No fim de 2019, o mundo começou a ouvir falar de um novo vírus que havia surgido num mercado de frutos do mar em Wuhan, cidade de 13 milhões de habitantes localizada na região central da China. Seus sintomas, diziam, eram semelhantes aos de uma pneumonia severa. O que parecia distante foi se aproximando numa velocidade assustadora: Tailândia, Japão, Coreia do Sul, Estados Unidos, França, Itália. Um mês depois do primeiro caso, cerca de 25 países já tinham registrado infecções.
No Brasil, a covid-19 (ainda chamada de “novo coronavírus”) desembarcou oficialmente em 26 de fevereiro de 2020, um dia depois do fim do Carnaval, realizado em todo o país sem uma única restrição. O paciente nº 1 era um homem de 61 anos, morador da capital paulista, recém-chegado da Itália (depois do diagnóstico, ele permaneceu em isolamento domiciliar e se recuperou).
Num primeiro momento, diversos profissionais de saúde foram a público minimizar os efeitos do novo vírus. Entre eles, o cardiologista Roberto Kalil e o infectologista Davi Uip (que se desculparam em seguida). Em poucas semanas, contudo, os mortos se multiplicaram — principalmente na Europa — e, em 11 de março de 2020, com a doença espalhada por quase todos os continentes, a Organização Mundial de Saúde (OMS) declarou pandemia.
Pouco mais de 10 dias depois, João Doria, então governador de São Paulo, decretou quarentena e fechou o Estado mais rico e populoso do país. Para tentar conter o avanço do vírus, serviços considerados “não essenciais” foram suspensos por duas semanas. Isso incluía lojas, bares, restaurantes, cinemas, academias, shoppings, salões de beleza e escolas.
O que começou como uma medida que deveria durar 15 dias se estendeu por quase dois anos. Principalmente no início, a falta de conhecimento sobre a nova doença foi proporcional ao medo coletivo. Essa combinação abriu espaço para medidas restritivas inéditas, cerceamento de liberdades e episódios de arbitrariedade extrema.
As pessoas foram proibidas de sair às ruas. Festas, mesmo dentro de casa, e até encontros familiares eram denunciados por vizinhos. Muita gente não conseguiu sequer velar os próprios mortos. Enterros eram realizados em poucos minutos, enquanto corpos deixavam de ser colocados em caixões para serem envolvidos em sacos plásticos pretos. Também não se podia contestar a obrigatoriedade do uso da máscara ou a eficácia dos chamados lockdowns. A tese de que o vírus havia vazado de um laboratório em Wuhan — hipótese que mais tarde deixou de ser tratada como teoria conspiratória — gerava acusações de fake news e podia levar ao banimento nas redes sociais. A ciência, que sempre evoluiu por meio de perguntas, dúvidas e investigações, passou a ser tratada como uma verdade absoluta.

A transmissão do medo
Diferentes veículos de comunicação se uniram no que chamaram de “consórcio” — uma parceria inédita, criada em junho de 2020, da qual participaram UOL, Folha de S.Paulo, G1, O Globo, Extra e Estadão. Na teoria, a iniciativa surgiu para “garantir transparência e evitar um ‘apagão de dados’” depois que o governo federal passou a alterar o horário de divulgação dos boletins epidemiológicos. Na prática, a cobertura da pandemia tornou-se cada vez mais homogênea. Informações que divergiam do entendimento predominante eram classificadas como falsas pelas “agências de checagem” — muitas delas ligadas aos próprios grupos de mídia.
A máxima jornalística “bad news is good news” (“notícia ruim é boa notícia”) atingiu o ápice. Em 14 de maio de 2020, quando o Brasil bateu 13.993 mortes por covid-19, o Jornal Nacional passou a exibir no painel atrás dos apresentadores um contador de óbitos e imagens das vítimas. A cada 5 mil mortos, o telejornal encerrava a edição sem o tradicional “boa noite”. Restava na tela apenas o silêncio e o semblante grave de William Bonner e Renata Vasconcellos. Quando o país superou as 500 mil mortes, os dois vestiram roupas pretas em sinal de luto.

