No final de 2015, quando era presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha notabilizou-se por encaminhar o pedido de impeachment da presidente Dilma Rousseff. No ano seguinte, teve seu mandato cassado, ficou inelegível por oito anos e foi preso no âmbito da Operação Lava Jato. Condenado a mais de 15 anos de cadeia por corrupção passiva, lavagem de dinheiro e evasão de divisas, cumpriu pouco mais de três anos, passou ao regime domiciliar e posteriormente teve a condenação anulada pelo STF. Segundo o entendimento da Segunda Turma da Corte, a 13ª Vara Federal de Curitiba não tinha competência para julgar o caso, pois os crimes narrados teriam conexão com infrações eleitorais, o que exigia que o processo tramitasse na Justiça Eleitoral.
Cunha (Republicanos-MG) está de volta ao cenário político e pretende brigar por uma vaga na Câmara. Em entrevista a Oeste, afirma que o impeachment de Dilma marcou o início da consolidação da direita no país e diz não ter arrependimentos de sua atuação no episódio.
Entre as prioridades na tentativa de reconstruir seu capital político, destaca pautas ligadas à defesa da vida e da família e propostas para ampliar a arrecadação de Estados e municípios por meio da mineração, inspiradas no modelo dos royalties do petróleo. Também critica o que considera um desequilíbrio entre os Poderes e relativiza o papel das CPIs, que, segundo afirma, dependem de consenso político para produzir resultados.
Apesar do retorno à corrida eleitoral, Cunha descarta, por ora, disputar o comando da Câmara, pois entende que precisa reconstruir sua carreira política gradualmente.
Depois de uma década fora do Legislativo, o senhor vai disputar uma vaga na Câmara dos Deputados. Como vê essa tentativa de volta e quais serão suas principais bandeiras?
Estou recomeçando. Vou continuar o que já fazia. Minhas bandeiras não mudam. Sempre atuei na defesa da vida e da família. Fui um dos introdutores da Frente Evangélica. Tenho várias propostas que têm continuidade, em defesa da vida e da família, sou um grande combatente contra o aborto. Então, o meu perfil já é conhecido. Inclusive, a Proposta de Emenda Constitucional que está tramitando na Casa, que estabelece a vida desde a concepção, é a minha principal bandeira. Além disso, vou acrescentar a defesa do Estado que representarei, que é Minas Gerais. Quero trazer para a mineração um modelo semelhante ao dos royalties do petróleo do Rio de Janeiro, para aumentar a arrecadação de Estados e municípios. Hoje, muitos municípios não sobrevivem sem emendas, vivem praticamente em situação de miséria. É preciso criar novas fontes de receita.
O senhor se arrepende de ter aberto o processo de impeachment de Dilma?
Arrependo-me de ter demorado para abrir. A direita só começou a ter força depois que eu fiz o impeachment. Se eu não tivesse feito, não teria existido o Bolsonaro presidente, nem muitos que hoje aparecem como combatentes do PT. O verdadeiro combatente fui eu. Eu produzi um resultado concreto. Muitos falam, mas não fizeram nada de fato. Então, não me arrependo. E faria de novo, quantas vezes fossem necessárias, nas mesmas circunstâncias.

Há algo que o senhor faria diferente na sua gestão?
Não tenho arrependimento de nada do que fiz. Agi dentro da correção, respeitando a Constituição e o regimento da Casa. Ninguém era mais regimentalista do que eu. Tenho certeza de que fiz tudo com absoluta correção. Não tenho do que me arrepender.
O senhor acredita que deixou um grande legado?
Não existe ato mais grave que um deputado federal possa praticar do que abrir um impeachment. É uma decisão difícil, com impactos grandes. A tendência é sempre evitar esse tipo de decisão. Quando se toma, é porque é inevitável. Tinha fundamento legal, tanto que foi confirmado pelo Senado, e o Supremo acompanhou todo o processo. Eu consegui conduzir com liberdade, respeitando a Constituição e as leis. Então, não há ato maior que esse. O próprio ato já é o legado. Você pode apagar muita coisa da história, mas não pode apagar que eu fiz o impeachment da presidente da República. O caso do Collor foi diferente, já estava definido antes. No caso da Dilma, foi uma guerra. Uma luta real, com enfrentamento político. Então, não há legado maior que esse. O ato, por si só, já é um legado.
O senhor considera que atualmente o Congresso está mais submetido ao STF?
O que acontece com o Supremo é uma interferência entre Poderes — não há dúvida disso. Há um exagero na interferência, mas também há um outro lado: essa interferência não se dá de ofício, ela ocorre porque alguém provoca. Geralmente, quem provoca são aqueles que perdem. Os partidos de esquerda são os mais frequentes em buscar, através do Supremo, mudanças naquilo que eles não tiveram votos para obter no Congresso. Então, o que nós temos aqui é que, quando o Supremo toma uma decisão, é porque alguém provocou. É claro que houve uso excessivo das medidas implementadas em função dessas provocações, e isso precisa ser contido de uma forma ou de outra. Vai ter que haver um freio de arrumação em algum momento. Mas a provocação é sempre feita por um ente político que busca no Judiciário uma forma de rever uma decisão que não conseguiu aprovar no Congresso. E aí surgem as ADIs, as ADPFs, as reclamações, que acabam dando origem a muitas situações e, em alguns casos, a abusos.

