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O cartaz discriminatório fixado na porta de um estabelecimento na Lapa gera autuação pesada e escancara a intolerância travestida de ativismo político | Foto: Reprodução
Edição 317

Racismo declarado

Manifestações consideradas antissemitas no Rio ligam sinal de alerta

Berlim, década de 1920. A Alemanha vivia sob a República de Weimar, regime democrático instalado depois do fim da Primeira Guerra Mundial e da queda da monarquia. Ainda que o Tratado de Versalhes tivesse imposto condições draconianas à derrotada Alemanha, e que o país sofresse com desemprego e hiperinflação, sua capital era cosmopolita e vibrante, com intensa vida noturna e grande efervescência cultural. O círculo artístico e intelectual incluía personagens como a atriz Marlene Dietrich, o físico judeu Albert Einstein, o dramaturgo Bertolt Brecht e Walter Gropius, fundador da escola de design e arquitetura Bauhaus. Respirava-se diversidade, criatividade e, sobretudo, liberdade. Essa atmosfera estava prestes a mudar drasticamente. No início de 1933, Adolf Hitler chegou ao poder. Judeus — e outras “minorias” consideradas indesejáveis — passaram a ser perseguidos, despojados de tudo que tinham, confinados em guetos e, por fim, mortos em campos de extermínio durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Nos primeiros sinais do que estava por vir, placas em bares, restaurantes, lojas e mercados informavam que judeus não eram bem-vindos. Depois, os estabelecimentos pertencentes a judeus passaram a ser marcados com pichações ofensivas, depredados, saqueados e incendiados. Para humilhá-los e facilitar a perseguição, foram obrigados a usar uma estrela amarela na roupa. E o resto é triste história.

“Judeus não são bem-vindos aqui”. O extermínio de milhões de judeus pela Alemanha nazista começou com a intolerância no comércio local | Foto: Reprodução/US Holocaust Memorial Museum

Rio de Janeiro, abril de 2026. Uma placa na entrada do Partisan, bar localizado na Lapa, bairro carioca tradicional por sua efervescente e diversificada vida noturna, exibia um recado em inglês: “US & Israel citizens are not welcome” (“Cidadãos dos Estados Unidos e de Israel não são bem-vindos”). O estabelecimento, que se define como “ambiente antifascista” nas redes sociais, possui espaços múltiplos, inclusive para debates de temas como “genocídio em Gaza”. Outro evento do gênero ocorreu com a chef Monique Benoliel em uma delicatessen no Leblon, também no Rio. Segundo ela, ao perguntar ao dono da Delly Gil por que não havia, como em anos anteriores, produtos típicos judaicos consumidos no período — ambos os episódios ocorreram durante o Pesach, que celebra a libertação dos hebreus da escravidão no Egito —, o comerciante disse estar “farto dos judeus”.

Em nota, a Delly Gil alegou mal-entendido e pediu desculpas. O Partisan — palavra que significa “partidário”, mas é usada historicamente para designar grupos como os resistentes franceses contra a ocupação nazista ou os soviéticos por trás das linhas alemãs — usou o caso para se promover, reafirmou seu posicionamento, adotou o discurso de vítima de censura e promoveu campanha de arrecadação de R$ 35 mil para pagar a multa de R$ 9,5 mil que levou do Procon por violar o Código de Proteção e Defesa do Consumidor, mais custas judiciais e promoção de “ciclo de evento sobre Palestina, Líbano e Oriente Médio”. Alguns usuários manifestaram seu descontentamento de maneira criativa, sugerindo temas para palestras.

Foto: Reprodução/Instagram/Partisan
Foto: Reprodução/Instagram/Partisan

A multa foi apenas a medida mais rápida e prática, uma vez que o Código proíbe a recusa ao atendimento de demandas dos consumidores de um estabelecimento que esteja de portas abertas e tenha disponibilidade de produtos ou serviços. Outras iniciativas jurídicas cabíveis foram tomadas. Em nota, o bar afirmou que “não há, nem nunca houve, qualquer política de proibição de acesso” por nacionalidade, e que o episódio “deve ser compreendido exclusivamente como uma manifestação de ordem política e simbólica e desprovida de qualquer força normativa ou impedimento físico”. Dias depois, outro restaurante carioca, O Porco Gordo, solidarizou-se com o Partisan por meio de postagem nas redes sociais e também foi multado. “Também NÃO são bem-vindos aqui! NÃO estão proibidos, mas NÃO são bem-vindos.”, dizia o post.

Para o cientista político Igor Sabino, trata-se de “uma forma clara de xenofobia”. “A legislação brasileira proíbe esse tipo de discriminação e a classifica como racismo. Apesar de também ter envolvido cidadãos americanos, precisa ser analisado como uma possível manifestação de antissemitismo.” 

