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Tecnologia

‘A Wikipédia perdeu o seu caminho’, diz Larry Sanger, cofundador do site

Em entrevista a Oeste, o desenvolvedor falou sobre sua proposta de reforma para a enciclopédia, a busca pela verdade e o medo da censura

Criador da Wikipédia, Larry Sanger questiona: 'Até onde a esquerda irá na tentativa de refazer o mundo como deseja?' | Foto: Ahslee Best/Discovery Institute
Criador da Wikipédia, Larry Sanger questiona: 'Até onde a esquerda irá na tentativa de refazer o mundo como deseja?' | Foto: Ahslee Best/Discovery Institute

Larry Sanger, cofundador da Wikipédia, vê a enciclopédia que ajudou a criar da mesma forma que Victor Frankenstein enxerga o monstro que concebeu. Em 2001, o desenvolvedor e filósofo norte-americano foi essencial para o lançamento do site. Foi ele quem definiu boa parte das políticas centrais da plataforma, como a imparcialidade dos artigos e até uma regra irônica: “Ignore todas as regras”.

Mesmo com a brincadeira, o doutor em filosofia analítica reforça que não é um relativista. Ele se descreve como um “cético metódico”, o que, segundo explica, significa reconhecer a dificuldade de alcançar conhecimento “substancial” sobre temas complexos. Ainda assim, em entrevista exclusiva a Oeste, Sanger defende a existência da verdade objetiva, além de afirmar que o papel social de uma enciclopédia é somente o de ajudar o leitor a encontrá-la por conta própria.

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Com isso em mente, neste ano, o norte-americano se inspirou em Martinho Lutero e “pregou” na porta da Wikipédia nove teses que propõem uma reforma radical para o site. Sanger agiu motivado pelo crescente declínio na confiabilidade da plataforma e pela percepção de que sua posição como cofundador poderia dar mais seriedade às propostas. Suas teses incluem:

  1. Acabar com a tomada de decisões por “consenso”;
  2. Permitir artigos concorrentes;
  3. Abolir listas negras de fontes;
  4. Reviver a política original de neutralidade;
  5. Revogar a regra “Ignore todas as regras”;
  6. Revelar quem são os líderes da Wikipédia;
  7. Deixar o público avaliar os artigos;
  8. Acabar com o bloqueio por tempo indeterminado e
  9. Adotar um processo legislativo.

A reforma de Sanger inspirou o bilionário Elon Musk, um dos principais críticos da Wikipédia, o qual apelidou de “Wokepedia”. O empresário criou a Grokipedia, uma nova enciclopédia que une o modelo idealizado por Sanger às facilidades das ferramentas de inteligência artificial (IA), com a intenção de combater o excesso de ideologia de esquerda na plataforma.

Embora não participe do projeto de Musk, Sanger também quer proteger o conhecimento de ataques políticos. Durante a entrevista, ele provoca: “Até onde a esquerda irá na tentativa de refazer o mundo como deseja?”  Por isso, o norte-americano está focado em seu novo projeto, chamado Zwibook. A iniciativa visa a preservar quase 70 mil livros em domínio público de maneira offline e sem nenhuma possibilidade de edição ou censura. Ele vê a tecnologia, que tem o formato de um pen drive, como uma “cópia de segurança da civilização ocidental” e uma forma de “tornar a cultura à prova do futuro”.

Na conversa, Larry Sanger também deu sua opinião acerca do papel das enciclopédias na era da IA e as suas esperanças e medos para o futuro do conhecimento. Confira a entrevista:

O que o motivou a escrever as nove teses?

A partir de 2005, comecei a criticar os problemas que via na Wikipédia. Mas nunca havia feito uma proposta completa de reforma. Nos últimos cinco anos, muitas pessoas me disseram que eu deveria falar mais sobre o tema, porque a Wikipédia piorou muito. Pensei que não adiantaria apenas adicionar mais lenha à fogueira. Então, percebi que poderia fazer algo diferente: criar um plano abrangente de reforma. Por ser cofundador, minhas ideias talvez sejam levadas mais a sério. Sinto-me obrigado a tentar corrigir os problemas que ajudei a criar.

Qual era a sua visão sobre a questão da verdade e do conhecimento ao criar a Wikipédia?

