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Joesley Batista na Bolsa de Valores de Nova York | Foto: Reprodução/Redes Sociais
Edição 323

Sempre teremos Brasília

Contar com um aliado no Palácio do Planalto é um trunfo e tanto. Com Lula no trono, o Grupo J&F deu início a uma frenética expansão de suas frentes de negócios

O texto da semana passada trouxe a extraordinária projeção de poder de um brasileiro que pega o telefone, liga para Donald Trump e é atendido em três toques, para o estupor de Lula e seus diplomatas de festim. O texto também expôs o cerco do Departamento de Justiça para enquadrar criminalmente a JBS, dona de 25% do mercado de processamento de carne bovina nos EUA, por formação de cartel. O artigo terminava assim:

“Anabolizado pelo petismo e, em particular, pela sociedade com um caudilho da estirpe de Lula, Joesley Batista ingressou no rol dos oligarcas globais, mas o que hoje é visto como força pode, a depender dos acontecimentos, torná-lo um alvo de players tão grandes quanto ele. No Brasil, país com instituições de papelão, seu caminho parece sólido. Mas os Estados Unidos, em que pese toda a adulação que Joesley oferecer a Trump, não são o Brasil.”

JBS, dona de 25% do mercado de processamento de carne bovina nos EUA | Foto: Shutterstock

Retomemos o assunto a partir daqui. E se o nosso oligarca sofrer sanções antitruste e for obrigado a perder peso no mercado americano? Gaiatos podem pensar que a resposta do Grupo J&F seria “Sempre teremos Brasília”. E é a pura verdade. Diferentemente de ministros do STF, que ironizaram a perda de visto norte-americano murmurando pelos corredores a memorável fala de Humphrey Bogart em Casablanca, “Sempre teremos Paris”, Joesley não é dado a sorrir amarelo, mas a mostrar as presas. E, em Brasília, ele as tem.

Não é preciso repetir o que já foi escrito no artigo anterior sobre a extraordinária ascensão dos Batista sob os governos do PT a partir de 2003. Miremos, portanto, dois períodos recentes. O do governo de Jair Bolsonaro e o do terceiro mandato de Lula, que em breve será submetido ao veredito popular.

Entre 2019 e 2022, Joesley hibernou. Como era de se esperar, ele não encontrou porteira aberta na capatazia de Bolsonaro, mas também não viu estalar sobre suas costas o relho da perseguição. Em primeiro lugar, porque vendetta não é da índole de Bolsonaro. Mas, sobretudo, porque, mesmo durante o mandato do capitão, o relho estava e ainda está nas mãos do Poder Judiciário, que foi extremamente benevolente com o clã.

Em 2020, o Superior Tribunal de Justiça autorizou os irmãos Joesley e Wesley Batista a retomarem seus postos no comando da J&F. Eles tinham sido afastados de seus cargos executivos em 2018 sob a acusação de haverem praticado insider trading — nome bonito para manipulação no mercado de ações e de dólar. A acusação: haviam lucrado (e/ou evitado perdas) ao realizarem operações antes do fatídico “Joesley Day”, como ficou conhecido o tombo que a bolsa de valores sofreu em 17 de maio de 2017, quando veio à tona a delação do próprio Joesley sobre propinas pagas a políticos influentes.

Os irmãos Batista são proprietários da J&F
Wesley e Joesley Batista são proprietários do Grupo J&F | Foto: Divulgação/JBS

Muita gente, naquela ocasião, perdeu dinheiro com a disparada do dólar e o declínio das ações da JBS. Mas Joesley, o homem que incendiou o ambiente político brasileiro ao gravar sorrateiramente o então presidente da República Michel Temer, não perdeu a oportunidade de tirar proveito da informação-chave que não estava disponível para o público: o teor e o timing de sua delação. Vendeu ações da própria companhia antes da eclosão do escândalo.

Foi preso preventivamente, com o irmão. Não ficaram mais do que seis meses na prisão, em parte como prêmio por terem concordado em revelar aos investigadores da Operação Lava Jato os graúdos beneficiários do propinoduto da J&F — Lula, Dilma e, inclusive, o candidato da oposição derrotado em 2014, Aécio Neves. E, em 2020, graças ao STJ, viram-se livres e desimpedidos para tocar a máquina da J&F em ritmo acelerado.

