maior risco de colisão e contribui para o monitoramento do lixo espacial, problema que se intensificou ao longo de décadas de atividades no espaço.
O estudo, apoiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), foi liderado pelo matemático Jorge Kennety S. Formiga, do Instituto de Ciência e Tecnologia do campus de São José dos Campos. O trabalho analisa como o fenômeno da ressonância orbital pode alterar trajetórias de detritos e aumentar o risco para satélites e missões em operação.
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Segundo dados da Agência Espacial Europeia, mais de 6 mil lançamentos ocorreram desde 1957. Esse histórico resultou em cerca de 500 mil fragmentos entre 1 cm e 10 cm em órbita. Quando considerados objetos menores que 1 mm, o número supera 100 milhões.
Impactos do lixo espacial
Parte desse material reentra na atmosfera. Muitos fragmentos se desintegram, mas alguns atingem o solo. Em 2022, um pedaço de foguete da SpaceX caiu a cerca de 100 metros de uma casa em São Mateus do Sul, no Paraná.
No espaço, o risco é constante. As órbitas dos detritos podem se tornar instáveis devido à influência gravitacional da Terra, o que aumenta a probabilidade de colisões entre fragmentos ou com missões ativas.
Ressonância orbital amplia riscos
Um dos fatores que provocam essas alterações é a ressonância orbital. O modelo desenvolvido pela Unesp identifica quais objetos são mais sensíveis a esse efeito e, por isso, representam maior risco.
“A principal motivação do trabalho foi conseguir identificar a variação que o efeito de ressonância tem sobre essas órbitas”, afirma Formiga. O estudo foi publicado na revista Journal of Space Safety Engineering. Os pesquisadores revelam que mudanças de até 50 metros já elevam o risco de impacto.
Quando detritos orbitam muito próximos, pequenas alterações podem gerar colisões sucessivas. Esse processo é conhecido como síndrome Kessler, que descreve um cenário de colisões em cadeia e aumento contínuo do lixo espacial.
Regiões mais congestionadas
O estudo analisou detritos na órbita terrestre baixa, abaixo de 2 mil km de altitude, considerada a área mais congestionada. Os pesquisadores focaram objetos com ressonância 15:1, presentes em regiões amplamente utilizadas por satélites.
Com dados da Base CelesTrak, o grupo identificou picos de ressonância em uma faixa de apenas 4 km, entre 563 km e 599 km de altitude. “O interessante é que, saindo dessa faixa de 4 km, não identificamos mais o efeito de ressonância”, diz Formiga.
As simulações combinaram o banco de dados com um modelo matemático próprio e acompanharam 210 órbitas ao longo de 12 mil dias, cerca de 33 anos. Em alguns casos, o efeito só apareceu depois de longos períodos, como em órbitas com inclinação de 87°.
Os resultados mostram que órbitas quase circulares e muito inclinadas, em torno de 63,4° e 87°, são mais suscetíveis à ressonância. Nessas condições, pequenas variações já são suficientes para aumentar o risco de colisão.
Desafio da limpeza espacial
Formiga também fala sobre a necessidade de ações de limpeza espacial. “Agora é a hora de começar a limpar, o estrago já foi feito”, afirma.
Embora existam projetos em desenvolvimento, nenhuma missão foi concluída até agora. A iniciativa mais avançada é da Agência Espacial Europeia, em parceria com a startup suíça ClearSpace, com lançamento previsto para 2026. O plano prevê capturar um foguete desativado e conduzi-lo à reentrada na atmosfera.
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