publicidade
Funcionários do Conselho da UE chegam para retirar a bandeira do Reino Unido do edifício do Conselho Europeu, no dia do Brexit, em Bruxelas, Bélgica (31/01/2020) | Foto: Shutterstock/Alexandros Michailidis
Edição 329

A União Europeia vai de mal a pior

Dez anos depois do referendo do Brexit, que levou o Reino Unido a sair da UE, Bruxelas está mais intrusiva, autoritária e antidemocrática do que nunca

Confira o resumo que a OESTE.IA, a IA da Revista Oeste, fez pra você

Dez anos após o referendo que levou o Reino Unido a deixar a União Europeia (UE), há um crescente clamor para reverter essa decisão, com críticos alegando que o Brexit causou danos econômicos e sociais. No entanto, o artigo destaca que a situação na UE se deteriorou, com um aumento na burocracia e na regulação, incluindo a possibilidade de imposição de leis por tecnocratas não eleitos.

Dez anos se passaram desde o voto britânico para sair da União Europeia (UE), mas os gritos para reverter o referendo continuam altos como sempre. Fomos bombardeados incessantemente com a ideia de que o Brexit foi uma catástrofe — supostamente destruindo a economia, despedaçando a sociedade e tornando a Grã-Bretanha ingovernável. Aparentemente, nossa única chance de corrigir esses supostos erros é um alinhamento mais estreito com Bruxelas e, em última instância, a retomada do nosso lugar na UE como um Estado-membro pleno. O que quase nunca se discute é o que realmente está acontecendo no bloco ao qual somos instados a nos reintegrar.

Entre os eurófilos — aqueles que desejam o retorno à UE —, há um debate sobre se os termos da adesão britânica teriam que mudar ou se seriam praticamente os mesmos de 2016: a Grã-Bretanha poderia perder seu abatimento no orçamento da UE (que valia 8,9 bilhões de libras em 2017)? Seríamos forçados a aderir à área de livre circulação de Schengen — ou até mesmo à moeda única, o euro?

Foto: Shutterstock

Tais questões estariam sujeitas a negociação. Mas o que é inegociável para os Estados-membros da UE é o cumprimento das diretrizes e regulamentos europeus. E estes tornaram-se muito mais pesados e politicamente tóxicos na última década, desde que saímos. Sem a Grã-Bretanha para frear os piores excessos dos eurocratas, tudo o que os defensores do Brexit desprezavam em Bruxelas — desde a intromissão em assuntos nacionais até a má gestão das economias europeias — foi turbinado. Vender a ideia de um retorno à UE em 2026 seria muito mais difícil do que foi a campanha pela permanência em 2016.

Veja a seguir cinco razões pelas quais a UE está muito pior do que quando saímos:

1. A UE poderia escolher nossos primeiros-ministros

Um argumento central do Brexit era que as leis da Grã-Bretanha deveriam ser feitas na Grã-Bretanha, por nossos representantes eleitos. As leis da UE, em contraste, são feitas em grande parte por eurocratas não eleitos. Pior ainda, governos eleitos de Estados-membros que enfrentam dificuldades podem ser derrubados e substituídos por tecnocratas escolhidos a dedo pela UE.

Isso já era ruim antes mesmo do Brexit, quando a UE expulsou líderes eleitos durante crises econômicas, como Silvio Berlusconi na Itália e George Papandreou na Grécia, em 2011, em meio à crise da dívida da zona do euro. Hoje em dia, a UE tende a agir antes mesmo que líderes populistas, céticos em relação ao bloco ou “problemáticos” possam formar governos, principalmente por meio da Lei de Serviços Digitais de 2022 e do ironicamente batizado “Escudo da Democracia”, ambos criados para limitar e moldar o debate pré-eleitoral online.

