Para assistir ao show de Ed Sheeran este ano em São Paulo, os fãs do cantor que não têm direito a nenhum benefício precisam desembolsar valores entre R$ 490 e R$ 880. Já os do Imagine Dragons chegaram a pagar, em 2025, até R$ 1.800 para ver de perto a banda do vocalista Dan Reynolds. Em 2017, o show do U2 custou R$ 1.250.
A realidade brasileira destoa da de países vizinhos. A apresentação da banda britânica Iron Maiden em São Paulo, por exemplo, custa R$ 585 para quem topar ficar na pista comum. No Chile, o mesmo ingresso está pela metade do preço. O contraste é ainda maior no show do AC/DC. Enquanto os brasileiros pagam mais de R$ 1.300, o ingresso dos chilenos não chega a R$ 600.

A explicação, nesse caso, está longe de ser a inflação nas alturas ou a economia em frangalhos. O que faz os ingressos no Brasil atingirem preços proibitivos é a política da meia-entrada. O que começou como um direito dos estudantes, transformou-se numa farra em que qualquer um pode conseguir a sua carteirinha. Seja por mensagem de WhatsApp, seja por aplicativo, seja comprando em sites de e-commerce, entre eles o Mercado Livre e a Shopee.
Como na prática só não consegue a carteirinha quem realmente não quer, o preço da meia-entrada acabou se tornando equivalente ao que seria o ingresso inteiro se o benefício fosse restrito a quem tem direito. Já quem paga o valor integral acaba desembolsando o dobro do que deveria.
Nas últimas semanas, a reportagem de Oeste entrou em contato com falsificadores e fez quatro carteirinhas. Cada uma indica um curso e uma instituição diferentes. Pelo WhatsApp, as fraudes são feitas por uma entidade identificada como União Estudantil Nacional (UEN), que cobra R$ 30 pelo documento. Ewerton Carlos dos Reis Bassalos Simas, responsável pelo site, pede algumas informações pelo aplicativo de mensagens, como nome, número de CPF, foto e o nome da instituição em que estuda. Quando o comprador informa que não é estudante, a resposta é: “Caso não esteja estudando, podemos vincular você a um curso pela nossa plataforma”. No documento emitido pela UEN, o repórter de Oeste aparece matriculado no curso de Administração de Empresas na Fundação Getúlio Vargas (FGV). No Instagram, a própria entidade afirma ter vendido mais de 30 mil carteirinhas.

A advogada Mariana Simas, irmã de Ewerton, afirmou que “após a verificação das informações, e diante da ausência de comprovação válida do vínculo acadêmico, o cadastro foi cancelado e a carteirinha tornou-se inválida”. Contudo, o cancelamento só ocorreu depois de o repórter se identificar e perguntar a Ewerton sobre a validade do documento. Até então, constava normalmente no sistema da UEN. A advogada também informou que seu cliente (e irmão) não concederia nenhuma entrevista.
No site da Shopee, a vendedora Jessica Regina dos Santos pede as mesmas informações solicitadas por Simas. Um Pix de R$ 80 é feito e o documento chega ao endereço informado em menos de uma semana. Com esta carteirinha, foi possível comprar um ingresso de meia entrada para o Cine Marquise, em São Paulo. A funcionária do estabelecimento apenas visualizou a credencial e liberou a entrada, sem maiores problemas. Não houve leitura do QR Code nem qualquer procedimento de autenticação. Se o código de verificação tivesse sido analisado, a fraude seria facilmente identificada: o sistema não direciona para uma base de dados estudantil, mas a páginas promocionais da CorelDRAW, empresa especializada em design gráfico. Ao ser questionada pela reportagem, Jessica disse que informava aos compradores que a carteira não era legítima — o que não aconteceu no caso de Oeste. Em seguida, bloqueou o repórter no WhatsApp e retirou sua página da Shopee.

A facilidade em conseguir um documento falsificado, somada à falta de controle nos acessos aos eventos, torna a farra ainda maior. Um aplicativo de celular chamado Esttu também vende identificação estudantil falsa. A versão digital do documento fica pronta em poucos minutos e o solicitante não paga um centavo sequer. Doriedson Oliveira Caetano, responsável pela falsificação, ganha dinheiro por meio dos anúncios publicados no sistema digital. À reportagem, ele admitiu que o documento é falso. “A carteirinha pode ser emitida, mas não vai ser válida”, disse. Quem falsifica documentos pratica crimes previstos no Código Penal, com penas que variam de 1 a 5 anos de reclusão.

