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Foto: Montagem Revista Oeste
Edição 324

A armadilha da redução de jornada

PEC que põe fim à escala 6×1 promete descanso, mas ignora risco de inflação, desemprego, informalidade e fechamento de pequenos negócios

À primeira vista, a proposta parece irrecusável: trabalhar menos, ganhar o mesmo salário e ter mais tempo para descansar e cuidar da família. Embora seja uma reivindicação legítima dos trabalhadores, o tema do fim da escala 6×1 tem sido usado como apelo político e possível moeda de troca com a entrada da emenda em vigor às vésperas das eleições. No discurso da esquerda, a mudança aumentaria a qualidade de vida, elevaria a produtividade, geraria empregos e ainda reduziria a “pejotização”. Fora do palanque, contudo, a conta dessa reforma é bem mais complexa. Especialistas ouvidos por Oeste afirmam que a emenda pode produzir justamente o efeito contrário: encarecer produtos e serviços, reduzir contratações, acelerar a automação, ampliar a informalidade e atingir com mais força os trabalhadores de menor renda.

O ponto central é que a PEC reduz a jornada de 44 para 40 horas semanais sem redução salarial, com um período de transição de 14 meses e sem nenhuma previsão de contrapartida aos empregadores — pelo menos até o momento. Na prática, isso significa aumentar o custo da hora trabalhada. Segundo levantamento da Confederação Nacional da Indústria (CNI), a mudança pode reduzir o PIB em 0,7%, uma perda estimada de R$ 76,9 bilhões para a economia. A entidade também projeta alta média de 6,2% nos preços ao consumidor, com impacto de 5,7% nos supermercados.

Para o advogado Eduardo Pastore, que atua nas áreas trabalhista e empresarial, o debate tem sido apresentado ao trabalhador apenas pela metade. “Quando você amplia direitos trabalhistas, como neste caso em que o trabalhador vai trabalhar menos recebendo a mesma coisa, você precisa olhar para o custo desse direito”, afirmou. “Todo direito tem um custo correspondente e alguém precisa ter capacidade econômica para pagá-lo.”

Segundo Pastore, a redução de 44 para 40 horas representa “um impacto de cerca de 10% na folha de pagamento”. A partir daí, as empresas teriam três caminhos para tentar conter os custos dessa mudança. “A primeira alternativa é repassar esse aumento aos preços dos produtos e serviços”, disse. “Isso gera inflação, retração do PIB e afeta principalmente o trabalhador de baixa renda. A segunda alternativa é substituir trabalhadores mais caros por mão de obra mais barata. A terceira é automatizar. Quem consegue colocar tecnologia, coloca. E, quando entra tecnologia, sai trabalhador.”

A promessa oficial é que a folga a mais virá sem perdas. O risco apontado por especialistas como Lucas Ribeiro é que a perda apareça por outro caminho, o da inflação. Ou seja, no preço do arroz, da carne, do remédio, da passagem, do serviço, da mensalidade, da roupa e do emprego que pode deixar de existir. “O discurso pode ser bonito, a causa pode ser nobre, mas a prática é diferente”, afirmou Ribeiro. “No dia seguinte à aprovação, a empresa continuará precisando abrir e fechar no mesmo horário. Para manter a mesma qualidade de atendimento e capacidade de produção, ela terá de contratar mais trabalhadores.”

Alimentos inflação
A promessa de folga sem perdas esconde o risco de aumento na inflação e nos preços de produtos básicos | Foto: Agência Brasil

Para Ribeiro, o impacto não vai recair apenas sobre grandes empresas, mas nas micro, pequenas e médias empresas. A partir disso, consequentemente, “o que veremos é um grande número de empresas reduzindo capacidade, investindo menos em produtividade, diminuindo margens de lucro — que muitas vezes já são apertadas — ou trocando trabalhadores”. “As empresas poderão substituir funcionários que ganham R$ 3 mil ou R$ 4 mil por outros recebendo R$ 1,5 mil ou R$ 2 mil, para conseguir manter a operação funcionando. Ou então aumentar a informalidade e a pejotização, precarizando ainda mais o trabalho.”

A narrativa do emprego

O autor da PEC 221/19, deputado Reginaldo Lopes (PT-MG) — que teve a proposta da deputada Erika Hilton (Psol-SP) incorporada para discussão — tem sustentado a tese de que a redução da jornada pode gerar empregos e reduzir o número de trabalhadores informais ou contratados como pessoa jurídica. A lógica apresentada pela esquerda é simples: se cada empregado trabalhar menos horas, as empresas teriam de contratar mais gente para preencher as lacunas. O problema, segundo os especialistas, é que essa equação ignora custo, margem, informalidade, carga tributária e diferença entre setores.