A declaração clássica de acusados — “Confio na Justiça do meu país” — adquire, no caso dos irmãos, um sentido pessoal e intransferível. Eles realmente podem confiar no judiciário brasileiro, como ficaria claro com a subida de Lula ao poder, em 2023. O ministro Dias Toffoli, indicação de Lula para o STF, anulou as confissões em que Joesley contou, com calma e até pachorra, que abriu duas contas no exterior, uma para Lula, de “uns 80 milhão de dólares”, outra para Dilma, de 70.

O acordo de leniência pelo qual a J&F aceitou pagar multa de R$ 10,3 bilhões, como reparação dos atos de corrupção que praticou, foi suspenso pelo STF. Decisão de um único ministro. De novo ele, Dias Toffoli. Festa na J&F. O próprio núcleo familiar do ministro tinha motivos para celebrar. A advogada Roberta Rangel, à época esposa de Toffoli, não assinou a bilionária ação que o marido julgou procedente, mas atuava no escritório jurídico que faturou uma fortuna em honorários, dado o montante envolvido na causa.

Dias Toffoli, em sessão no STF - 04/02/2026 | Foto: Luiz Silveira/STF
Ministro Dias Toffoli | Foto: Luiz Silveira/STF

“Algo ilegal?”, você perguntará. No mundo das supremas cortes sérias, sem dúvida. No Brasil, o STF agiu como o árbitro que não vê pênalti sobre o atacante que entrou na área a dribles e saiu de muletas. É por isso que os Batista, caso tenham de acertar contas com a Justiça norte-americana, poderão se refugiar em um consolo: “Sempre teremos Brasília”.

Foi na época do acordo de leniência, em 2017, que a J&F teve de vender sua participação de 49% na Eldorado Celulose para fazer caixa e pagar a multa bilionária aos cofres públicos. Os indonésios que controlam a holandesa Paper Excellence aceitaram pagar quase R$ 15 bilhões. Mas não contavam com a astúcia de Joesley. Quando os preços da celulose dispararam no mundo, em razão da demanda chinesa, a J&F encontrou subterfúgios contratuais e se recusou a entregar suas ações na Eldorado Celulose.

A Paper Excellence teve vitórias em Cortes internacionais, mas esbarrou em decisões liminares da Justiça brasileira favoráveis à J&F. Uma destas decisões teve autoria do desembargador Rogério Favreto e foi tomada em 2023. Parênteses: Favreto, vale lembrar, foi filiado ao PT por 20 anos e integrou o primeiro governo de Lula, em 2006. Foi ele quem chacoalhou um tranquilo domingo dos brasileiros em 2018 ao tentar soltar Lula, que cumpria prisão em Curitiba, concedendo um habeas corpus solicitado, naquele fim de semana, por três petistas — Paulo Pimenta, Paulo Teixeira e Wadih Damous.  A jogada ensaiada do petismo exigiu mobilização do TRF-4 para cassar o habeas corpus de Favreto.

Em 2017, a J&F teve de vender sua participação de 49% na Eldorado Celulose para fazer caixa e pagar multa bilionária aos cofres públicos | Foto: Divulgação/Eldorado Brasil

A história terminou no ano passado com a Corte de Paris dando vitória ao oligarca brasileiro, que soube encaixar seus interesses em uma partitura de defesa da “soberania”, esperteza retórica para dar o braço a Lula e convencer a Corte arbitral  de que a jurisdição definitiva para o caso era … o Brasil, e não uma corte neutra, como queria a Paper Excellence. Os indonésios desistiram do litígio e cederam, desfazendo a compra da Eldorado. Imagino que tenham lido nos olhos do nosso Humphrey, Joesley Batista: “Não insistam, porque… nós sempre teremos Brasília”.

“Brasília”, no caso, não é só o Judiciário, apesar de toda a hegemonia das Cortes. Contar com um aliado no Palácio do Planalto é um trunfo que Joesley Batista explorou como ninguém a partir de 2023. Com Lula no trono, o grupo J&F deu início a uma frenética expansão de suas frentes de negócios.

Aproveitando a maré política favorável, estabeleceu-se com voracidade na área de energia. A controlada Âmbar foi às compras e, do nada, tornou-se, nestes três anos e meio, uma das maiores geradoras privadas do país. Estão sob controle dos Batista, hoje, 13 termelétricas que eram da Eletrobras. Uma delas, a Amazonas Energia, teve sua dívida de R$ 14 bilhões transferida para a conta de luz dos brasileiros, decisão que o governo Lula tomou depois da aquisição da usina pela Âmbar.

