publicidade
Foto: Montagem Revista Oeste/IA
Edição 323

O fator centrão no caso Master

O avanço das investigações do caso expõe conexões entre Daniel Vorcaro, líderes do PP e União Brasil, BRB e o poder político de Brasília

O que começou como uma investigação sobre fraudes financeiras bilionárias rapidamente se transformou em algo muito maior, sacudindo os pilares da República. O escândalo do Banco Master resultou em uma disputa silenciosa pela sobrevivência política e institucional de grupos que orbitam o poder em Brasília. Aos poucos, nomes de peso do centrão surgiram nas apurações, em relatórios da Polícia Federal, em trocas de mensagens apreendidas no celular de Daniel Vorcaro e em negociações envolvendo o BRB, banco estatal controlado pelo Governo do Distrito Federal.

Nos bastidores da capital federal, o clima já não é de surpresa. É de apreensão. Parlamentares e deputados distritais ouvidos por Oeste afirmam que a percepção dentro do Congresso e da própria Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF) é de que a tentativa de aquisição do Master pelo BRB representava mais do que uma simples operação financeira. A análise é de que havia uma corrida para impedir o colapso de uma engrenagem que ameaçava atingir figuras do espectro político do centrão.

A crise ganhou nova dimensão depois do avanço da Operação Compliance Zero, da Polícia Federal (PF), autorizada pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF). A operação atingiu diretamente o senador Ciro Nogueira (PP-PI), um dos principais líderes do centrão, aliado histórico de Davi Alcolumbre (União-AP) e uma figura central da articulação política em Brasília. A partir dali, o caso deixou de ser “apenas” um escândalo bancário. Passou a ameaçar o núcleo político que dá sustentação ao centrão no Congresso e no Distrito Federal.

Ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF) | Foto: Gustavo Moreno/STF

O eixo Ciro Nogueira

Entre todos os personagens que emergiram das investigações, nenhum nome produziu tanto impacto político quanto o de Ciro Nogueira, que é ex-ministro da Casa Civil de Jair Bolsonaro e presidente nacional do Partido Progressistas (PP). Ciro aparece nas investigações como um dos políticos mais próximos de Vorcaro. Em mensagens datadas de 2024 e obtidas pela PF no celular do banqueiro, Vorcaro chegou a se referir ao senador como “um dos meus grandes amigos de vida”.

A PF informou que o senador teria atuado em favor de interesses ligados ao Master no Congresso Nacional. Entre os elementos investigados estão emendas parlamentares, viagens, uso de imóveis, pagamentos recorrentes e benefícios indiretos ligados ao empresário. Em uma das mensagens apreendidas, Vorcaro comemora o avanço de uma proposta legislativa que beneficiaria bancos médios e reduziria o poder das grandes instituições financeiras. “Saiu exatamente como mandei”, escreveu o banqueiro ao encaminhar o texto de uma emenda ao entorno de Ciro.

A proximidade entre ambos já era conhecida em Brasília. O próprio senador admitiu frequentar festas, jantares e eventos financiados pelo empresário. À revista Veja, afirmou: “Daniel é meu amigo, como sou de todos os grandes empresários do Brasil”. Mas, para além das relações pessoais, o nome de Ciro aparece em um ponto considerado central por políticos do Distrito Federal: o BRB. Fontes ouvidas por Oeste afirmam que o PP sempre teve grande interesse político no controle de espaços estratégicos em Brasília. Inclusive, o presidente do PP teria indicado Paulo Henrique Costa para a presidência do BRB, o que foi visto dentro do meio político como parte desse processo de influência.

A avaliação de interlocutores do Congresso é de que o BRB deixou de ser apenas um banco regional e passou a funcionar como peça estratégica de poder político, econômico e institucional. É nesse contexto que surge outra peça sensível do tabuleiro: a governadora Celina Leão (PP). Embora não tenha sido citada na investigação do caso Master, fontes afirmam que Celina seria uma afilhada política de Ciro.

Senador Ciro Nogueira (PP-PI), um dos principais líderes do centrão | Foto: Lula Marques/Agência Brasil

A relação de Antonio Rueda

Outro nome que passou a provocar desconforto nos bastidores foi o do presidente do União Brasil, Antonio Rueda. Inicialmente, Rueda afirmou manter apenas relações sociais eventuais com Daniel Vorcaro. Dias depois, porém, admitiu que seu escritório de advocacia prestou serviços ao Banco Master. Segundo a revista Piauí, o dirigente afirmou ter participado de “dezenas de pareceres e centenas de reuniões” ligadas ao banco.

O nome de Rueda voltou ao centro do caso depois de revelações de mensagens entre Paulo Henrique Costa e Daniel Vorcaro mencionando reuniões e interlocuções que envolviam o presidente do União Brasil. Além disso, documentos apontam que uma empresa ligada ao banqueiro chegou a reservar um helicóptero para transportar Rueda e Ciro depois de um evento da Fórmula 1 em São Paulo.

Presidente do União Brasil, Antonio Rueda | Foto: União Brasil/ Kalina Maurer

Nos bastidores políticos, o envolvimento do presidente do União Brasil não surpreendeu integrantes da própria legenda: “Todo mundo sabia que havia relação, incluindo a do próprio Ciro Nogueira”. “O choque seria descobrir que não existiam essas relações”, afirmou uma das fontes a Oeste. As conexões entre o Master e figuras do União Brasil também aparecem em movimentações financeiras reveladas pela CPI do Crime Organizado. Relatórios da Receita Federal apontaram pagamentos milionários a escritórios e empresas relacionadas a Antonio Rueda e ACM Neto, ambos ligados ao partido.