Pastore contesta a ideia de que a PEC reduzirá a pejotização. “O que deve acontecer é exatamente o contrário: aumento da informalidade, da precarização e da rotatividade”, afirmou. “Essa proposta atende apenas uma parcela dos trabalhadores formais da CLT, enquanto milhões estão na informalidade ou trabalhando por conta própria. No fim, você cria um custo para toda a sociedade sem resolver o problema estrutural.”

Ribeiro faz avaliação semelhante. “É uma ilusão imaginar que a pejotização vai diminuir porque houve redução da carga horária. Isso não faz sentido”, analisou. “As pessoas recorrem à pejotização justamente para escapar do peso arrecadatório do Estado. Imaginar que elas voltarão para a CLT por causa dessa medida é inconcebível.”

Para o deputado Maurício Marcon (PL-RS), autor da PEC 40/2025, que propõe um sistema trabalhista cujo empregador e o empregado possam definir a jornada trabalhista, apontou a “contradição no discurso governista” e na proposta aprovada na Câmara dos Deputados nesta semana, em primeiro turno, com 472 votos. 

“O engraçado é que eles não apresentam estudos para sustentar a proposta da escala 5×2, que inclusive, vai engessar as relações de trabalho”, afirmou. “Eles apenas dizem que não haverá impacto, e pronto. Porém, na própria PEC não existe um estudo sobre impacto previdenciário, nem sobre o aumento da informalidade. O relator não apresentou esses dados.”

Erika Hilton diz não ter estudos sobre impacto econômico da PEC que institui escala 3x4 de trabalho
Falta de estudos na PEC de Erika Hilton expõe proposta que tenta engessar relações de trabalho sem prever impactos econômicos | Foto: Lula Marques/ Agência Brasil

O pequeno negócio no centro da conta

Embora o debate seja vendido como uma disputa entre trabalhador e empresário, os efeitos mais sensíveis tendem a aparecer longe das grandes corporações. São farmácias, pequenos mercados, restaurantes, lojas de bairro, oficinas, salões de beleza, empresas familiares e prestadores de serviço. “Mais de 80% das empresas brasileiras são micro, pequenas e médias, com margens apertadas”, afirmou Pastore. “É o pequeno restaurante, a padaria, o comércio local. São esses que vão sofrer mais.”

A deputada Any Ortiz (PP-RS) alertou que não há como discutir a PEC da Escala 6×1 sem tratar também da atualização do teto do MEI e do Simples Nacional. “Cerca de 50% dos trabalhadores formais do país estão empregados em empresas enquadradas no MEI ou no Simples Nacional”, disse. Any reconhece que o debate sobre mais tempo de descanso é legítimo, mas critica a ausência de compensações claras. “É justo falar em mais tempo de qualidade e convivência familiar”, ressaltou. “O problema é como vamos construir isso e qual será o papel do governo nesse processo, algo que até agora não foi colocado de forma clara.”

Segundo a deputada, o Brasil já tem “um dos contratos de trabalho mais caros do mundo”. “Dependendo da faixa da empresa, ela desembolsa praticamente o dobro daquilo que o trabalhador recebe líquido, e metade desse valor fica com o governo. Sem medidas de mitigação, tudo ficará mais caro e o poder de compra vai diminuir ainda mais, especialmente para os mais pobres.”

A falácia da produtividade

Outro argumento usado pelo governo é que jornadas menores aumentariam a produtividade. A tese parte de experiências internacionais e de estudos sobre bem-estar no trabalho. O problema, segundo o deputado Maurício Marcon (PL-RS), é aplicar a mesma regra a todos os setores da economia brasileira. “Como um frentista vai aumentar a produtividade?”, interpelou Marcon. “Vai abastecer dois carros ao mesmo tempo, usando os dois braços? Não existe isso. Como um atendente de farmácia vai aumentar a produtividade? Atendendo três pessoas ao mesmo tempo? Quando falam em produtividade, o debate é muito superficial. Precisamos aprofundar e entender setor por setor.”

Pastore também defende a redução de jornada apenas depois de se obter ganhos de produtividade, não antes. “A literatura econômica mostra exatamente o contrário do que está sendo proposto aqui: primeiro você aumenta a produtividade, depois reduz a jornada”, disse. “Nós somos favoráveis à redução de jornada, desde que negociada. O problema é impor uma regra uniforme para todos os setores.”