Um crime contra a educação
Oeste sempre procurou alertar para a gravidade da doença sem aderir ao clima de pânico permanente que dominava a cobertura jornalística. Ficou claro relativamente cedo, por exemplo, que o coronavírus era muito mais letal em idosos e pessoas com comorbidades. Em janeiro de 2021, as crianças representaram cerca de 2% dos casos confirmados e menos de 1% das mortes. Estudos posteriores também indicaram que crianças pequenas tinham participação menor na transmissão do vírus e, na maior parte dos casos, apresentavam sintomas leves ou eram assintomáticas.

Apesar disso, as escolas permaneceram fechadas no país por 53 semanas. Globalmente, a média foi pouco superior a 20 semanas. Isso significa que quase 50 milhões de estudantes ficaram longe das salas de aula, especialmente os matriculados na rede pública. Como denunciou Oeste em diversas reportagens, cerca de 25% desses alunos não tinham acesso à internet. Uma pesquisa do Ibope realizada em agosto de 2020 revelou que, em domicílios com renda per capita de até meio salário mínimo, um quarto dos estudantes sequer recebeu ensino remoto. Naquele ano, aproximadamente 4 milhões de jovens abandonaram os estudos.
Em 2021, em entrevista à Folha, a professora Rizomar Maria de Menezes foi categórica: “Nenhuma criança do primeiro ano conseguiu se alfabetizar”. Alexandre Schneider, ex-secretário municipal de Educação de São Paulo, completou o cenário desolador: “Muitas vão andar para trás e, para recuperar, levarão dois, três anos”. Na época, governos e especialistas prometeram programas robustos de reforço escolar para compensar as perdas. Até agora, quase nada aconteceu. “Se pudesse voltar no tempo, jamais teria fechado as escolas”, afirmou na época Rossieli Soares, então secretário de Educação de São Paulo. “Muita fake news foi espalhada, inclusive por parte da imprensa. Nunca houve, por exemplo, grande contaminação entre crianças e adolescentes, mas inúmeras notícias sobre isso foram divulgadas.”
Um estudo realizado pela fundação suíça Insights for Education com dados de 191 países concluiu que quase todas as nações que estavam sem aulas presenciais na primeira onda da pandemia eram países pobres e que teriam um prejuízo incalculável. Além do déficit escolar, a interrupção das aulas comprometeu a saúde psiquiátrica de crianças e adolescentes, a segurança alimentar e os tornou mais expostos a abusos, maus-tratos, drogas e violência.

Verdades e mentiras
A propagação do medo parecia o principal objetivo de boa parte da imprensa. Isso explica a ênfase que muitos veículos davam ao número total de mortos. No Brasil, oficialmente, a covid-19 causou cerca de 700 mil mortes, o que deixa o país em segundo lugar no ranking, atrás apenas dos Estados Unidos. Essa comparação, contudo, não é a mais adequada, uma vez que o país também abriga uma das maiores populações do planeta. Quando se leva em consideração o número de mortos por 100 mil habitantes, o Brasil cai para a 21ª posição, semelhante a Chile, Bélgica, Portugal e Suécia.

Outra informação importante é o excesso de mortes por país, uma vez que em diversos lugares houve subnotificação. O governo russo, por exemplo, afirmou que morreram menos de 400 mil pessoas de covid-19. Mas o excedente de óbitos naquele país durante a pandemia chegou a 1,3 milhão.

Embora o Brasil não tenha terminado a pandemia entre os países com maior mortalidade proporcional por covid-19, jornais, revistas e setores da oposição passaram a acusar Jair Bolsonaro de genocídio ainda nos primeiros meses da crise sanitária. As críticas se intensificaram com a chegada das vacinas. Além de declarar publicamente que não pretendia se vacinar, Bolsonaro foi acusado de retardar negociações para a compra de imunizantes — tema que se tornou central na campanha eleitoral de 2022 e multiplicou a polarização política no país. Parte dos analistas políticos atribui a derrota do então presidente à condução do debate sobre vacinação durante a pandemia.
A vacinação no Brasil começou em 17 de janeiro de 2021, pouco mais de um mês depois da primeira aplicação realizada no Reino Unido. Um ano depois, 77% da população brasileira já estava completamente vacinada. A marca colocou o país na 7ª posição no ranking mundial de imunização, à frente até mesmo dos britânicos.

