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Sala de cinema do Palácio da Alvorada | Foto: Montagem Revista Oeste/Shutterstock/Palácio do Alvorada
Edição 318

Cinema palaciano

O roteiro era assim: você entrava no palácio, se ajoelhava perante o mandatário, beijava-lhe a mão e saía com alguns milhões no bolso

— Parabéns pelo filme!

— Gostou?

— Não vi.

— Não viu o meu filme?!

— Não.

Foto: Shutterstock

— Por quê?

— Era pra ver?

— Claro! Você acha que filme serve pra quê?

— Ah, pra muitas coisas…

— Bom, se você não viu o filme, tá me dando parabéns por quê?

— Pela sua atuação.

— Como é que você elogia a minha atuação sem ter visto o filme?

— Estou elogiando a sua atuação fora do filme.

— Não tô entendendo.

— Também não entendi nada. Mas achei incrível.

— Pode ser um pouco mais claro?

— Adorei aquela parte que você entra no palácio. Achei arrojado.

— Você tá maluco.

— Eu? Não, nunca entrei no palácio dessa maneira. Isso sim é coisa de doido.

— Não sei do que você está falando.

— Não sabe? Então, será que era um dublê? Mas o pagamento foi pra você, né? Ou foi pra ele?

— Que pagamento?

— Ué? Me disseram que o roteiro era assim: você entrava no palácio, se ajoelhava perante o mandatário, beijava-lhe a mão e saía com alguns milhões no bolso.

— Você não tem noção do que seja arte.

— Não. Mas gosto de ver gente como você fazendo arte. Pintando o 7.

— Que papo é esse de pintar o 7?

— Desculpe. Você prefere pintar o 13, né?

Foto: Shutterstock

— Você tá misturando arte com matemática. Não faz o menor sentido.

— Não mesmo. Mas a somatória final fez sentido pra você, não fez?

— Me recuso a entrar nessa conversa calculista.

— Não seja modesto. Você é bom de cálculo.

— Como você sabe?

— Sei de ouvir falar.

— Isso é lenda.

— Falar em lenda, aqueles escândalos palacianos aconteceram mesmo?

— Não falo de política.

— Jura?

— Por que a surpresa?

— Achei que você só falasse de política.

— Impressão sua. Meu negócio é cultura.

— E bota cultura nisso.

— Alguma objeção?

— Nenhuma. Cada um cultua o que acha melhor pra si.

— Isso foi um trocadilho?

— Não. Uma constatação.

— E o que você acha que eu estou cultuando pra mim?

— Uma imagem corajosa.

— Obrigado.

— Tem que ter muita coragem pra sair sorrindo daquele palácio.

— São seus olhos.

— Meus olhos e meu bolso.

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4 comentários
  1. Erasmo Silvestre da Silva
    Erasmo Silvestre da Silva

    Fiuza com esse bate papo reto é melhor do que todos os programas “Outra Coisa”.Nunca vi coisa tão sem graça

  2. Adauto Levi Cardoso
    Adauto Levi Cardoso

    Filme Horrível com atuação idem ….. mas fazer o que ?? quem tem um mínimo de decência nesse país e que paga a conta dessas farra poderia ao menos opinar se quer patrocinar essas porcarias

  3. Lauro Patzer
    Lauro Patzer

    Uma analogia sobre o filme que foi considerado o pior na Inglaterra e que nem beliscou no Oscar. Aqui serviu apenas para a militância a dança de girino numa poça de água de verão. Parabéns, Fiuza. Em tempos de censura é preciso saber driblar os algoritmos jagunços do sistema.

    1. Marcos Marcioni
      Marcos Marcioni

      Também não vi, certamente é como os outros que não vi.

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