Há um desequilíbrio entre os Poderes no Brasil?
Sim. Acho que não tem uma harmonia entre os Poderes. Hoje, temos um Executivo usando o Judiciário para se contrapor ao Legislativo. Há momentos em que o próprio Legislativo, ou melhor, parte dele, utiliza o Judiciário para se contrapor ao Legislativo. Então, há a utilização de um Poder pelos outros dois, seja na sua integralidade, no caso do Executivo, seja por parte dele, no caso do Legislativo. E o Judiciário acaba sendo o caminho para que cada um obtenha o seu ganho político, ou de qualquer natureza, no processo, em detrimento de outro Poder. Portanto, é claro que não há equilíbrio. Isso precisaria ser rediscutido para evitar a interferência entre eles. Os papéis estão se sobrepondo.
As CPIs ainda funcionam como instrumento de investigação no Congresso?
A CPI sempre foi um instrumento de minoria para investigar. Mas muitas vezes acaba se transformando em palanque político. Não acho que esteja sendo esvaziada. O que acontece é que a maioria do momento se organiza para se defender. Isso sempre existiu. Relatório de CPI só sai quando há consenso — e, na prática, a disputa política muitas vezes impede esse resultado. No caso recente, houve politização, o que prejudicou a conclusão e até a prorrogação dos trabalhos. Mas isso não é novidade. Já ocorreu em outras CPIs. Por outro lado, o trabalho da CPI serve para encaminhar informações ao Ministério Público, que já está atuando. Hoje, inclusive, as investigações estão mais avançadas fora da CPI. E, em ano eleitoral, isso se agrava. A CPI vira disputa política e dificilmente produz resultado, embora ainda deva ser feita. As CPIs devem, sim, ser feitas, mas o ambiente eleitoral transforma uma comissão em uma guerra política, o que compromete o resultado final.
Lula chega politicamente forte ou desgastado em 2026?
Essa eleição vai ser igual à de 2022. É uma eleição de rejeição. O candidato tem de errar menos para ganhar. A eleição está muito polarizada, e essa polarização é baseada na rejeição. O governo já está desgastado, está no piso. Não deve cair muito mais, mas também é difícil recuperar.

Pesquisas mostram Flávio Bolsonaro competitivo contra Lula. O senhor acredita que ele tem viabilidade nacional?
Lula é favorito a perder, mas isso não quer dizer que perdeu. Assim como o Bolsonaro era favorito a perder em 2022, porque tinha alta rejeição, e quase ganhou. A eleição será decidida por quem errar menos. O Flávio sobe na medida em que a rejeição do outro aumenta, e cai se a rejeição diminuir.
O senhor é pastor e político. Como vê a relação entre política e igrejas hoje?
Evangélico que é evangélico não vota no Lula. Não existe isso. Quem diz que vota não é evangélico de verdade. A rejeição é total. Isso já existe, não precisa esperar. Quem está dentro da igreja votando no Lula está, no mínimo, se desviando. Desculpe. Nas igrejas, podem ter pessoas apoiando Ronaldo Caiado, Flávio ou outros. Mas todos estarão no campo de oposição. Isso não vai mudar. A rejeição de Lula só não é 100% porque nem todos que estão na igreja são evangélicos de fato.
Como o senhor analisa o cenário político atual?
A gente vive um processo de polarização muito acentuado, e que vai continuar. Hoje existe uma direita com identidade, o que não havia antes do impeachment. Foi a partir dali que começou a ganhar forma. Mas essa direita está se dividindo internamente, disputando o comando do campo. Essa disputa prejudica, porque aumenta a rejeição e permite que a esquerda se aproveite.
A direita deveria se unir em torno de um único nome?
Não necessariamente. Isso depende do cenário até o fim da eleição. Uma coisa é não se unir, outra é se atacar. Hoje há muita gente que diz estar no mesmo campo, mas atua para gerar divisão, por outros interesses. Quem quer derrotar o PT deveria estar focado nisso. Mas não é o que se vê. As disputas internas são maiores que o objetivo de derrotar o PT. E isso pode fazer com que o PT saia vencedor.

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Esse cunha é um ladrão e devia tá na cade , ele e uma corja que tá solta
É uma “raposa velha” da política. Pelos crimes que cometeu ainda deveria estar preso. No entanto, sua análise política é bastante arguta e, na minha opinião, está correta.
Um crápula muito inteligente e articulado.
Que humildade: eu fiz o impeachment. Muito cristão esse senhor…
Nunca fui fã desse politico mas tenho que reconhecer que sem falar em corrupção , o que declarou é a mais pura verdade!! Falou e disse! Não deixa de ser canhoto mas…