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Edição 331

Eu te disse

Onde eu estaria hoje se tivesse seguido o conselho de um amigo?

Confira o resumo que a OESTE.IA, a IA da Revista Oeste, fez pra você

Em janeiro de 2016, Bernardo Santoro convidou o autor para discutir uma possível candidatura a vereador pelo Partido Social Cristão (PSC), que prometia garantir sua eleição. Apesar de sua resistência em deixar o partido Novo, onde ainda esperava ser candidato a prefeito, o autor não percebeu a oportunidade que estava perdendo. O PSC, que elegeu quatro vereadores, incluindo Carlos Bolsonaro e Cláudio Castro, posteriormente lançou Wilson Witzel ao governo do Estado, que, com apoio de Flávio Bolsonaro, venceu a eleição.

Em um dia quente de janeiro de 2016, início do verão, Bernardo Santoro me convidou para um café. Nos sentamos na varanda do Starbucks da rua do Passeio, em uma mesa com vista para a praça da Cinelândia. Bernardo tentava me convencer a tomar uma decisão ousada: sair do Novo e entrar em outro partido — um tal Partido Social Cristão, o PSC. Nesse partido, dizia ele, minha eleição para vereador seria garantida. “Fiz as contas”, ele disse. “Não há dúvida de que o PSC elegerá um vereador. Esse vereador pode ser você”.

Olhei a Cinelândia, que na época tinha se tornado um lugar seguro graças ao projeto Segurança Presente, criado pelo Coronel Felipe, que reinventara o policiamento ostensivo no Rio. Era possível abrir um laptop e trabalhar sentado em um banco da praça sem receio de assalto. “Não posso sair do Novo”, eu disse.

Centro do Rio de Janeiro | Foto: Shutterstock

Ainda estávamos no começo de 2016. Meu rompimento com o partido Novo ainda estava seis meses no futuro. Apesar da decepção de ter sido retirado, sem motivo, da presidência do diretório estadual, eu ainda acreditava que o apoio da maioria dos filiados me garantiria a vaga de candidato a prefeito pelo partido.

“Eu não fazia ideia da campanha que os dirigentes iriam mover para impedir minha candidatura, e nem da sordidez das manobras que seriam usadas contra mim.” (Trecho do meu livro Nenhum Justo Entre Nós, que será lançado no próximo ano.)

Também não imaginava a oportunidade que estava desperdiçando. Mas isso, Bernardo nunca me deixa esquecer. Ele estava certo: naquela eleição, o PSC conseguiria eleger não um, mas quatro vereadores.

O primeiro vereador eleito — o mais votado da cidade, com mais de cem mil votos — foi Carlos Bolsonaro. O segundo foi o pastor Otoni de Paula.

Pastor Otoni de Paula | Foto: Bruno Spada/Câmara dos Deputados

Outro foi um cantor gospel, com um problema de fala: ele era gago, mas, curiosamente, não gaguejava quando cantava. O cantor trabalhava como chefe de gabinete de um deputado estadual, Marcio Pacheco (hoje conselheiro do Tribunal de Contas do Estado). O nome do cantor que foi eleito vereador era Cláudio Castro.

O quarto vereador não assumiu porque não superou a votação exigida pela cláusula de barreira individual —  votação correspondente a 10% do quociente eleitoral — que, naquela eleição, foi de 5,5 mil votos.

Dois anos depois, em 2018, o PSC decidiu lançar um candidato ao governo do Estado, Wilson Witzel. Wilson era juiz e pedira demissão do cargo para se candidatar. Suas chances eram pequenas — seu oponente era Eduardo Paes, um político experiente e popular, com uma longa carreira que incluía posições como secretário de Estado, deputado federal e dois mandatos como prefeito do Rio.

Wilson era desconhecido e suas chances de vitória eram consideradas inexistentes. Na hora de escolher alguém para compor a chapa como candidato a vice-governador, o PSC decidiu por um dos vereadores, Cláudio Castro.

Era quase impossível para Wilson vencer a eleição, mas foi isso que aconteceu — em grande parte devido ao fenômeno Jair Bolsonaro, que impulsionou candidaturas consideradas “de direita” em todo o país. Em determinado momento da campanha, Wilson, com muita persistência, conseguiu o apoio de Flávio Bolsonaro (que era candidato a senador) e isso assegurou a vitória. O vereador Cláudio Castro se tornou vice-governador.

Castro negou que tenha agredido o ator | Foto: Divulgação/Governo do Estado do Rio de Janeiro
Cláudio Castro, ex-governador do Rio | Foto: Divulgação/Governo do Estado do Rio de Janeiro

Dois anos depois, ao fim de uma sequência trágica de eventos, a Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro aprovava, por 69 votos a favor e nenhum contra, o impeachment do governador Wilson Witzel.

Cláudio Castro, um dos três vereadores eleitos pelo PSC em 2016 naquela eleição que Bernardo sugerira que eu disputasse, tornou-se governador do Estado do Rio de Janeiro.

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