Brasil não é Europa

Defensores da PEC costumam citar experiências europeias para sustentar que a redução da jornada é uma tendência mundial. Entre 1995 e 2007, países como Portugal, Itália, França, Bélgica e Eslovênia reduziram jornadas formais sem corte salarial, segundo levantamento atribuído ao Instituto de Economia do Trabalho da Alemanha. Portugal reduziu de 44 para 40 horas; Itália, de 48 para 40; França, de 39 para 35; Bélgica, de 40 para 38; e Eslovênia, de 42 para 40.

Mas a comparação exige cautela. Portugal reduziu a jornada de 44 para 40 horas nos anos 1990. Estudos sobre o caso apontaram aumento do custo do trabalho por hora e efeitos negativos em empresas afetadas pela imposição legal, enquanto outras, que já haviam reduzido jornada por negociação, tiveram resultados melhores.  

Na Holanda, a semana de quatro dias se tornou mais comum, mas em um contexto muito diferente do brasileiro. Trabalhadores holandeses cumprem, em média, 32 horas semanais, a menor carga da União Europeia. O país também tem renda, produtividade, infraestrutura, formalização e estrutura empresarial muito superiores às do Brasil. 

Notícia publicada no site da BBC (10/3/2026) | Foto: Reprodução/BBC

Ribeiro afirma que a comparação direta com a Europa ignora o básico. “Nós não temos o mesmo nível de desenvolvimento desses países”, disse. “Hoje, uma pessoa em São Paulo leva de uma a duas horas em cada trecho até o trabalho. Ela perde quatro horas por dia no trânsito, não trabalhando.” Para o tributarista, reduzir quatro horas semanais de trabalho sem resolver transporte, segurança, crédito, juros e infraestrutura é atacar apenas a superfície do problema. “Estamos tentando dizer para essa pessoa que ela trabalhará quatro horas a menos por semana, enquanto continua passando quatro horas por dia em um metrô lotado”, afirmou. “O que melhora a qualidade de vida é tecnologia, crédito acessível, redução de juros e infraestrutura, e não apenas trabalhar quatro horas a menos por semana.”

Alemanha faz o caminho inverso

Enquanto o Brasil discute reduzir a jornada por emenda constitucional, a Alemanha passou a debater o movimento oposto: flexibilizar limites diários e organizar a jornada por teto semanal. O chanceler Friedrich Merz disse que os alemães precisam “trabalhar mais e com mais eficiência”, em meio ao debate sobre competitividade, envelhecimento populacional e escassez de mão de obra.

Notícia publicada no site de Oeste (25/3/2026) | Foto: Reprodução/Oeste

O governo alemão avalia substituir o limite diário por um teto semanal, mantendo a referência europeia de 48 horas, mas abrindo margem para jornadas muito concentradas em alguns dias. Estimativas trabalhistas citadas pela imprensa alemã e brasileira falam em cenários extremos acima de 73 horas semanais, dependendo da distribuição das horas e dos intervalos legais. 

O risco de a folga virar bico

A promessa de mais qualidade de vida também esbarra no endividamento das famílias. Para Pastore, parte dos trabalhadores pode usar o dia livre não para descansar, mas para buscar renda extra. “A CNC mostra que cerca de 80% das famílias brasileiras estão endividadas”, afirmou. “Você acha que um trabalhador endividado, ao ganhar um dia a mais de folga, vai ficar em casa descansando? Ou vai procurar um segundo trabalho, um bico, para pagar as contas?”

Foco das críticas

A crítica dos especialistas é de que a PEC pode entregar formalmente mais tempo livre, mas reduzir o poder de compra pela inflação, aumentar a insegurança no emprego e empurrar parte dos trabalhadores para atividades informais.

A discussão sobre jornada de trabalho não é ilegítima. O próprio setor produtivo admite que modelos mais modernos podem ser negociados. A divergência está no caminho: impor por emenda constitucional uma regra uniforme para todo o país ou permitir que setores negociem de acordo com produtividade, margem, tecnologia e realidade regional.

No fim, a PEC põe o Congresso diante de uma escolha política com efeitos econômicos concretos. A promessa populista e eleitoral é simples: trabalhar menos e ganhar o mesmo. A pergunta que fica é: quem vai pagar a diferença?

Leia também “O fator centrão no caso Master”

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1 comentário
  1. Plínio Ivanio Vieira de Almeida
    Plínio Ivanio Vieira de Almeida

    O PT e o governo não desoneram a folha de pgto, não colaboram em nada e só colher os louros desse imbróglio trabalhista.

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