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Edição 320

A Agrishow das preocupações

O campo brasileiro, que sustenta quase 30% do PIB nacional e alimenta meio mundo, atravessa uma das crises financeiras mais sérias de sua história recente

A colheitadeira reluzente parece uma nave espacial. Com quase cinco metros de altura — a dimensão de uma casa de dois andares —, mostra-se imponente no estande da Case New Holland, uma das maiores fabricantes de maquinário agrícola do mundo. No estande, do tamanho de um campo de futebol, os sorrisos de quem trabalha para vender, mas com olhos que não conseguem esconder a angústia. “Esse será um ano difícil, mas não vamos desistir”, foi o desabafo de um dos diretores da marca, durante coletiva de imprensa na Agrishow, a maior feira de tecnologia agrícola da América Latina. “Vamos continuar oferecendo os melhores produtos possíveis ao mercado e aguardando tempos melhores”, concluiu, após mostrar números impiedosos: queda de mais de 50% nas vendas desde 2023.

O campo brasileiro, que sustenta quase 30% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional e alimenta meio mundo, atravessa uma das crises financeiras mais sérias de sua história recente. E a Agrishow de 2026, mais do que uma vitrine de inovação, tornou-se um termômetro cruel dessa realidade.

O produtor que chegou a Ribeirão Preto nesta edição não é o mesmo que chegava em 2021 ou 2022, quando os preços das commodities explodiram e o campo parecia nadar em dinheiro. Aquele era o agricultor que comprava tratores como quem compra meias, que renovava a frota inteira antes que as colheitadeiras envelhecessem. Esse que chegou agora é um homem endividado, de fluxo de caixa estrangulado, que olha para as máquinas novas com a mistura de desejo e desespero de quem sabe que não pode pagar a conta. E se pode, não sabe a que juros.

“As vendas serão menores. E provavelmente teremos menos visitantes esse ano”, declarou João Marchesan, CEO da Agrishow. O momento do setor é adverso. Os produtores rurais sofrem com margens de lucro mais apertadas, alta dos custos, explosão nos preços dos combustíveis, insumos e fertilizantes por causa de fatores externos, como conflitos no Oriente Médio. E uma queda dos preços de algumas commodities, que coloca os agricultores em uma situação complicada, apesar da produção recorde de grãos.

Evento da Agrishow em Ribeirão Preto | Foto: Divulgação/ Agrishow

Números que assustam

A inadimplência no crédito rural atingiu 7,3% em janeiro de 2026 — o maior índice desde o início da série histórica do Banco Central, iniciada em 2011. “Mas se calcular as dívidas de curto prazo, essa porcentagem chega a dobrar”, disse em entrevista a Oeste o presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de São Paulo (Faesp), Tirso Meirelles.

O saldo total de crédito rural para pessoas físicas no sistema financeiro chegou a R$ 567 bilhões, dos quais mais de R$ 40 bilhões estão inadimplentes. Nas operações com taxas de mercado, a inadimplência disparou para 13,5%, contra apenas 4,3% no mesmo período de 2025. Para efeito de comparação, a média histórica dos 13 anos anteriores era de apenas 1,8%.

É uma crise de proporções que a palavra “crise” mal alcança. Estimativas indicam que quase metade dos produtores possui dívidas junto a bancos, financeiras ou cooperativas, com débitos que giram em torno de R$ 890 bilhões, podendo ultrapassar a marca de R$ 1 trilhão nos próximos anos. Quando o endividamento de um setor se aproxima de tal montante, já não se trata mais de dificuldade conjuntural. Trata-se de uma ferida estrutural que, se não for tratada, infecta toda a cadeia — da revenda de insumos à cerealista, da transportadora ao banco.

Cerca de 20 mil clientes do Banco do Brasil ligados ao agronegócio estão inadimplentes há mais de 90 dias, sendo que 74% deles nunca haviam atrasado pagamentos antes de 2023. Esse dado merece ser lido com calma. Três em cada quatro produtores hoje inadimplentes jamais tinham deixado de pagar antes do atual governo. São agricultores que passaram décadas honrando compromissos, que atravessaram seca, geada, pragas e recessão sem dar calote, e que agora simplesmente não conseguem fechar a conta. Algo mudou. E não foi a praga, a seca ou a geada.

O que mudou foi a matemática. Com a Selic em 15% ao ano, o maior patamar em quase 20 anos, e juros de mercado para o agro ultrapassando 20% ao ano, a conta simplesmente não fecha. “Com juros desse tamanho, é impossível ter um retorno da produção. Por isso que os produtores rurais, que precisam fazer um planejamento financeiro muito detalhado antes de comprar um maquinário, estão mais cautelosos”, explica Meirelles.