Críticas ou qualquer tipo de ponderação sobre as vacinas eram imediatamente taxadas de negacionismo. O tema entrou para a lista dos assuntos inquestionáveis. Nos anos seguintes, vacinas como AstraZeneca e Janssen deixaram de ser utilizadas em diversos países, enquanto discussões sobre efeitos colaterais passaram a ocorrer de forma mais aberta e menos polarizada.
Assuntos permitidos
Hoje também já se pode colocar em dúvida a eficácia de medidas como o uso das máscaras de proteção, do distanciamento social e do lockdown. No início da pandemia, ainda sem saber como lidar com o vírus, o lockdown foi implementado com o argumento de que era preciso “achatar a curva” de contágio e evitar que várias pessoas ficassem doentes ao mesmo tempo, colapsando os hospitais. A justificativa dos governantes era de que precisavam de tempo para equipar o sistema de saúde a fim de atender à nova demanda. “O problema é que o lockdown deveria ter acontecido por um período de tempo curto, para que o sistema de saúde aumentasse sua oferta de leitos de UTI e capacidade de atendimento”, observou na época o neurocirurgião Paulo Porto de Melo.
Num artigo publicado na revista inglesa Spiked, Fraser Myers mostrou que pesquisadores da Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos, e da Universidade Lund, na Suécia, examinaram mais de 20 mil estudos sobre a eficácia de diversas restrições ligadas à covid-19. Eles calcularam que o número de vidas salvas pelo primeiro lockdown nacional do Reino Unido foi de apenas 1,7 mil — muito menor do que o número de vidas que seriam perdidas em uma típica temporada de gripe. Isso os levou a concluir que os benefícios do lockdown foram “apenas uma gota em um balde se comparados aos espantosos efeitos colaterais”. Períodos prolongados de isolamento social foram associados, por exemplo, ao aumento de ansiedade e crises de pânico, crescimento dos quadros de depressão, piora de transtornos psiquiátricos já existentes e maior consumo de álcool e drogas. Entre idosos, ele também foi ligado a piora cognitiva e aceleração de quadros de demência. Como afirmou um dos pesquisadores: “Muito provavelmente, o lockdown representa o maior erro de política pública dos tempos modernos”.

Economia em colapso
Mas os efeitos da pandemia não se limitaram à saúde pública. Segundo o IBGE, cerca de 520 mil empresas fecharam as portas apenas no primeiro semestre de 2020. Entre março e junho daquele ano, período marcado pelas restrições mais severas à atividade econômica, o saldo entre vagas formais abertas e fechadas foi negativo em 1,6 milhão de empregos. Dos que mantiveram seus empregos, os mais atingidos foram justamente os trabalhadores que jamais puderam aderir ao isolamento: frentistas, entregadores, diaristas, caixas de supermercado, motoristas de ônibus.

Esses brasileiros não deixaram em nenhum momento de se deslocar por duas horas em ônibus, trens e metrôs superlotados para atender a uma elite que pôde permanecer confinada em casas com quintal, apartamentos com varanda gourmet ou casas na praia. Todos desfrutando de seu confinamento vip — como dizia o jornalista Guilherme Fiuza —, munidos de supercomputadores movidos a internet 4G e pedindo comida em restaurantes com três estrelas Michelin.
A maior prova de que o confinamento da sociedade foi uma medida ineficaz é a comparação entre o excesso de mortes na Suécia e na Finlândia. Na primeira, onde a população não sofreu qualquer tipo de restrição, esse número não chegou a 250 por 100 mil habitantes. Na segunda, que decretou lockdown, fechou serviços não essenciais e determinou o uso de máscaras, foram mais de 360 mortes em excesso por 100 mil habitantes.

