Um jogo é apenas um jogo. No caso do Monopoly (mais conhecido no Brasil como Banco Imobiliário), é também História, educação econômica, visão de mundo e lição de finanças. “Monopoly foi usado para treinar executivos em decisões e pesquisar o comportamento humano em situações de conflito”, publicou a revista Time numa edição especial dedicada aos 90 anos do jogo. “Foi adaptado para ensinar habilidades cognitivas para crianças e por pesquisadores de inteligência artificial na esperança de desenvolver um agente capaz de aprender estratégias de vitória”.

Monopoly foi proibido na Alemanha nazista porque seu ministro da propaganda, Joseph Goebbels, julgou que o jogo possuía um “caráter especulativo judeu”. Foi também proibido na União Soviética até 1988 por promover o capitalismo. Mas, por incrível que pareça, o jogo nasceu como uma aula de socialismo. A primeira ideia surgiu no início do século 20 com a feminista americana Lizzie Magie. Lizzie era seguidora do economista de esquerda Henry George e seus princípios sobre posse da terra — uma espécie de projeto de renda básica baseado na cobrança de impostos.
Lizzie inventou o Landlord’s Game (“Jogo do Proprietário de Terras”) — um tabuleiro quadrado com uma série de quadrinhos representando propriedades, serviços e estradas de ferro. Esse protótipo já incluía as cartas da sorte, as cédulas de papel, as casinhas e a temível ordem “vá para a prisão”. O Landlord’s Game tinha dois conjuntos de regras. Um incentivava a distribuição de renda através da taxação dos donos de imóveis. O outro mostrava os possíveis males causados pela disputa em busca do monopólio.

Magie registrou o Landlord’s Game em 1904 e esperou que fosse vendido nas lojas. Mas o jogo se espalhou como uma ideia sem dono. Muita gente o recriou usando cartolina e outros materiais domésticos. Universidades passaram a copiar a ideia como material didático. A versão de “justiça social” criada por Lizzie Magie acabou sendo esquecida. Todo mundo queria a emoção do livre mercado.
Em 1929, veio a Grande Depressão e a miséria se espalhou pelos EUA. Um jogador fanático de Landlord’s Game chamado Charles Darrow, da Filadélfia (Pensilvânia, EUA), modernizou o jogo e o batizou de Monopoly. Declarou no registro de patente que a criação era sua. A empresa de brinquedos Parker Brothers (fundada em 1883) percebeu o potencial do Monopoly e pagou a Darrow US$ 7 mil pelos direitos do jogo. (O preço equivale a US$ 165 mil hoje, ou aproximadamente R$ 857 mil). Darrow aposentou-se aos 46 anos e foi conhecer o mundo. Magie morreu na pobreza.
O Monopoly foi lançado como o “grande jogo financeiro”. Sua propaganda dizia: “Está conquistando o país porque agrada a todos os americanos que adoram pechinchar e negociar. Dê uma festa com Monopoly e os convidados vão querer jogar a noite toda!” E jogaram mesmo. No primeiro ano, foram vendidas 278 mil unidades de Monopoly. No ano seguinte, esse número cresceu para 1,75 milhão. A autora Mary Pilon, que em 2015 escreveu um livro sobre o jogo, notou que havia uma razão psicológica para seu sucesso. Durante a Depressão de 1929, as pessoas não tinham dinheiro de verdade. Então brincavam com o dinheiro de papel do Monopoly, o que dava a elas uma sensação de riqueza ao comprar empresas e edifícios de mentira.

O Monopoly-X engana os nazistas
O sucesso de Monopoly só cresceu. Quando a Segunda Guerra começou, o jogo já era conhecido em boa parte do mundo. O autor, Philip E. Orbanes, conta que os ingleses criaram uma versão chamada Monopoly-X, para ser doada aos conterrâneos aprisionados pelos alemães. Os nazistas deixaram. Eles consideravam que prisioneiros que passavam seu tempo com um jogo de tabuleiro não pensavam em fugir.
Os alemães não perceberam, mas algumas das caixas doadas eram marcadas por um pequeno ponto. Os prisioneiros já sabiam que os jogos marcados com esse ponto eram especialmente preparados pelo serviço secreto britânico. Escondiam bússolas, marcos alemães, documentos e mapas para ajudar na fuga dos prisioneiros. O sucesso do plano da inteligência britânica se mede em números: os quase 2 mil Monopoly-X distribuídos ajudaram na fuga de 11 mil prisioneiros, dos quais só 1,6 mil conseguiram voltar à Inglaterra.
A arte e a expansão do Monopoly
O tabuleiro do Monopoly tem um apelo visual cuidadosamente planejado para que o jogador sinta prazer enquanto joga. Seu estilo é art déco, uma escola de arte criada na França na década de 1930. A tipologia, segundo a edição especial da Time, remete a “classe, distinção e sucesso”.
Quando a empresa Hasbro comprou a Parker Brothers em 1991, lançou diversas variações do jogo — Bob Esponja, Pokemon, Game of Thrones, Disney, Super Heróis DC, Stranger Things, Friends, Star Trek, Dune, Swarovski (com dois mil cristais) e a Dungeons & Dragons. Em 1988, uma versão em ouro foi criada pelo joalheiro Sydney Mobell, com casinhas de ouro e hoteizinhos de rubi e safira. Essa versão custou US$ 2 milhões e agora faz parte do acervo do Instituto Smithsonian.

