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Plantação de soja | Foto: Paulo Nabas/Shutterstock
Edição 332

Uma potência chamada soja

Agricultores utilizam tecnologias inovadoras para aumentar a produção do grão

Confira o resumo que a OESTE.IA, a IA da Revista Oeste, fez pra você

O Brasil, maior produtor de soja do mundo, responde por 40% da produção global e emprega 2 milhões de trabalhadores, gerando R$ 780 bilhões anuais. A produção de soja no país cresceu de 270 mil toneladas em 1961 para 186 milhões de toneladas em 2023, superando EUA e Argentina. Inovações tecnológicas, como a tropicalização da soja e o uso de plantas transgênicas, foram cruciais para esse crescimento.

O Brasil é o maior produtor de soja do mundo. Seis de cada dez navios que transportam o grão partem de portos brasileiros. A produção anual no país contém calorias suficientes para alimentar 900 milhões de pessoas durante um ano. O setor emprega 2 milhões de trabalhadores de forma direta e responde por 6% do Produto Interno Bruto — R$ 780 bilhões por ano. A safra brasileira alcança 186 milhões de toneladas — volume superior à produção conjunta dos Estados Unidos (122 milhões de toneladas) e da Argentina (50 milhões de toneladas), os dois países que aparecem logo atrás no ranking mundial. As lavouras ocupam quase 50 milhões de hectares, área superior ao território de muitos países, como a Suécia, por exemplo. Cerca de 40% da soja produzida no mundo é brasileira. O produto abastece fábricas de alimentos, granjas, usinas de biodiesel e indústrias químicas. O sucesso global se deu em razão das inovações tecnológicas criadas por brasileiros. 

O cultivo do grão no Brasil começou no Rio Grande do Sul. Em 1924, o pastor norte-americano Albert Lehenbauer distribuiu sementes para agricultores da cidade de Santa Rosa, hoje conhecida como o berço nacional da soja. O objetivo era alimentar os animais da região. Quatro décadas depois, em 1961 — ano do primeiro registro internacional —, a produção nacional de soja era de 270 mil toneladas. Embora aquela safra já garantisse ao país o sétimo lugar no ranking mundial, hoje equivale ao cultivo de uma única grande fazenda.

Plantações de soja em Mato Grosso | Foto: Marcus Mesquita/Shutterstock

O grande salto ocorreu na década de 1970, quando pesquisadores da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e produtores gaúchos (que emigraram para o Centro-Oeste) trabalharam para adaptar a planta ao Cerrado. “Era uma missão considerada impossível”, conta Alexandre Lima Nepomuceno, chefe-geral da Embrapa Soja. “Se eu pedisse dinheiro emprestado na década de 1970 para plantar soja no Cerrado, me chamariam de louco.” Norman Borlaug, vencedor do Nobel da Paz pela Revolução Verde, afirmou que as plantações de soja no Cerrado não dariam em nada. Décadas depois, durante a segunda passagem pelo Brasil, reconheceu que estava errado. “Vocês fizeram uma revolução”, afirmou. Cientistas brasileiros tornaram a região árida uma das mais produtivas do planeta.

Nepomuceno explica que a soja precisa de bastante luz para se desenvolver. No Sul, isso não era problema, bastava realizar o plantio no começo do verão, estação em que os dias são mais longos. No Cerrado é diferente. Como o tempo de insolação é menor, a planta, que usa a luz solar como um relógio biológico, florescia antes do tempo. Em consequência disso,  ficava baixa, produzia poucas estruturas para os grãos e, portanto, rendia pouco.

O primeiro passo foi adaptar a soja à menor luminosidade por meio do melhoramento genético, a chamada “tropicalização da soja no Brasil”. Os pesquisadores da Embrapa identificaram variedades que não floresciam tão cedo quando cultivadas em regiões próximas à linha do Equador. As espécies foram cruzadas com outras de alta produtividade. O trabalho gerou sementes capazes de crescer normalmente no Cerrado. A evolução da cultura não parou na tropicalização. Nepomuceno afirma que o desenvolvimento de plantas transgênicas, nos anos 1990, representou um avanço importante na agricultura e que não há registros de impactos na saúde humana.

A 18ª Edição do Desafio Nacional de Máxima Produtividade da Soja do Cesb foi realizada em Indaiatuba, no interior de São Paulo | Foto: Divulgação/Cesb

Os pesquisadores também usaram técnicas para corrigir o solo — que era pobre em nutrientes — e fizeram a fixação biológica de nitrogênio, processo em que bactérias fornecem esse elemento à planta. O manejo foi necessário para reduzir o uso de adubos químicos. O processo expandiu o cultivo e fez o país ser competitivo nas exportações. 

De 1961 a 2023, a produção aumentou 560 vezes. Há 60 anos, o Brasil respondia por menos de 1% da produção mundial; a dos Estados Unidos chegava a 55%. Em 1981, a produção passou a responder por 17%, ante os mesmos 55% dos norte-americanos. À época, o Brasil já alcançara a 2ª colocação no ranking, com 15 milhões de toneladas colhidas. Os EUA, por sua vez, produziam 54 milhões de toneladas. O Brasil alcançou a 1ª colocação em 2019 e mantém a liderança até hoje. O país domina praticamente toda a cadeia tecnológica da soja. Além do melhoramento genético, pesquisadores brasileiros desenvolveram técnicas de manejo, controle de doenças, armazenamento e produção em larga escala.

A colheita pode aumentar ainda mais. Os maiores produtores do país participam todos os anos de um concurso promovido pelo Comitê Estratégico Soja Brasil (Cesb). A 18ª edição do evento ocorreu nos dias 7 e 8 de julho, em Indaiatuba, no interior de São Paulo. Os agricultores bateram recorde de colheita e mostraram as tecnologias inovadoras que usaram para aumentar a produtividade. 