No sábado, dia 4 de abril, quando foi autuado, o Partisan tinha 2 mil seguidores em sua conta no Instagram (uma empresa americana, por sinal). Na quinta-feira, 9, já eram 24 mil. A rápida adesão de um número elevado de pessoas mostra que o cenário é mais preocupante do que poderia parecer à primeira vista. Alguns utilizam a guerra contra o Irã como argumento para apoiar a atitude antissemita; outros apelam para a diferença entre antissemitismo (preconceito contra judeus) e antissionismo (posição crítica contra políticas do Estado de Israel); há ainda os que tentam dissociar povo judeu de cidadão israelense; por fim, há os que assumem uma posição contra judeus e americanos, pura e simplesmente.

Foto: Reprodução/Instagram/Partisan

Tudo sob o silêncio ensurdecedor, ou no máximo críticas parcimoniosas de órgãos oficiais, veículos de comunicação e instituições em geral que deveriam falar alto sobre a gravidade do assunto. Felizmente, milhares de usuários das redes também têm manifestado repúdio por meio de comentários no Instagram. Alguns apontam a hipocrisia do antiamericanismo, outros vão direto ao ponto.

Foto: Reprodução/Instagram/Partisan

Se a placa no bar, em vez de americanos e israelenses, se referisse a iranianos e palestinos, ou a russos e chineses, ou a integrantes de quaisquer outras etnias ou nações, a mídia, o Judiciário e as redes sociais estariam em polvorosa. E com toda razão. O problema é a indignação seletiva. “Israel e os EUA não são os únicos países em guerra no momento”, lembra Sabino. “A Rússia, por exemplo, invadiu a Ucrânia e não vimos nenhum tipo de ação semelhante contra cidadãos russos, o que também seria racista e totalmente condenável. O fato, contudo, de isso acontecer cada vez mais contra israelenses ressalta o padrão duplo da situação.” O cientista político destaca que “uma das principais manifestações atuais de antissemitismo é por meio de supostas críticas a Israel”. Por isso, considera importante o Projeto de Lei nº 1.424/2026, da deputada federal Tabata Amaral (PSB-SP), que propõe a adoção da definição de antissemitismo da Aliança Internacional em Memória do Holocausto (IHRA). “Diferentemente do que sugerem os críticos, o objetivo da IHRA não é silenciar críticas a Israel”, entende, e sim “evitar que críticas ao país sirvam como desculpas para práticas e discursos racistas contra judeus em geral, inclusive cidadãos israelenses que, em sua coletividade, não podem ser responsabilizados por decisões tomadas por seus governantes, mesmo que o país seja uma democracia”.

A definição da IHRA foi adotada pelos 31 países da aliança em 26 de maio de 2016:

“O antissemitismo é uma determinada percepção dos judeus, que se pode exprimir como ódio em relação aos judeus. Manifestações retóricas e físicas de antissemitismo são orientadas contra indivíduos judeus e não judeus e/ou contra os seus bens, contra as instituições comunitárias e as instalações religiosas judaicas.”

Parte do problema é que atacar os EUA e os judeus está na moda para a esquerda em todo o mundo. Faz parte da cartilha chamar de nazista — e de fascista, genocida — quem pensa diferente. Ironicamente, sob esta ótica peculiar e distorcida, todos são nazistas, menos quem persegue judeus. O antissemitismo e o antiamericanismo, que no campo global têm crescido de forma assustadora em função de uma agenda “progressista”, encontram terreno ainda mais fértil no Brasil, onde o presidente Luiz Inácio Lula da Silva não perde uma chance de fazer as escolhas erradas. Sempre embriagado de delírios de grandeza, sonha em se tornar líder mundial da turma que inclui ditadores e terroristas. Contribui para o clima atual ao proferir frases como “Não é guerra contra o Hamas, é genocídio palestino”, ou “O que está acontecendo na Faixa de Gaza e com o povo palestino não existe em nenhum outro momento histórico. Aliás, existiu: quando o Hitler resolveu matar os judeus”. À época, o Hamas disse, em post no Telegram, que apreciava a comparação estapafúrdia feita por Lula.

O episódio do Partisan é tão emblemático que até na esquerda há quem perceba a insanidade. É o caso de Tainá de Paula, vereadora pelo PT do Rio, que mesmo condenando as ações do presidente norte-americano, Donald Trump, e do primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, pediu menos radicalismo e mais bom senso em sua conta no X. “Que loucura essa história da proibição de americanos e israelenses num bar da Lapa. O radicalismo tem nos levado ao limite da barbárie! Gente, americanos não são Trump! Israelenses não são Netanyahu!” Nos comentários, ainda lamentou o fato de “no Brasil, numa cidade dita da vanguarda e progressista, impedirmos o direito de alguém ir e vir”.

