Desde a primeira cirurgia, em decorrência de um atentado sofrido em Juiz de Fora (MG) em 6 de setembro de 2018, o ex-presidente Jair Bolsonaro entrou em um ciclo permanente de intervenções médicas. Ao longo dos anos, foram ao menos oito procedimentos, a maioria ligada ao sistema digestivo, com episódios recorrentes de dores, obstruções e crises que exigiram novas abordagens clínicas. O que começou como uma resposta emergencial à facada na barriga evoluiu para um histórico de outras enfermidades.
Mesmo depois de sucessivas cirurgias e períodos de recuperação, as sequelas não cessaram. Nas últimas semanas, Bolsonaro voltou a apresentar intercorrências, como crises de soluços, alterações de pressão e necessidade de novos procedimentos. O quadro culminou na internação na Unidade de Terapia Intensiva do Hospital DFStar, em Brasília, em razão de uma pneumonia bacteriana decorrente de broncoaspiração (ocorre quando alimentos, líquidos, saliva ou vômito entram nas vias aéreas e atingem os pulmões, em vez de seguir para o estômago). Trata-se do estágio mais grave de um processo que se arrasta há bastante tempo, somado a um quadro de depressão.
Tortura institucional
A sequência de problemas de saúde se intensificou no período em que Bolsonaro passou a ser alvo de medidas restritivas impostas pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Ao longo da investigação, ele teve as redes sociais suspensas pelo ministro Alexandre de Moraes, foi submetido ao uso de tornozeleira eletrônica e passou a cumprir determinações judiciais. As mudanças alteraram completamente a rotina do ex-presidente e de sua família, principalmente com a condenação a quase 30 anos de cadeia, pela Primeira Turma do STF, no ano passado, por causa do que seria um conluio para tentativa de golpe de Estado.
Por 32 dias, Bolsonaro esteve na Superintendência da Polícia Federal (PF), na capital federal — em um espaço menor que o de Lula, quando o petista ficou preso em Curitiba —, sob vigilância de agentes. Nesse período, houve controle rigoroso de acesso, restrição a equipamentos eletrônicos e monitoramento contínuo por policiais, que permaneciam de prontidão. É nesse contexto que surgem as primeiras queixas a respeito do ambiente. De acordo com a defesa, Bolsonaro passou a dormir mal por causa de barulho.
Descobriu-se que os sons vinham de um ar-condicionado. Para desligá-lo, os advogados do ex-presidente tiveram de acionar o ministro Alexandre de Moraes, que ainda deu cinco dias para a PF explicar a origem do som, que continuou incomodando o ex-presidente, até que o juiz do STF recebesse o relatório e, então, tomasse providências. As queixas também se dirigiram ao período de cada visita, fixada em aproximadamente 30 minutos por pessoa, e em dias específicos da semana.
Melhorias pontuais, contudo, só vieram depois de a ex-primeira-dama Michelle ter uma audiência com Moraes. No encontro, ela relatou o quadro do marido e, no dia seguinte, o magistrado autorizou a transferência de Bolsonaro para a “Papudinha”, local com mais espaço. O juiz do STF permitiu ainda a possibilidade de outras pessoas, além de Michelle, entregarem comida para o ex-presidente na cela, acompanhamento médico contínuo e a instalação de equipamentos para auxiliar na mobilidade no interior da cela.

Mesmo com as adaptações e os pequenos avanços permitidos por Moraes, o quadro clínico voltou a se deteriorar recentemente. Bolsonaro apresentou episódios de mal-estar na madrugada de 6 de janeiro. Atordoado, caiu da cama e sofreu traumatismo craniano leve. O episódio reforçou os alertas de seus advogados acerca da fragilidade física do ex-presidente e antecedeu o agravamento que resultaria na internação em terapia intensiva há poucos dias.
Conforme os mais recentes boletins médicos, o ex-presidente recebe oxigênio por cateter nasal, faz fisioterapia respiratória e permanece sob monitoramento contínuo, ainda sem previsão de alta. Em meio a tudo isso, Moraes mandou a PF vigiar permanentemente o hospital, inclusive com agentes posicionados nas proximidades do quarto, além de controle de acesso de visitantes. Todos precisam ser previamente autorizados para poderem acompanhar o ex-presidente durante todo o período de internação na UTI.
Do ponto de vista médico, o episódio atual não é isolado. A broncoaspiração, quando conteúdo gástrico atinge os pulmões, é uma complicação associada a quadros clínicos fragilizados, especialmente em pacientes com histórico de cirurgias abdominais e intercorrências recentes. No caso de Bolsonaro, o evento ocorre após uma sequência de procedimentos e crises que já vinham sendo registradas nos meses anteriores. Por isso, chegaram a recomendar a prisão domiciliar a fim de melhorar a qualidade de vida dele.
Moraes, porém, parece irredutível, mesmo com seus colegas apoiando a concessão do benefício. Até o momento, o magistrado negou todos os requerimentos de mudança de regime. “As condições e adaptações específicas da unidade prisional atendem, integralmente, as necessidades do condenado, com a possibilidade e efetiva realização de serviços médicos contínuos, com múltiplos atendimentos diários, realização de sessões de fisioterapia, atividades físicas, assistência religiosa, além de garantir ao réu, em absoluta garantia do princípio da dignidade da pessoa humana”, disse o ministro, em um dos despachos que deu.
Presos de estimação
O quadro de Bolsonaro não é isolado entre os réus do chamado núcleo central da suposta tentativa de golpe. Com exceção do ex-deputado federal Alexandre Ramagem (PL-RJ) — que está exilado nos Estados Unidos —, e do tenente-coronel Mauro Cid — que, depois do acordo de delação premiada, cumpre pena em regime aberto sem tornozeleira eletrônica —, outros nomes próximos ao ex-presidente também relatam problemas de saúde e dificuldades relacionadas ao período de custódia. A defesa de todos eles vincula o quadro clínico às condições de permanência no sistema prisional. É nesse contexto que se insere o general Augusto Heleno, ex-ministro do Gabinete de Segurança Institucional, e um dos principais aliados de Bolsonaro, cuja condição médica também passou a ser usada como argumento ao Supremo.