O então primeiro-ministro da Itália, Silvio Berlusconi, durante sua participação no encontro político Atreju, em Roma, Itália (09/09/2011) | Foto: Shutterstock

As instituições da UE também trabalham arduamente para rotular certos candidatos como riscos à segurança ou como ativos de potências estrangeiras. Na Romênia, isso resultou no cancelamento sem precedentes de uma eleição presidencial em 2024. Embora a decisão de repetir a votação tenha sido tecnicamente tomada pelos tribunais romenos, os líderes da UE deixaram claro que o caso deve ser visto como um potencial modelo para outras eleições. O ex-comissário europeu Thierry Breton propôs, entusiasmado, que se faça o mesmo onde quer que a direita populista venha a triunfar na Europa: “Fizemos isso na Romênia e, obviamente, faremos na Alemanha, se necessário”, disse ele na TV francesa. Reingressar na UE significa submeter a democracia nacional ao controle de Bruxelas.

2. A Euro-polícia do pensamento

O Reino Unido sofre hoje com uma crise de liberdade de expressão. Dezenas de pessoas são presas todos os dias por postagens “extremamente ofensivas” nas redes sociais. A Lei de Segurança Online limita o que os britânicos podem acessar na internet. Na Grã-Bretanha do Brexit, essas leis podem, ao menos, ser revogadas — de fato, o partido Reform UK prometeu uma Lei de Liberdade de Expressão e o descarte da Lei de Segurança Online especificamente com esse objetivo.

No entanto, se o Reino Unido voltasse à UE, teríamos que lidar com a polícia do pensamento europeia. Todos os Estados-membros são legalmente obrigados, desde 2008, a ter leis que sancionam criminalmente o chamado “discurso de ódio”. E, desde 2022, a própria UE assumiu um papel muito maior na regulação do discurso online. Sob a Lei de Serviços Digitais, as plataformas de redes sociais podem ser compelidas a censurar qualquer coisa considerada “discurso de ódio”, “má informação”, “desinformação” ou “conteúdo ilegal”. O tipo de conteúdo que se encaixa nessas categorias — deliberadamente vagas — é determinado pela Comissão Europeia, cujas decisões são finais e não admitem recurso. Não há dúvidas de que nossa liberdade mais preciosa estaria ameaçada nas mãos dos burocratas de Bruxelas.

Reunião semanal do Colégio de Comissários da Comissão Europeia em Bruxelas, Bélgica (27/09/2023) | Foto: Shutterstock/Alexandros Michailidis

3. O Net Zero sem fim

Uma vez que não se pode mais ignorar o aumento do custo do Net Zero (plano para zerar as emissões de carbono), tanto o Reform UK quanto os Conservadores prometeram descartar as metas ecológicas rigorosas da Grã-Bretanha. Até o provável futuro primeiro-ministro Andy Burnham avalia se deve retomar a extração de petróleo no Mar do Norte para impulsionar o crescimento econômico. Mas, se o Reino Unido voltasse à UE, seria praticamente impossível livrar-se do extremismo climático.

A Lei Europeia do Clima estabelece uma meta de Net Zero juridicamente vinculante, o que significa que todos os membros da UE são forçados a priorizar as exigências de ecoativistas em detrimento do padrão de vida de seus cidadãos. Como era de se esperar, uma reação popular contra as “punições verdes” já ganha corpo. Na Itália, a diretriz da UE para casas ecológicas enfureceu a população quando o custo astronômico de 400 bilhões de euros veio à tona. Na França, a oposição às ecotaxas levou à revolta de um ano dos gilets jaunes (“coletes amarelos”), cidadãos trabalhadores indignados com as medidas ecoativistas da UE. O governo alemão conseguiu evitar uma proibição total de vendas de carros a gasolina e diesel em toda a UE, embora a indústria automobilística da Alemanha tenha alertado, apenas no mês passado, que 50 mil empregos continuam ameaçados pela política climática de Bruxelas.

Poucos setores foram tão castigados pela insanidade ecológica da UE quanto a agricultura. Desde 2020, a estratégia “Farm to Fork” (em tradução livre, “direto do campo para o prato”) impôs exigências rigorosas aos agricultores para reduzir as emissões de carbono, de nitrogênio e o uso de fertilizantes, pesticidas e antimicrobianos. As diretrizes da UE destinadas a criar uma agricultura mais “sustentável” levaram, na prática, ao amplo fechamento de fazendas, trabalhadores forçados a deixar o setor e propostas para o abate em massa de animais de criação. A revolta dos agricultores em toda a Europa em 2023 e 2024 pode ter suavizado e adiado algumas das medidas “antiagro” mais extremas, mas a agricultura continua vulnerável sob a tirania verde de Bruxelas.

