A má ciência tem grandes consequências em todas as áreas, principalmente na educação. Infelizmente, o aparato científico do regime governamental, que está cada vez mais fundido ao poder estatal, é dependente de verbas públicas e treinado (pela lógica da burocracia) para priorizar status, coordenação e controle narrativo em detrimento da busca aberta pela verdade.
Em 1º de maio, de forma bem discreta, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), órgão principal das Nações Unidas responsável por avaliar a ciência relacionada às mudanças climáticas, retirou formalmente os cenários de altíssima emissão — especificamente o RCP8.5 e seu sucessor, o SSP5-8.5 — da nova estrutura de modelagem, classificando-os como “implausíveis”.
Pense nisso por um momento: “implausível” é uma palavra evasiva para “impossível”. É a palavra que os próprios cientistas estão usando agora para descrever o cenário que dominou dois ciclos completos de avaliação do IPCC, gerou dezenas de milhares de artigos de pesquisa e forneceu a matéria-prima para centenas de milhares de reportagens que disseram ao público — e a seus filhos — que o mundo como o conhecemos estava chegando ao fim.

As evidências psicológicas dos danos resultantes disso são agora substanciais. Isso porque esse cenário foi utilizado em salas de aula, principalmente no Brasil.
Uma pesquisa global histórica, publicada na revista Lancet Planetary Health em 2021, que abrangeu 10 mil jovens de 16 a 25 anos em dez países, constatou que 59% estavam muito ou extremamente preocupados com as mudanças climáticas, e mais de 45% afirmaram que seus sentimentos em relação às mudanças climáticas afetavam negativamente seu cotidiano e seu funcionamento. Três quartos disseram acreditar que o futuro é assustador. Mais da metade relatou sentir-se frequentemente triste, ansiosa, irritada, impotente, desamparada ou culpada em relação às mudanças climáticas.
Isso explica o surgimento dessas lideranças como Greta Thunberg. Infelizmente, esse tipo de ativismo desenfreado é semelhante ao papel de jovens fanáticos religiosos durante a “cruzada infantil” do século 13 ou, mais recentemente, os Guardas Vermelhos, que Mao mobilizou para silenciar seus críticos.

Na realidade, Greta é um produto de uma sociedade rica e secular em geral. Sim, ela vive na era mais saudável, rica, segura e pacífica que os seres humanos já conheceram. Ela é uma das pessoas mais privilegiadas que já viveram.
Mas nada disso basta; o importante é esse fanatismo ambiental inconsequente. Eu não tenho dúvidas: a mudança climática, com esses exageros acima enunciados, tornou-se uma religião.
Uma pesquisa australiana independente com crianças de 10 a 14 anos revelou que 44% delas se preocupavam com o impacto futuro das mudanças climáticas e que uma em cada quatro crianças temia que o mundo acabasse antes de elas crescerem. Uma em cada quatro. São crianças do ensino fundamental carregando um medo existencial em suas mochilas.
Uma outra pesquisa, realizada no leste de Londres, revelou que aproximadamente metade das crianças em idade escolar primária estava preocupada com o aquecimento global. Uma reportagem da CBS News de 2024 citou um professor de psicologia da Universidade de Suffolk que descreveu como crianças que sofrem de ansiedade climática frequentemente percebem que não têm futuro ou que a humanidade está simplesmente condenada. Os jovens estão cada vez mais relatando aos pesquisadores que acreditam que suas vidas serão piores do que as de seus pais; não por causa das condições econômicas, mas por causa do planeta que acreditam ter herdado.

É preciso agora dar um basta nisso. No Brasil, a Unesco imprimiu um material em português destinado ao seu curso sobre Educação em Mudança Climática e Desenvolvimento Sustentável (EMCDS) para professores do ensino fundamental II e do ensino médio.
O material da análise das tendências climáticas no Brasil considerou tanto as mudanças já observadas nas últimas quatro décadas (1980-2018) como projeções de clima futuro, a partir de níveis de aquecimento médio global de 1,5 ºC, 2 ºC e 4 ºC (SWL1,5, SWL2 e SWL4), tendo-se verificado que os sinais de mudanças, de forma geral, se intensificam com o SWL e os cenários de emissões mais pessimistas (RCP8.5).
Ou seja, ensinamos o pior cenário, esse “implausível”, aos nossos estudantes. Ensinamos que “a maioria das regiões brasileiras experimentará um aumento de pelo menos 4 °C nas temperaturas médias”.
A tabela abaixo, material distribuído fartamente no Brasil, mostra o estrago na mente das nossas crianças. Toda a faixa vermelha foi retirada, pois ela que levaria a esse cenário implausível:

Afinal, nossas escolas ensinaram aos nossos estudantes aquilo que poderíamos chamar de “ecoansiedade”. É real, é mensurável e vinha se instalando silenciosamente em nossas crianças há anos, enquanto os adultos debatiam as políticas climáticas. E uma parcela muito significativa disso foi semeada não pelo registro climático observado, mas por projeções derivadas de um cenário que a comunidade científica agora declarou oficialmente como implausível.
Esse material escolar que publicou projeções sem que lhe fosse exigida a divulgação de que estava modelando um cenário extremo implausível precisa examinar seus critérios. Os professores que transformaram esses estudos em manchetes alarmistas sem explicar a base do cenário precisam reconhecer seu papel.
E os dirigentes que incorporaram projeções derivadas do RCP 8.5 nos currículos escolares como se fossem previsões, em vez de exercícios de modelagem do pior cenário, devem algo às crianças nessas salas de aula — no mínimo, uma correção.
Pelo bem de nossas crianças!
Antonio Cabrera é veterinário com pós-graduação em produção animal e presidente do Grupo Cabrera, que atua no agronegócio. Foi ministro da Agricultura e Reforma Agrária no governo Fernando Collor e ex-secretário da Agricultura e Abastecimento do Estado de SP durante a gestão Mário Covas. Atualmente, é titular da Sociedade Nacional de Agricultura e membro de várias entidades nacionais e internacionais, além de cônsul honorário da Espanha. Ele está no LinkedIn: Antonio Cabrera
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MUITOS PSEUDO CIENTISTAS FICARÃO ÓRFAOS DE SEUS DOGMAS
Muito bom!