Os políticos que passaram pela Agrishow não tiveram dúvidas e chamaram os juros de “extorsivos”. Criticando o governo Lula por forçar o Banco Central a manter taxas tão elevadas para tentar conter a inflação provocada pela farra dos gastos públicos.

Financiamentos públicos minguaram

O Executivo gosta de se gabar dos valores nominais do Plano Safra, porque os números brutos são maiores do que os de seu antecessor. No Plano Safra 2024/2025, Lula destinou R$ 476 bilhões ao setor, somando os recursos para grandes produtores e agricultura familiar, o maior montante já registrado na história do programa, ou R$ 135 bilhões a mais do que o disponibilizado por Bolsonaro em seu último Plano Safra. O problema é que o volume de crédito, por si só, não diz nada sobre as condições em que esse crédito é oferecido. Um empréstimo a 3% ao ano e um empréstimo a 12,5% ao ano são criaturas completamente diferentes, mesmo que o valor nominal seja o mesmo.

“O setor precisaria de pelo menos R$ 1,3 trilhão, quase o triplo do que é disponibilizado pelo governo. Atualmente, cerca de 70% do financiamento do setor vem de bancos privados ou das letras de crédito rural, que o governo tentou taxar, mas que o congresso segurou. O estrangulamento do produtor nesse processo é muito grande”, explica Meirelles.

Durante o governo de Jair Bolsonaro, a taxa mínima do Moderfrota, programa federal para compra de tratores e colheitadeiras, chegou a 2,8% ao ano em 2020-2021, e o percentual cobrado ficou sempre em, no máximo, 3%. No governo Lula, os juros do Moderfrota são de 10,5% para produtores enquadrados no Pronamp e de 11,5% para os demais. Ou seja: o crédito para comprar máquinas ficou entre três e quatro vezes mais caro do que era no governo anterior.

Anunciar recordes nominais do Plano Safra enquanto os juros são de 11,5% ao ano para compra de colheitadeiras é o equivalente a dizer que um banco nunca emprestou tanto, sem mencionar que a taxa era de usura. O Finame, linha do BNDES para financiamento de máquinas e equipamentos, segue o mesmo caminho, encolhido em termos reais e com condições que tornam a renovação de frota inacessível para o médio produtor. “O financiamento em reais está bem complicado. Linhas do Moderfrota e do Pronaf já se esgotaram”, disse o o CEO do Banco John Deere durante uma coletiva de imprensa na Agrishow.

John Deere
John Deere | Foto: Divulgação/John Deere

O resultado aparece nas vendas de máquinas com uma clareza que dispensa retórica. Só em 2025, as vendas de colheitadeiras no mercado interno tiveram uma queda de 22%, desempenho atribuído à contração nas margens das principais culturas e à restrição de crédito em meio à alta inadimplência e juros elevados. Considerando também as vendas de tratores, o mercado de máquinas agrícolas encolheu 3,6% em 2025, o quarto ano consecutivo de retração.

Em 2022, o setor vendeu mais de 70 mil unidades entre tratores e colheitadeiras, o pico histórico. Em 2024, o pior desempenho de vendas veio das colheitadeiras de grãos, cuja comercialização tombou 54,2% em comparação a 2023, fechando o ano com apenas 3,3 mil máquinas vendidas. Metade das colheitadeiras em quatro anos. E agora, em 2026, o setor registrou queda de 16,6% nas vendas de máquinas no primeiro trimestre em comparação ao mesmo período de 2025, quando o setor havia registrado 10.875 máquinas.

“Estamos vivendo um momento de alta nas taxas de juros, alta do diesel, insumos, em função do que o mundo está vivendo. Isso afeta negativamente os negócios, não só do agro, mas também de outros segmentos”, explica Paolo Torres, vice-presidente da divisão de equipamentos de construção da Komatsu, gigante japonesa do setor de maquinário.

Edifício-sede do BNDES, no centro do Rio | Foto: Shutterstock

Agricultor comprando menos

A amarga realidade da Agrishow 2026 é essa: um mercado que não compra. Ou que compra muito menos, recorre a seminovos, prefere consórcios, ou opta por aluguel de curto prazo. Soluções paliativas que revelam a extensão do aperto.