Tratores com cartazes de agricultores protestando contra as medidas do governo, em Munique, Alemanha (08/01/2024) | Foto: Shutterstock

4. Reféns de fronteiras alheias

A promessa da campanha do Brexit de “retomar o controle” das fronteiras da Grã-Bretanha foi covardemente traída pelos Conservadores de Boris Johnson, que imediatamente começou a flexibilizar as regras de imigração. Ao longo de 2023, período que ficou conhecido como “Boriswave” (“onda de Boris”), a migração líquida atingiu o pico de 906 mil entradas. Em 2025, até setembro, 2,6 milhões de pessoas haviam migrado para o Reino Unido — quase o mesmo número de habitantes de Birmingham.

Embora alguns defensores da permanência apontem a Boriswave como prova da tolice do Brexit, a migração também explodiu em vários Estados-membros da UE na mesma época. Entre 2021 e 2023, Alemanha, Espanha e Holanda experimentaram picos sem precedentes na entrada de imigrantes, vindos em grande parte de fora da UE, em resposta à escassez de mão de obra gerada pela pandemia de covid-19.

A diferença fundamental é que um Reino Unido independente e soberano tem o direito de estabelecer seu próprio curso na imigração e reverter políticas fracassadas. Em contraste, na UE, como a livre circulação de imigrantes é um pilar da adesão ao bloco, cada país se torna refém das políticas de fronteira dos demais membros. A decisão de Angela Merkel de abrir as fronteiras em resposta à crise migratória de 2015 e a anistia de Pedro Sánchez em 2026 para cerca de um milhão de imigrantes ilegais na Espanha, por exemplo, impactaram todos os membros da UE. Se a Grã-Bretanha ainda estivesse na UE, estaríamos agora falando sobre a iminente “onda de Sánchez”?

O primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, faz um balanço do ano político em coletiva, em Madri, Espanha (28/07/2025) | Foto: Shutterstock

5. A guerra cultural da UE

Para aderir à UE, um país precisa cumprir certos critérios — a saber, ter instituições que respeitem o Estado de Direito e os direitos humanos, uma economia de mercado e um Estado administrativo funcional. Além disso, tem que permitir que homens que afirmam ser mulheres entrem em banheiros e vestiários femininos.

Por mais incrível que pareça, a UE está atualmente pressionando o país candidato Montenegro a aprovar uma lei que permita a autoidentificação de gênero como parte do processo de adesão. Aparentemente, se você quer ser membro do bloco, deve remodelar sua sociedade seguindo diretrizes do extremismo woke.

Quanto aos Estados-membros atuais, a desobediência à cartilha da ideologia progressista pode levar a punições severas. As várias leis “anti-LGBT” da Hungria não foram apenas derrubadas pelos tribunais da UE, mas também levaram a multas sem precedentes para o governo eleito em 2021. Entre as leis consideradas fundamentalmente em desacordo com o Artigo 2 do Tratado da União Europeia estava uma que proibia a “promoção da transição de gênero” para crianças. Temos todos os motivos para temer que a corajosa resistência da nossa “Ilha TERF” (sigla em inglês para “feminista radical trans-excludente”) à ideologia de gênero seja anulada caso voltemos rastejando para a UE.

Dez anos depois do voto pelo “Sair”, é claro e inegável que o Brexit encarnou a sabedoria das massas contra os delírios cada vez mais loucos do establishment globalista. Temos uma sorte incrível de ter saído.

Foto: Shutterstock

Fraser Myers é editor-adjunto da Spiked e apresentador do podcast da Spiked. Ele está no X como: @FraserMyers.

Leia também “O embate econômico contra o Brexit entrou em colapso”

Leia mais sobre:

0 comentários
Nenhum comentário para este artigo, seja o primeiro.
Anterior:
O fracasso do Desenrola
Próximo:
O tempo está correndo mais rápido?
publicidade