Outro pedaço importante que a Âmbar mordeu na Eletrobras é a participação de 35% que a ex-estatal detinha no capital votante da Eletronuclear. Agora, as usinas nucleares de Angra têm os irmãos Batista como acionistas relevantes. 

Comendo o mingau pelas bordas, Joesley colocou para dentro da Âmbar uma série de usinas termo e hidrelétricas que pertenciam à Cemig, em Minas; à Copel, no Paraná; à belga Engie, em Santa Catarina, entre outras aquisições em Roraima e no Acre.

Tem mais, bem mais. No final do governo Bolsonaro, o grupo comprou da Vale minas de ferro de alto teor e manganês. E, de oportunidade em oportunidade, como descrito no artigo anterior, tornou-se, hoje, um conglomerado onipresente na vida dos brasileiros, com atuação inclusive em áreas que escapam ao raio de visão do público, como a indústria bélica. Por um valor não divulgado, a J&F integrou um fundo de investidores que injetou R$ 300 milhões na Avibras, que se situa entre as duas maiores empresas brasileiras do setor de defesa.

Fabricante de sistemas de artilharia, inclusive foguetes e mísseis, a Avibras ingressou em recuperação judicial, despertando o interesse de players estrangeiros. Com apoio das Forças Armadas, um grupo se constituiu para manter o controle no Brasil. E, novamente, Joesley, o oligarca brasileiro, garantiu seu lugar na mesa de decisões da companhia. O valor que aportou e o peso que adquiriu no capital da Avibras não são conhecidos.

Empresas da J&F | Foto: Reprodução/jfsa

Pragmático, focado no trabalho — rotina desde seus 12 anos —, Joesley Batista não tem tempo nem paciência para divagações que não conduzam ao que lhe interessa: resultado. Conversa de esquerda e direita não é com ele, ao menos na seara do debate público. Assunto de soberania é lero-lero, se não se traduzir em cifras e poder. Discussões sobre temas empoeirados, como “reformas” de que o Brasil precisa, ficam para seu irmão, Wesley, que tem a missão de cuidar da eficiência das operações do grupo. Se Joesley articula febrilmente novos negócios, Wesley coloca a bola no chão e faz a máquina funcionar.

Grande parte dos brasileiros incomodados com a extraordinária influência de Joesley e sua força aparentemente inexpugnável se pergunta se há algo que possa, em um horizonte visível, contê-lo.

Uma derrota de Lula na eleição presidencial sem dúvida não interessa a ele. Mas o pior cenário, para seu grupo e muitos outros, talvez seja a eleição de um Senado com capacidade de escrutinar e punir, com impeachment, ministros das Cortes Superiores de Justiça que parecem ver, no cedilha de “Constituição”, um $.

Como o Judiciário brasileiro controla um elemento fundamental desta equação, decidindo quem pode ser eleito e quem não pode, e decidindo também que eleitos podem governar ou legislar e que eleitos devem ser cassados, Joesley pode seguir confiante como o personagem de Disparada, clássico memorável na voz de Jair Rodrigues:

“Boiadeiro muito tempo, laço firme e braço forte,/ Muita gente, muito gado, pela vida segurei.”

Na mesma canção, composta para tempos de ditadura, de farda ou de toga, o personagem diz que o mundo foi rodando nas patas do seu cavalo — “E já que um dia montei, agora sou cavaleiro. Laço firme e braço forte num reino que não tem rei”.

Num reino, diria eu, que não tem lei.

Leia também “A volta dos Irmãos Petralha”