Epidemia de corrupção
Outras epidemias que assolaram o Brasil na mesma época foram a de corrupção e a de desperdício de dinheiro público. Em maio de 2020, só o Ministério da Saúde havia assinado 43 contratos sem licitação — 42 na gestão de Luiz Henrique Mandetta —, que totalizaram R$ 2,75 bilhões. A cifra não inclui o que foi gasto por estados e municípios.
Em Araraquara, no interior de São Paulo, o então prefeito Edinho Silva (PT) firmou contrato de R$ 4 milhões para comprar 25 respiradores. Os aparelhos seriam fornecidos pela R.Y. Top Brasil Ltda., empresa sem know-how no assunto. No Rio de Janeiro, mil respiradores custaram R$ 183 milhões — ou R$ 183 mil por unidade. Em São Paulo, cada um dos 3 mil aparelhos vindos da China engoliu R$ 180 mil. No Amazonas, o governo pagou R$ 3 milhões a uma loja de vinhos por 28 respiradores (R$ 107 mil a unidade) considerados “inadequados” pelo Conselho Nacional de Medicina. O preço de mercado dessas máquinas oscilava entre R$ 58 mil e R$ 75 mil.
Outros gargalos foram os hospitais de campanha. No Rio de Janeiro, o Instituto de Atenção Básica e Avançada à Saúde (Iabas) firmou R$ 835 milhões em contratos com o Estado para construir e gerenciar essas estruturas. Tanto as obras quanto os serviços não foram cumpridos em sua plenitude. Em São Paulo, mais de R$ 130 milhões foram gastos na construção de estabelecimentos para o combate à covid-19. O Hospital de Campanha do Anhembi, por exemplo, que teve um investimento inicial de cerca de R$ 7,5 milhões para montagem da estrutura, não resistiu à primeira chuva forte.
Oficialmente, a pandemia no Brasil acabou em 22 de abril de 2022, com o encerramento da Emergência em Saúde Pública de Importância Nacional. Mas muitos de seus efeitos continuam visíveis. Embora o governo Bolsonaro tenha conseguido preservar a economia brasileira em condições relativamente melhores do que as de muitos países ricos, centenas de bares, restaurantes e lojas jamais reabriram. E milhões de estudantes jamais conseguirão recuperar o conhecimento perdido.
Resta torcer para que o mundo tenha aprendido alguma lição. Em 2020, diante do medo e da incerteza, optou-se por paralisar a sociedade. Caso algo semelhante volte a acontecer, será preciso buscar respostas sem abandonar a dignidade humana, as liberdades individuais e os princípios básicos do Estado de Direito.
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Foi tudo um estupidez. Não acreditei em nada desde o início , não aceitei tomaressas pocaris de experimentos genéticos e fiquei chocada em ver como as pessoas aderem facilmente a absurdos como esse de uar mascara e retirar para comer. Parecem irracionais. Pior que diziam que o novo normal tornaria a humanidade melh. Outra nalel que não comprei. A humanidade está repleta de jovens usando remedios controlados e pessoas que desenvolveram doenças autoimunes
E a esquerdalha gostou tanto que já planeja tem uma pandemia por ano. O “ANTAvírus” já começou a turnê.
Cadê o Kennedy num ganhou na suprema corte americana para a China e os laboratórios da nova ordem mundial e ninguém tem notícia se as famílias das vítimas receberam as indenizações
Trabalho muito bem feito pelos jornalistas. Mas duas parcelas deste grande assunto não foram tratados:
1 – existiu mesmo o recebimento pelos médicos de um valor quando diagnosticassem covid para a morte da pessoa??????
2 – é verídica a informação de que a Anvisa (((((YPE))))) autorizou as vacinas sem a responsabilização das farmacêuticas produtoras. No mundo já houve pagamentos de mais de 10 bi de dólares por mortes diagnosticadas como resultados destas vacinas, em diversos países. Parabéns pelo trabalho feito.
Parabéns pelo trabalho da pesquisa.
Mesmo sabendo que “Inês (já) é morta”, vale a pena guardar como registro da fraudemia.
Muito bem Branca. Matéria explicativa. NO entanto, faço uma anotação para vc pensar: não foi possível, por exemplo, conseguir 50 milhões de de vacinas em 60 oi 90 dias. Não chegaram vacinas tudo na mesma semana oiu no mesmo mês. Assim, a estatística deve considerar esta variável, ou seja, a disponibilidade da vacina com o número de casos ou de mortes. Quantas mortes houve em cada chegada de 10, 20 ou 50 mil vacinas? Foi neste jogo que o PT e a Globo jobou o probleja para cima do Bolsonaro, como se tudo aconteceu por falta de vainas nos primeiros 60 dias de pandemia. Isto no Brasl. A análise será a mesma em relação a outros países.
Excelente artigo a pandemia passada a limpo.Sofri aqui na cidade de São Paulo muito mais que o necessário, Doria impos terror a população. Vi em meu bairro comércio pequeno sendo fechado e lacrado, muitos não conseguiram reabrir,faliram.
O fechamento das escolas por tanto tempo não foi apenas um enorme prejuízo na vida de milhares de jovens, mas também escancarou a hipocrisia de muitos políticos. Em Belo Horizonte, crianças eram impedidas de frequentar as aulas, enquanto estádios de futebol já estavam liberados.