A tensão aumentou a partir de uma reportagem da jornalista Malu Gaspar, a qual revelou um negócio considerado “de pai para filho” envolvendo a venda de participação da BRB Financeira a um grupo empresarial próximo do entorno de Rueda. Segundo a apuração, o Banco Central identificou problemas na comprovação da origem dos recursos utilizados na operação e passou a tratar o negócio como potencial risco para o sistema financeiro.

Motta entra no radar

O escândalo também começou a atingir o núcleo da Câmara dos Deputados. Durante sessão da Comissão de Assuntos Econômicos do Senado, o senador Renan Calheiros (MDB-AL) acusou o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), de apresentar uma emenda que beneficiaria interesses ligados ao Banco Master. Calheiros ainda afirmou que a cunhada do parlamentar teria recebido um empréstimo de R$ 140 milhões do banco — valor que, segundo ele, nunca teria sido pago ou cobrado.

A assessoria de Motta negou irregularidades e afirmou que a emenda fazia parte de um “acordo partidário”: “A proposta foi aprovada pelas duas Casas do Legislativo e sancionada pelo presidente da República”. Sobre o suposto empréstimo, a assessoria negou qualquer participação de Motta na operação. “O presidente não é responsável nem responde por empréstimo feito por empresa na qual não possui qualquer relação societária”, informou.

Motta jornalistas
O presidente da Câmara, deputado Hugo Motta I Foto: Mário Agra/Câmara dos Deputados

A pressão em Brasília

No Distrito Federal, o caso ganha contornos mais delicados. Deputados distritais ouvidos pela reportagem afirmam que a tramitação do projeto que autorizou o BRB a adquirir participação no Banco Master ocorreu sob intensa pressão política do Governo do Distrito Federal. Segundo esses relatos, havia forte resistência dentro da Câmara Legislativa. Parlamentares contestavam tanto a competência da Casa para autorizar a operação quanto os riscos financeiros envolvidos.

Segundo interlocutores, muitos parlamentares resistiam à proposta enviada pelo então governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB). O ambiente mudou repentinamente depois de a pressão do Palácio do Buriti aumentar. “Havia um discurso de que o banco precisava ser salvo ou quebraria”, relatou uma das fontes. “Mas em meio à resistência, de repente, tudo mudou e o projeto que autorizava a compra do Master pelo BRB foi aprovado.” O clima piorou quando deputados descobriram que o BRB já vinha adquirindo silenciosamente ativos e títulos ligados ao Master que chegariam à casa dos R$ 30 bilhões.

Uma das fontes ouvidas relatou que a convicção dentro da CLDF era de que a operação já estava em andamento “por baixo dos panos” e que o projeto legislativo serviria para dar cobertura institucional ao processo: “Os deputados se sentiram traídos”. Nos bastidores, parlamentares avaliam que o BRB teria sido usado como instrumento para absorver parte da crise do Master antes que a situação explodisse publicamente e viesse à tona o possível envolvimento de grandes figuras do centrão. Diante da crise acerca da instituição privada, o Banco Central não autorizou que o BRB comprasse o Master. Porém, como a estatal já havia adquirido bilhões em ativos, acabou com um rombo e o pé na falência.

A posição de Ibaneis

O ex-governador Ibaneis Rocha também aparece como uma das figuras mais sensíveis do caso. Foi durante sua gestão que Paulo Henrique Costa assumiu a presidência do BRB e liderou a expansão nacional do banco estatal. Também foi sob seu governo que ocorreu a tentativa de compra do Master. Agora, a possibilidade de delação de Paulo Henrique Costa elevou o grau de tensão política no Distrito Federal. Nos bastidores, a análise é de que o ex-presidente do BRB pode mencionar tanto Ibaneis Rocha quanto Celina Leão no acordo de colaboração premiada com a PF.

A expectativa é de que Paulo Henrique possa explicar:

  • As negociações envolvendo o Master;
  • A pressão política sobre o BRB;
  • As interlocuções no GDF;
  • E a dinâmica institucional da operação.

Nos bastidores, a avaliação é de que a delação de Costa pode provocar efeito dominó no caso Master. Fontes ouvidas por Oeste afirmam que, diante do avanço das negociações do ex-presidente do BRB com a PF, Vorcaro tende a acelerar e aprofundar sua própria colaboração com as autoridades para não perder espaço em uma eventual disputa por benefícios judiciais. A percepção entre interlocutores do caso é de que o ministro André Mendonça não estaria disposto a homologar delações que entreguem apenas operadores pequenos. Há expectativa de que nomes de maior peso político entrem definitivamente no radar das investigações.

O avanço das delações, a guerra silenciosa entre grupos políticos, a tensão no Congresso e a pressão sobre o núcleo do Governo do Distrito Federal revelam que o Banco Master talvez tenha funcionado não apenas como uma engrenagem financeira, mas como ponto de encontro entre dinheiro, influência política e sobrevivência institucional.

Leia também “‘Eduardo Cunha: Lula é favorito a perder'”

Leia mais sobre:

1 comentário
  1. Erasmo Silvestre da Silva
    Erasmo Silvestre da Silva

    Voto de papel e eleições iguais a da França. Estelionato eleitoral como bolsa de tudo proibido e perpétua pru centrão e pru centrinho. E trazer umas três xerox de Naiby Bukele pra cá

Anterior:
A semente baiana: o elevador, o cartão e a conta que o Brasil vai pagar
Próximo:
Perguntas incômodas
publicidade