Como ocorre com absurda frequência no Brasil, crimes deixam de ser punidos não por falta de legislação que os contemple, mas por omissão, leniência ou interpretação elástica. Neste caso, é tudo muito claro. A Lei nº 7.716, de 5 de janeiro de 1989 — atualizada pela Lei nº 14.532, de 11 de janeiro de 2023 — define, em seu artigo 1º:  “Serão punidos, na forma desta Lei, os crimes resultantes de discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional”. Largamente aplicada em processos por injúria racial desde sua promulgação, a lei precisa valer também para discriminação contra judeus, americanos, alemães, albaneses ou ingleses. 

“A história ensina: grandes tragédias não começam pelo fim”, afirma o vereador Flávio Valle (PSD), presidente da Frente Parlamentar de Combate ao Antissemitismo da Câmara do Rio. “Ao defender um grupo discriminado, protegemos o princípio que garante a liberdade de todos nós.” Valle, que participou da ação fiscalizatória no bar na noite de sábado, fez um boletim de ocorrência e enviou notícia-crime ao Ministério Público. “É inadmissível, em 2026, um estabelecimento proibir a entrada ou o atendimento de pessoas por sua origem ou crença.”

A Federação Israelita do Estado do Rio de Janeiro (Fierj) também tomou providências legais contra os dois estabelecimentos acusados de antissemitismo. O presidente da instituição, Bruno Feigelson, afirma que o número de casos aumentou significativamente a partir do 7 de outubro de 2023. “Começou no ambiente virtual e cada vez mais vem para o mundo real”, comenta. Ele cita incidentes graves registrados na Austrália, nos Estados Unidos e em Londres, por exemplo. “O problema é que situações assim acabam escalando para agressões físicas, que é tudo que não queremos ver em nosso país.” Feigelson considera absurda a reação do Partisan. “Usam condutas criminosas como marketing, para ficarem mais famosos, é surreal.”  

Pilhas de corpos encontrados pelos Aliados após a libertação do campo de Mauthausen, na Áustria | Foto: Reprodução/Holocaust Museum

A História tem, de fato, o condão de ensinar. O que aconteceu antes serve de lição, para o bem e para o mal. Mas só aprende quem está disposto a aprender. Muitos seguem repetindo o mesmo erro, seja por convicção, omissão ou falta de compreensão mesmo. O nazismo verdadeiro, não aquele da ficção de revolucionários de iPhone, ao longo da Segunda Guerra Mundial matou pelo menos 6 milhões de judeus — além de 2 milhões de poloneses, 3 milhões de prisioneiros de guerra soviéticos, mais de 1 milhão de ciganos e centenas de milhares de homossexuais, deficientes físicos ou mentais, testemunhas de Jeová e outras minorias. Sem contar as baixas em campos de batalha. Foi, sobretudo, um Holocausto judeu, um genocídio no verdadeiro sentido da palavra. Negar a barbárie, tentar minimizá-la ou compará-la, de modo invertido, ao que acontece em Gaza, no Líbano ou no Irã, mais do que desconhecer a História, é escolher ignorar aqueles momentos em que nações e povos romperam a linha civilizatória que faz possível a vida em sociedade e a convivência entre os povos. É ter aprendido nada.

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4 comentários
  1. Thais de MORAES Machado Suppo Bojlesen
    Thais de MORAES Machado Suppo Bojlesen

    ISRAEL É A ÚNICA DEMOCRACIA DO ORIENTE MÉDIO ! E LÁ VIVEM ARABES . TODOS DEVERIAM ESTUDAR HISTORIA ANTES DE FALAR TANTAS SANDICES.

  2. Teresa Guzzo
    Teresa Guzzo

    Essa é realmente a esquerda caviar que infesta o LeBron e adjacências .São narrativas de quem nunca estudou História do século XX, portanto não possuem conhecimento da discriminação atual.Perceberam que o estabelecimento comercial acabou lucrando com a multa imposta? Façam as contas.

  3. TANIA GARCIA LEAL
    TANIA GARCIA LEAL

    Estou horrorizada. É tanta insensibilidade, tanta falta de respeito que a reação muitas vezes é não ter reação e ficar estupefato que nenhuma palavra é capaz de definir. A ponta do iceberg; ah! por baixo está a maldade humana, a indiferença, a ausência de reflexão sobre a vida, a tentativa sincera de superação da pequenez.

  4. Denis R.
    Denis R.

    Xenofobia. Com todas as letras. Sem sombra de dúvidas.
    E para algum louco que remotamente pense em defendê-los, troque a palavra judeus por africanos, tire uma foto, e publique nas redes sociais. Dai veja o que acontece!

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