Ao contrário do médio e do pequeno produtor, o grande consegue chegar à Agrishow em uma situação diferenciada, com acesso comercial a máquinas semelhante ao de grandes grupos empresariais. O problema é que a Agrishow sempre foi, também, o palco do médio produtor. Aquele que vem de Goiás ou do Paraná de ônibus fretado, que caminha os cinco dias de feira comparando preços e taxas, que negocia com o vendedor até a exaustão porque aquele trator vai ter de durar dez anos. Esse produtor chegou mais cauteloso. Chegou para ver, mais do que para comprar. Fora dos pavilhões iluminados, o campo está sangrando. Mas o Brasil ainda não percebeu.

O agronegócio encerrou 2025 com 1.990 pedidos de recuperação judicial, o maior número da série histórica e uma alta de 56,4% em relação a 2024. Desde 2021, esse número aumentou impressionantes 1.181,6%. Hoje, o agro é o que mais registra recuperações judiciais de todos os setores da economia brasileira. Não há como qualificar isso como uma crise passageira ou um ajuste de ciclo. Trata-se de uma hemorragia que só aumenta.

No Rio Grande do Sul (RS), a crise assumiu uma dimensão que ultrapassa os balanços financeiros. O RS perdeu mais de R$ 320 bilhões no agro desde 2020, com cinco secas extremas sucessivas e uma enchente devastadora. Com dívidas impagáveis, contratos com juros que ultrapassam 25% ao ano e instituições financeiras se apropriando de terras e produção, a crise tornou-se humanitária.

O número de agricultores gaúchos que tiraram a própria vida chegou a 36 em aproximadamente um ano, motivados principalmente pelo alto volume de dívidas. Conforme a Federação dos Agricultores do Rio Grande do Sul, 65 mil dos aproximadamente 360 mil produtores rurais do Estado têm dívidas, com um passivo acumulado de quase R$ 75 bilhões em títulos vencidos há mais de 90 dias.

A taxa de suicídio entre trabalhadores rurais no Brasil chega a 20,5 por 100 mil habitantes, quase o dobro da média nacional. Esse dado não aparece nos discursos ministeriais sobre os recordes do Plano Safra. Não aparece nos releases das feiras de agronegócio. Mas está lá, no campo, onde homens que dedicaram a vida a fazer o Brasil comer simplesmente não aguentam mais.

O governo Lula olha para esse campo em chamas e vê, antes de tudo, uma questão eleitoral. O agronegócio nunca foi eleitoralmente amigável ao PT, e a relação entre o Planalto e o setor produtivo rural tem a temperatura de uma renegociação de dívida. Necessária, mas azeda. Não por acaso, durante seu terceiro mandato, Lula nunca deu as caras na Agrishow. Este ano, despachou o vice-presidente Geraldo Alckmin, que anunciou uma linha de crédito para o agronegócio. Não agradou ninguém. “O Alckmin discursou no dia do anúncio. Fez promessas vagas, sem valores, prazos ou taxas de juros”, explicou Meirelles.

A Frente Parlamentar da Agropecuária apresentou proposta de Plano Safra para o ciclo de 2025-2026 com valor de R$ 599 bilhões, um aumento de 25,7% em relação ao que o governo federal anunciou, e pediu um aumento do Programa de Seguro Rural de R$ 1 bilhão para R$ 6 bilhões. O governo entregou menos do que a bancada rural pediu, mais uma vez, e o seguro rural continua sendo o parente pobre de um sistema de crédito que financia abundantemente, mas cobre insuficientemente.

O vice-presidente da República, Geraldo Alckmin | Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
O vice-presidente da República, Geraldo Alckmin | Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

A Agrishow 2026 acontece com o campo pedindo socorro e o governo em modo eleitoral. As máquinas continuam bonitas, as demonstrações continuam espetaculares, os lançamentos continuam chegando. Mas o produtor que olha para a colheitadeira nova sabe que ela vai custar, financiada, bem mais do que custava quatro anos atrás. Sabe que as linhas subsidiadas se esgotam antes que todos possam acessá-las. Sabe que, se a safra frustrar por qualquer razão — seca, enchente, preço de commodity, câmbio —, a dívida vai crescer a uma velocidade que a produção não acompanha.

A 31ª edição foi a Agrishow das preocupações. A maior feira agrícola da América Latina, num dos países mais produtivos da Terra, realizada num campo que sangra em silêncio, enquanto Brasília contabiliza recordes nominais e aguarda outubro.

Leia também “O governo Lula tenta maquiar o valor dos combustíveis, mas tarifaço virá”

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1 comentário
  1. gilson roberto cardoso de oliveira
    gilson roberto cardoso de oliveira

    Irônico como o partido que diz combater a fome faz de tudo pra prejudicar quem produz comida.

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