Hoje, o Monopoly está licenciado em 114 países e traduzido para mais de 40 línguas. Seu personagem símbolo é o Mister Monopoly, com sua cartola e seu bigode branco retorcido nas pontas. A revista Forbes fez uma lista dos personagens fictícios mais ricos, e Mister Monopoly ficou entre os 15 primeiros, concorrendo com Tio Patinhas, Mister Burns (da série Os Simpsons), Tony Stark (o Homem de Ferro, da Marvel) e Bruce Wayne (o Batman).

As regras básicas do Monopoly
- Um jogador é escolhido para ser o banqueiro, responsável por distribuir o dinheiro e os títulos de propriedade. Cada participante recebe uma quantia inicial em dinheiro.
- Os jogadores lançam os dados e movem seus peões pelo tabuleiro.
- Ao cair em uma propriedade sem dono, o jogador pode comprá-la. Se cair na propriedade de outro jogador, deve pagar o aluguel. Há também espaços de sorte ou revés, decididos por cartas.
- O jogador que administrar melhor os recursos e for o último a permanecer no jogo vence.
Surge o Banco Imobiliário
Monopoly entrou no Brasil de maneira meio clandestina por volta de 1940. O jogo foi chamado na época de “Bolsa de Imóveis”. Em 1944, a empresa Estrela obteve a licença oficial da Parker Brothers e o rebatizou como Banco Imobiliário. As ruas originais de Atlantic City foram trocadas por locais do Rio de Janeiro e de São Paulo. Depois, o tabuleiro passou a incluir vias de outras capitais brasileiras, como a Praça Castro Alves, em Salvador (BA), e a Praça dos Três Poderes, em Brasília (DF).
Os jogadores podiam “comprar” empresas que já não existem mais, como a Companhia de Navegação Costeira e as empresas aéreas Varig e Panair do Brasil. Hoje essas empresas foram substituídas por instituições genéricas como “banco”, “petrolífera”, “e-commerce”, “rede de restaurantes” etc. O jogo acompanhou as mudanças do padrão monetário e as cédulas do Banco Imobiliário já foram impressas em Cruzeiros, Cruzados, Cruzados Novos, Cruzeiros Reais e Reais.
A versão eletrônica
Em abril de 2023, surgiu a versão para celular — o Monopoly GO! E o sucesso atingiu um novo patamar. Em três anos e meio, essa versão já tinha faturado US$ 6 bilhões com uma receita mensal de US$ 41 milhões. O GO! superou a marca dos 150 milhões de downloads.

O jogo em si é gratuito, mas para avançar para novos estágios, o jogador precisa comprar o dinheiro de brinquedo com dinheiro real — entre R$ 9,90 e R$ 19,90. O jogo não conhece limites geográficos. Você começa comprando as conhecidas propriedades no Brasil e depois pode escalar para outros países. O início dessa versão para celular é bem estranho. Para começar a ganhar dinheiro, você é levado a praticar atividades como assaltar bancos e demolir a propriedade de outros jogadores. Sinal dos tempos.
Escola de livre iniciativa
O Monopoly/Banco Imobiliário está longe de ser uma escola completa de economia. Ele se limita à posse de terrenos e aos lucros gerados por aluguéis dessas propriedades. É uma economia rentista, onde ninguém produz nenhum tipo de riqueza. Mesmo assim, é com esse jogo que gerações tiveram o primeiro contato com alguns princípios básicos da vida real, como a necessidade de acumular dinheiro para ter mais opções dos caminhos a seguir, e a existência de taxas, impostos e punição para quem não seguir as regras.
Mesmo com todo o sucesso, o conceito central do Banco Imobiliário envelheceu, pois, 91 anos depois de concebido, a economia não é mais tocada por barões do petróleo e ferrovias como no início do século passado. Não se ganha dinheiro apenas com a compra e o aluguel de propriedades.
Um Banco Imobiliário adaptado à realidade do século 21 teria que ser totalmente repensado, muito mais complexo e fluido nos seus objetivos. É mais fácil permanecer colocando casinhas no quadradinho da Avenida Paulista sob o olhar vigilante de Mister Monopoly e seu bigode retorcido.

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Dagomir Marquezi parabéns pelo artigo, joguei muito Banco Imobiliário e War,na adolescência e adulta também com minha família e amigos que agregavam o almoço de domingo na casa de meus pais. Os bons jogos são um grande aprendizado além além da diversão .As estratégias são excelentes para a vida .