— Parabéns pelo filme!
— Gostou?
— Não vi.
— Não viu o meu filme?!
— Não.

— Por quê?
— Era pra ver?
— Claro! Você acha que filme serve pra quê?
— Ah, pra muitas coisas…
— Bom, se você não viu o filme, tá me dando parabéns por quê?
— Pela sua atuação.
— Como é que você elogia a minha atuação sem ter visto o filme?
— Estou elogiando a sua atuação fora do filme.
— Não tô entendendo.
— Também não entendi nada. Mas achei incrível.
— Pode ser um pouco mais claro?
— Adorei aquela parte que você entra no palácio. Achei arrojado.
— Você tá maluco.
— Eu? Não, nunca entrei no palácio dessa maneira. Isso sim é coisa de doido.
— Não sei do que você está falando.
— Não sabe? Então, será que era um dublê? Mas o pagamento foi pra você, né? Ou foi pra ele?
— Que pagamento?
— Ué? Me disseram que o roteiro era assim: você entrava no palácio, se ajoelhava perante o mandatário, beijava-lhe a mão e saía com alguns milhões no bolso.
— Você não tem noção do que seja arte.
— Não. Mas gosto de ver gente como você fazendo arte. Pintando o 7.
— Que papo é esse de pintar o 7?
— Desculpe. Você prefere pintar o 13, né?

— Você tá misturando arte com matemática. Não faz o menor sentido.
— Não mesmo. Mas a somatória final fez sentido pra você, não fez?
— Me recuso a entrar nessa conversa calculista.
— Não seja modesto. Você é bom de cálculo.
— Como você sabe?
— Sei de ouvir falar.
— Isso é lenda.
— Falar em lenda, aqueles escândalos palacianos aconteceram mesmo?
— Não falo de política.
— Jura?
— Por que a surpresa?
— Achei que você só falasse de política.
— Impressão sua. Meu negócio é cultura.
— E bota cultura nisso.
— Alguma objeção?
— Nenhuma. Cada um cultua o que acha melhor pra si.
— Isso foi um trocadilho?
— Não. Uma constatação.
— E o que você acha que eu estou cultuando pra mim?
— Uma imagem corajosa.
— Obrigado.
— Tem que ter muita coragem pra sair sorrindo daquele palácio.
— São seus olhos.
— Meus olhos e meu bolso.
Leia também “Contra a falta de promiscuidade”
Fiuza com esse bate papo reto é melhor do que todos os programas “Outra Coisa”.Nunca vi coisa tão sem graça
Filme Horrível com atuação idem ….. mas fazer o que ?? quem tem um mínimo de decência nesse país e que paga a conta dessas farra poderia ao menos opinar se quer patrocinar essas porcarias
Uma analogia sobre o filme que foi considerado o pior na Inglaterra e que nem beliscou no Oscar. Aqui serviu apenas para a militância a dança de girino numa poça de água de verão. Parabéns, Fiuza. Em tempos de censura é preciso saber driblar os algoritmos jagunços do sistema.
Também não vi, certamente é como os outros que não vi.