Em 2025, os médicos diagnosticaram Heleno com Alzheimer, com base em uma série de exames realizados ao longo do ano anterior. A defesa sustenta que, embora haja relatos de lapsos desde anos anteriores, a confirmação clínica da doença só ocorreu recentemente, já no curso do processo. A partir desse diagnóstico, os advogados passaram a argumentar que o militar apresenta comprometimento cognitivo progressivo, incompatível com o ambiente prisional. Somente após vários pedidos de apresentação de perícia médica é que Moraes autorizou a prisão domiciliar humanitária solicitada pelo ex-ministro.

Entre os demais condenados, a situação varia, mas segue o mesmo padrão. É o caso do ex-ministro da Justiça Anderson Torres, que, assim como Bolsonaro, cumpre pena na Papudinha. A defesa relatou episódios de dores intensas, especialmente de origem odontológica, além do uso contínuo de medicação para tratamento psicológico. Torres dá sinais de depressão, sobretudo com a morte de sua mãe, no ano passado. Mesmo sob acompanhamento, o ex-ministro mantém rotina limitada, com caminhadas semanais e visitas restritas dos familiares.
Outro nome é o general Braga Netto, que cumpre pena em uma instalação militar no Rio de Janeiro, sob forte controle de acesso. Até o momento, não há registro público de agravamento clínico relevante, mas a defesa tem buscado reduzir a pena por meio de atividades como leitura, estudo e trabalho, estratégia comum entre os condenados que tentam flexibilizar as condições de cumprimento da pena. No caso do almirante Almir Garnier, preso em unidade da Marinha, em Brasília, a discussão passa menos por questões de saúde e mais pela rotina de custódia. O militar foi autorizado a desempenhar atividades intelectuais, como revisão de textos e tradução de obras, como forma de remição de pena. Ainda assim, já precisou de autorização judicial para fazer exames médicos de rotina.

Já o general Paulo Sérgio Nogueira, ex-ministro da Defesa, também enfrenta questões de saúde durante o cumprimento da pena. Ele realiza tratamento para um cisto no joelho no Hospital das Forças Armadas e, assim como outros condenados, busca reduzir o tempo de prisão por meio de atividades autorizadas pelo STF, como trabalhar.
Preço da condenação
Mais do que condenações, os casos revelam um método de execução que extrapola a própria sentença. No Supremo, a pena não se limita ao tempo fixado no papel. Ela avança sobre a rotina, o ambiente e, no limite, sobre o corpo dos réus. Do ruído constante na cela ao controle de visitas, da comida autorizada à frequência de atendimento médico, cada detalhe passou a depender de decisão judicial.
Nos processos que envolvem Bolsonaro e seus aliados, a saúde ocupa o centro da disputa. De um lado, laudos, diagnósticos e relatos sucessivos de deterioração física. De outro, atos de puro revanchismo que mantêm as condições de custódia sob controle rígido, mesmo diante de pedidos de flexibilização. O resultado é um grupo de condenados que adoece rapidamente e envelhece.
Nesse cenário, a pena já não se mede apenas pelo tempo fixado na sentença, mas pelo desgaste que se acumula ao longo de sua execução. E há um ponto em que esse processo se torna irreversível: o que o tempo leva, não há decisão que devolva.
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Moraes quer ser o ministro mais poderoso , entretanto, é um condutopata cruel e um ser humano pequeno! Que um dia ele receba, mil vzs mais, a retribuição por todos os males que causou!
Moraes já foi comparado à rainha de copas da fábula Alice e não por pouco. Ele é compulsivo e sanguinário. Assusta a qualquer morador desde país ver uma Polícia Federal submissa ao complô STF/ex-encarcerado e ao mesmo tempo herança dos tempos da Lava Jato.
A tortura continua em um governo corrupto e falido. Os casos citados representam o atraso e a corrupção desse governo. Estamos em pleno século vinte e um e a tortura no Brasil é aplaudida pela esquerda.