Lourival Ruthes, catarinense de Major Vieira, foi o campeão nacional, com 9,3 toneladas por hectare, uma produtividade de 2,6 vezes a média nacional. Antes de cada safra, o agricultor catarinense cultivou aveia e centeio, que ajudam a proteger e a melhorar o solo. Antes e durante a semeadura, utilizou fertilizantes e bioinsumos. Entre eles, bactérias e fungos benéficos, que ajudam as plantas a absorver nutrientes, desenvolver as raízes e aproveitar melhor o solo. Em cada fase de desenvolvimento da soja, foram aplicados herbicidas, fungicidas e inseticidas para controlar plantas daninhas, lagartas, percevejos e doenças. Segundo o consultor responsável pela lavoura, Daicon Godeski Moreira, o sucesso ocorreu porque decidiram basear-se em dados de pesquisa. Na categoria irrigado — na qual não houve premiação por região —, o campeão nacional foi Luis Fernando Benaglia de Oliveira, da Fazenda Lago Bonito, em Mundo Novo, Goiás. Ele colheu 8,2 toneladas por hectare. 

Lourival Ruthes (no centro da imagem) foi o campeão, com 9,3 toneladas por hectare — 2,6 vezes a média nacional | Foto: Divulgação/Cesb

Cada região do Brasil teve um vencedor na categoria sequeiro. Representante do Centro-Oeste, Rodolfo Paulo Schlatter, da Fazenda Monte Sinai, em Confresa, Mato Grosso, colheu 7 toneladas por hectare numa lavoura de sequeiro — cultivada apenas com água da chuva. A quantidade representa quase o dobro da média nacional, que é de 3,6 toneladas por hectare. Schlatter construiu a produtividade ao longo dos anos, com alternância entre soja, milho, milheto e braquiária. Essa rotação evita o desgaste causado pelo cultivo repetido da mesma planta, melhora a estrutura da terra e ajuda a conservar água e nutrientes no solo. Também aplicou cinco toneladas de calcário por hectare para reduzir a acidez do solo. Sem essa correção, a soja plantada no Cerrado desenvolveria raízes pequenas e teria baixa produtividade. Antes e durante o plantio, foram aplicados fertilizantes para fornecer fósforo, potássio e outros nutrientes. As sementes e o solo também receberam bactérias e fungos benéficos. Esses microrganismos ajudam a soja a obter nitrogênio, formar raízes e aproveitar melhor os nutrientes disponíveis.

Além de Ruthes, pela Região Sul, e Schlatter, pela Centro-Oeste, os demais campeões na categoria sequeiro foram:

  • Nordeste – Grupo Gorden. Fazenda Barcelona, em Riachão das Neves, com 8,5 toneladas por hectare;
  • Norte – Pedro Foresto Crispim. Fazenda Bela, em Goiatins (TO), com 8,1 toneladas por hectare;
  • Sudeste – Agropecuária Três Irmãos. Fazenda Floresta, em Cambuquira (MG), com 7,3 toneladas por hectare.

O grão de soja tem, em média, 40% de proteínas, 34% de carboidratos, 20% de lipídios (óleo) e 5% de minerais. A soja está presente em pastas de dente, barras de chocolate, alimentos vegetarianos (como salsichas, nuggets, quibes, coxinhas e hambúrgueres). A farinha de soja serve na produção de barras de cereais, balas, bebidas, massas e ingredientes de padaria. Antes de abatidos e vendidos para o almoço, os frangos foram alimentados com rações à base de milho e farelo de soja.

Em 2025, o Brasil comercializou 108 milhões de toneladas, das quais 87 milhões tiveram a China como destino e renderam R$ 174 bilhões. Sem a planta brasileira, faltariam proteínas para os animais que são abatidos no país asiático. A quantidade de soja exportada aos chineses, contudo, pode diminuir. Eles pretendem reduzir a compra do produto brasileiro em 30% até 2030. A China está incentivando o cultivo da soja em vários países da África porque a nova Rota da Seda — que conecta o Sul da Ásia com a África e Europa — vai facilitar o transporte dos navios e diminuir os custos. “Muitas das variedades do Brasil estão sendo levadas para Tanzânia, África do Sul e Namíbia”, conta. “O clima desses países é muito semelhante ao do Brasil. Além disso, o governo chinês decidiu reduzir o teor de farelo de soja nas rações animais, de 17% para 11%.”

Nepomuceno aponta algumas alternativas para enfrentar crises como a eventual redução de compra da China. Uma delas consiste em conquistar novos parceiros. Países de maioria muçulmana são um mercado promissor. O Brasil pode aumentar a exportação de soja em grão e farelo para nações como Turquia, Paquistão, Irã e Arábia Saudita. Esses produtos seriam usados na alimentação de frangos. Outra possibilidade é transformar a soja em ração no Brasil, produzir a carne de frango e exportá-la para esses mercados, o que agregaria mais valor à produção nacional.

Outra saída é desenvolver tecnologias para utilizar derivados da soja na fabricação de pneus, asfalto, tintas, adesivos, combustíveis e outros produtos industriais. Para Nepomuceno, agregar valor ao grão é uma forma de reduzir a dependência das exportações de matéria-prima e preparar o Brasil para um cenário em que a China diminua suas compras.

A agricultura brasileira aprendeu a se adaptar aos ciclos. Os pesquisadores ensinaram a planta de regiões de maior latitude a prosperar no clima tropical brasileiro. Agora há um novo desafio: ajustar toda uma cadeia produtiva às mudanças do mundo. Adaptar a produção pode manter o Brasil na liderança do cultivo de soja.

Vagens de soja verde | Foto: Shutterstock

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