6 comentários
  1. Lourival Nascimento
    Lourival Nascimento

    É IMPRESIONANTE A DESFAÇATEZ DA IMPRENSA ESTATIZADA PARA ENCOBRIR FALCATRUAS, DESARRANJOS E DELINQUÊNCIAS DO LULA 3. NÃO POR ACASO, OS ASSINANTES DE JORNALÕES, JORNALINHOS E “INFLUENCIADORES” DERAM NO PÉ, FUGIRAM, MIGRARAM EM BUSCA DA VERDADE, UMA VERDADE QUE O ESTADÃO DESPREZA, e O LEVA AO CABRESTO DA FARIA LIMA.
    No ESTADÃO, com 142 MILHÕES de motivos da FARIA LIMA, a praxe é esconder malfeitorias do LULA 3 e seus sequazes, mesmo os fatos lhes desmascarando. A senhora Catanhêde acha que somos néscios, mas nós conhecemos muito bem a senhora Catanhêde. “Congresso COMPRA VOTOS e decide em causa própria, descaradamente, em ano eleitoral.” Dona Catanhêde, a senhora vive em Nárnia, ou é só seu desapreço pela VERDADE e os FATOS que embota seu olhar enviesado bem à extrema esquerda? “Pacote de bondades de Lula soma R$ 403,2 bi em ANO ELEITORAL, outra forma de COMPRAR VOTOS. Medidas incluem ações voltadas à população mais pobre e à facilitação do acesso da classe média ao crédito.” Que mancada, senhora Catanhêde… “O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) preparou um pacote de medidas que já soma ao menos R$ 403,2 BILHÕES em gastos com programas sociais em 2026 –ano em que tentará a reeleição. O petista se concentra nessas medidas para MELHORAR A POPULARIDADE.” Quando a senhora escrevinha que PL, PT e Centrão fazem o mesmo cálculo: ‘vale o que que é bom para mim, os meus e o meu partido e não para o País, a senhora, integrante da EXTREMA IMPRENSA e EXTREMA ESQUERDA, se esquece que as pessoas pensam, embora a senhora seja paga para tentar emburrecê-las. A senhora teria um tiquinho, só um tiquinho de honestidade moral e profissional para mostrar os valores das três siglas? Claro que a senhora não tem honestidade, respeito aos assinantes, independência e tutano para tanto, mas seu ranço desmascara vosmecê, Dona Catanhêde. “O fato é que PL, PT e Centrão fazem o mesmo cálculo: vale o que que é bom para mim, os meus e o meu partido, não para o País, no campo e nas cidades. Os prefeitos são peça-chave nesse jogo que atinge algo essencial na democracia: a igualdade de condições nas eleições.” Como igualdade, Dona Catanhêde, em um país tão desigual, especialmente depois das ELEIÇÕES municipais de 2024 quando a PT levou uma coça homérica? A base dos votos é nos municípios, onde em 2024 a DIREITA elegeu 2.673 PREFEITOS/PREFEITAS, o CENTRO 2.144 e o PT 752. Então, Dona Catanhêde, a Senhora acha que haveria igualdade com tamanha diferença? Em que mundo a Senhora vive, Dona Catanhêde, que nem TALES DE MILETO entenderia a conta imaginária da igualdade que a senhora propõe? Como, Dona Catanhêde, 752 Municípios representariam mais recursos que 4.817 Municípios, e o trabalho do presidente é considerado “RUIM” ou “PÉSSIMO” para (61%) dos eleitores. A alta é de 17 pontos ante o registrado na última pesquisa (44%), feita em janeiro de 2026.” NEM 403 BILHÕES DE REAIS melhoram o cenário do LULA, mas a Senhora ignora os FATOS e a VERDADE, a mando e soldo da FARIA LIMA. As pessoas só dão o que têm, Dona Catanhêde, especialmente honestidade moral e profissional.

  2. João Luiz Bosso
    João Luiz Bosso

    A JBS (J&F como controladora) está-se tornando como a Gaesa de Cuba, criticada por Marco Rubio, da qual depende tudo.
    Perigo iminente. Se não tirarmos os desonestos (por excelência) do poder, podemos nos transformar numa Ilha, só que de corrupção.

    1. daise a.scopiato
      daise a.scopiato

      Fato incontestável! Já são teis de um reino que só tem lei para favorecer a dupla de açougueiros!!!!

    2. Eugênio Esber
      Eugênio Esber

      Citaste uma referência perturbadoramente real, Bosso.

    3. Eugênio Esber
      Eugênio Esber

      Nem mesmo uma monarquia pode prescindir de leis, e lei é o que já não temos, de fato, Daise.

    4. Lourival Nascimento
      Lourival Nascimento

      O Brasil já um oceano de CORRUPÇÃO, pois aqui o CRIME não só compensa, como é um GRANDE negócio. Vide campeões nacionais e seus filhotes.

Romeu Zema, ex-governador de Minas Gerais e pré-candidato a Presidência da República nas eleições de 2026 (13/4/2026) | Foto: Aloisio Mauricio/Fotoarena/Estadão Conteúdo Anterior:
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