O começo de tudo
A meia-entrada surgiu como uma reivindicação do movimento estudantil, que desde a década de 1940 argumenta que muitos jovens não conseguem arcar com o valor integral dos ingressos. O uso das carteirinhas foi oficializado em 2013 por meio da Lei 12.933. A norma regulamentou a meia-entrada e criou regras para a emissão da chamada Carteira de Identificação Estudantil.
Quando a regra foi estabelecida, o documento podia ser emitido somente pela União Nacional dos Estudantes (UNE), pela União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (Ubes), pela Associação Nacional de Pós-Graduandos (ANPG), além de diretórios centrais dos estudantes (DCEs), centros acadêmicos e entidades estaduais e municipais filiadas a essas organizações estudantis.
A norma sofreu alterações em 2022, depois de uma decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), que considerou inconstitucional a exigência de que organizações estaduais e municipais fossem filiadas à UNE, à Ubes ou à ANPG para emitir a identificação. Na prática, a resolução ampliou o número de empresas aptas a fornecer o documento. Desde então, entidades estudantis locais (qualquer organização que atenda aos interesses dos estudantes) passaram a emitir carteirinhas sem a necessidade de vinculação às grandes organizações nacionais. A resolução da Suprema Corte limitou o controle de verificação dos documentos, expandiu a emissão e, com isso, facilitou as fraudes.
Entidades legalizadas também emitem documentos sem grandes exigências. Uma delas, chamada Fens, por exemplo, embora não seja ligada à UNE, está apta a emitir a credencial. Para isso, basta entrar no site da empresa, realizar o pagamento, fazer o cadastro, enviar os dados e comprovar que está matriculado em alguma instituição de ensino. Se o solicitante não estiver estudando, a Fens oferece um curso de formação continuada gratuito com carga horária de 20 horas. O estudante pode concluir as aulas em um dia e usufruir do benefício durante o ano inteiro. Como o curso não é cobrado, trata-se meramente do comércio de carteirinhas, prática adotada por muitas dessas associações. Perguntado se essa iniciativa seria justa, Wander Freitas, presidente da Fens, diz que não é questão de achar certo ou errado. “Apenas seguimos o que diz a lei”, afirma. “Realmente parece injusto, mas está dentro da legalidade”.
Não há dados que mostram quantas pessoas possuem carteirinhas estudantis, sejam falsas ou legalizadas. De acordo com dados do MEC, há aproximadamente 50 milhões de estudantes matriculados no Brasil. Se juntar todas as organizações que distribuem carteirinhas, o número fica absurdamente maior.

Produtor de artistas como Gretchen, Daniel Boaventura e Paula Fernandes, Roberto Rodrigues explica que os eventos são mais caros no Brasil porque a meia-entrada prejudica o lucro dos artistas. “Além do cachê, há uma estrutura gigantesca por trás de cada apresentação”, explica. “Locação do espaço, divulgações, salário da equipe, temos uma série de despesas que grande parte do público não conhece. Se não aumentarmos o valor dos ingressos, a conta não fecha.”
Ainda de acordo com Rodrigues, o funcionário que confere a carteirinha de estudante num show musical não consegue verificar com atenção a veracidade do documento. “Muitas vezes há uma fila enorme e o lugar está escuro”, diz. “É impossível.”
Como consequência, o cidadão que não estuda e não pretende fraudar uma carteirinha arca com ingressos cada vez mais caros. Os estudantes favoráveis à meia-entrada também saem prejudicados, uma vez que poderiam pagar preços mais equilibrados sem depender de um documento para obter descontos, caso o Estado não interferisse na formação dos preços do setor. Já aqueles que fraudam a carteirinha, além de cometer crime, ajudam a agravar ainda mais o problema.
As críticas não vêm só de produtores. Em entrevista ao programa Roda Viva, em outubro de 2015, o ator Antonio Fagundes reclamou da meia-entrada. De acordo com ele, quem realmente paga pelo aumento dos ingressos são as pessoas que não desfrutam o benefício. “Não sou contra a meia-entrada”, disse. “Sou contra o fato de eu ter de pagar a outra metade. Aqui é o único lugar no mundo em que o governo interfere no seu negócio ao te obrigar a cobrar metade do que você precisa para sobreviver.”
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Não vamos nos mexer senão afundamos mais rápido.
Vamos dar um basta a esse Brasil que falece aos poucos, torturado por todos os lados, na eleição de outubro.
Na prática , o estudante paga a metade do dobro e quem nao tem carteirinha paga o dobro. Quando eu era estudante , há 40 anos , quem emitia carteirinha de estudante era a instituição de ensino, colégios , faculdades, univerdidades. Depois a UNE subverteu essa normalidade , cupidez financeira tipica da esquerda “popular”!
As carteirinhas estudantis, há que se dizer, são medida demagógica com vista a angariar fundos para a UNE. Apenas isso. Por isso que os comunistas as defendem tanto. Mesmo tendo toda essa concorrência, a UNE ganha dinheiro vendendo suas carteirinhas. É o mesmo chororô de sempre: ‘acesso estudantil a cultura’, sem qualquer lastro com a realidade. O efeito da lei de meia-entrada sempre foi o de dobrar o preço dos ingressos, de modo que o estudante de família rica paga a pseudomeia, e o estudante de família pobre continua sem ‘acesso’. e a matéria prefere dizer que o problema são as carteirinhas não-UNE do que o descalabro que é a Lei de Meia Entrada. Quando teremos de fato LIBERDADE ECONÔMICA no Brasil?
Não há o menor risco do país dar certo.