Eu sou o que chamo de cético metódico. Essencialmente, o que isso significa é que acho muito difícil ter conhecimento substancial de qualquer coisa complexa. Qualquer coisa em ciência, história ou filosofia é difícil de justificar somente por nossas crenças. Esta é uma das principais razões pelas quais as pessoas podem ter visões de mundo tão radicalmente diferentes. 

No entanto, isso não significa que sou um relativista; não sou. Acredito que existe uma verdade objetiva, e que é possível conhecê-la. Mas, por razões pragmáticas, é necessário que uma enciclopédia não decida pelas pessoas. O papel social de uma enciclopédia é auxiliar os indivíduos a encontrarem a verdade por si próprios. Isso significa que uma enciclopédia não deve simplesmente declarar dogmaticamente o que seus editores acreditam ser a verdade. 

A Wikipédia está perdendo espaço para a IA. Elon Musk, inclusive, criou uma versão baseada em IA. O que você pensa sobre isso?

A questão é se a IA substituirá as enciclopédias. As enciclopédias têm dois papéis. Um é fornecer respostas, algo que os mecanismos de busca, e os grandes modelos de linguagem já fazem melhor.

Mas há outra função que a IA não pode cumprir: registrar aquilo em que os seres humanos acreditam. Isso é fundamental. O texto de uma enciclopédia é importante justamente porque reflete a visão humana sobre o mundo. Os modelos de linguagem não têm experiência direta da realidade; eles apenas reorganizam palavras criadas por pessoas. Por isso, nunca serão juízes confiáveis do que os humanos pensam.

Se suas nove teses fossem aplicadas, como ficaria a Wikipédia em dez anos?

Se todas fossem implementadas, o que não espero, o impacto seria enorme. Os artigos voltariam a ser neutros, e haveria textos concorrentes com diferentes abordagens. A comunidade se tornaria mais responsável, já que os editores teriam de usar seus nomes reais.

Além disso, uma assembleia editorial poderia discutir políticas e resolver disputas complexas. Isso tornaria a Wikipédia menos vulnerável a influências externas e mais madura como projeto coletivo.

O que o inspirou a criar seu novo projeto, o Zwibook?

É importante para mim ter cópias offline de nosso conhecimento, especialmente no mundo da IA. São cópias permanentes e não editáveis de informações que poderão ser consultadas para uma visão do mundo antes da IA e antes da internet. E não apenas isso, elas são cópias de textos clássicos. São muito importantes para as crianças aprenderem. É a fonte de nossa civilização, da cristandade ocidental. 

Essa preocupação vem do medo de um colapso digital ou da censura?

Eu me preocupo com a perda de conhecimento. Não acredito que alguém esteja, agora, queimando livros em massa. Pelo menos, isso não está acontecendo, ainda, em muitos países. Eu me preocupo com as gerações mais jovens e radicalizadas. Elas vão para as faculdades hoje e emergem essencialmente como verdadeiros extremistas. 

Isso me faz questionar até onde a esquerda irá na tentativa de refazer o mundo como deseja e limpar as “más influências”. Como parte disso, posso facilmente imaginá-los fazendo o que aconteceu em muitas bibliotecas, onde muitos livros foram retirados ou destruídos. Aconteceu no passado em diferentes países, e em diferentes épocas. Portanto, acho realmente importante que tenhamos o corpo completo do conhecimento da civilização ocidental em formatos portáteis, em muitas e muitas cópias diferentes ao redor do mundo. É como uma apólice de seguro.

Há algo que o mantenha otimista sobre o futuro do conhecimento e da internet?

Eu sei que isso pode parecer um pouco engraçado para muitas pessoas, pois tem havido muitos avisos sobre a IA que assume o controle. De acordo com meu entendimento atual da natureza e das capacidades potenciais da IA, eu realmente não acredito nesses avisos. Estou inclinado a pensar que o pior legado da IA é que ela será usada como uma muleta, e as pessoas não pensarão tão arduamente por conta própria quanto deveriam. 

Mas a IA pode ajudar a treinar o pensamento crítico. Tenho aprendido muito com uso dessas ferramentas nos últimos anos. A tecnologia sempre gera medo, mas também novas oportunidades. No balanço geral, vejo a IA como uma bênção para a humanidade.

Leia também: “A guerra das enciclopédias”, texto de Dagomir Marquezi publicado na Edição 295 da Revista Oeste

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