Nunca desperdice uma crise. Esse é o melhor conselho que posso dar ao refletir sobre essa guerra no Irã. Sem crise não há desafios, sem desafios, não há progresso, e espero que nessa crise cada brasileiro possa reconhecer a bússola errada que estamos seguindo. Apenas uma crise — real ou percebida — produz uma genuína mudança.
Os fertilizantes são uma ferramenta essencial para o agronegócio. Tanto é que o consumo em 2025 foi recorde, alcançando mais de 45 milhões de toneladas. O problema é que menos de 7 milhões foram produzidas no Brasil. Ou seja, as 85% restantes foram importadas. E, pela primeira vez, o Brasil importou quase 3 milhões de toneladas de fertilizantes em janeiro deste ano.
No caso do potássio, usamos 80% de todo o produto importado pela América do Sul. Com isso, ostentamos o título de maior importador mundial, talvez a única potência agrícola que importa tanto. O agronegócio provavelmente não sobreviveria sem esses produtos.

Temos apenas uma mina, localizada no Complexo Mineroquímico de Taquari-Vassouras, no município de Rosário do Catete, em Sergipe. Essa dependência da importação de fertilizantes talvez seja o ponto mais fraco do nosso Agro. Ela impacta diretamente o custo de produção, pois condiciona as nossas safras agrícolas às variações das taxas cambiais, o que gera incerteza no planejamento.
Pior é trazer esse adubo de tão longe e de regiões instáveis, como Irã, Rússia ou Belarus, o que fragiliza o setor rural brasileiro. A Rússia é um dos principais fornecedores e está em guerra com a Ucrânia. Além disso, esta semana tivemos o início da guerra no Irã. Belarus também é um dos nossos principais fornecedores de cloreto de potássio e, por causa das sanções aplicadas pela União Europeia, não pode acessar o porto na Lituânia para exportar para o Brasil.

A ironia nisso tudo é que no interior do Amazonas temos um município chamado Autazes, conhecido como a “terra do potássio”. As pesquisas minerais indicam que há nessa região uma mina com reservas em torno de 3,2 bilhões de toneladas de minério. Isso garante o abastecimento por mais de 200 anos. Com mais pesquisas, talvez possa ser a maior do planeta, desde Borba, no Amazonas, até Santarém, no Pará.
Ou seja, tem o potencial semelhante ao dos Montes Urais, na Rússia, e da Província de Saskatchewan, no Canadá. A profundidade de exploração é semelhante à do Canadá, um dos maiores produtores de cloreto de potássio do mundo. Agora, todo esse potencial se perde em nossa burocracia e dificuldade de empreender.
Em 2010, uma empresa anunciou o empreendimento nesse município, localizado entre os rios Madeira e Amazonas, com previsões de investimento de US$ 2,5 bilhões. A firma teve uma autorização de pesquisa concedida pelo extinto Departamento Nacional de Pesquisa Mineral (DNPM), atual Agência Nacional de Mineração (ANM), e em 2015 a mina foi licenciada.

No entanto, embora a estimativa da empresa fosse produzir 200 mil toneladas de fertilizantes por mês, uma série de entraves burocráticos não permite a exploração desse fertilizante, principalmente pela atuação do Ministério Público. A movimentação desses insumos, por outro lado, deve ser diretamente relacionada ao próprio escoamento da produção.
Essa mina de Autazes, por estar localizada às margens do Rio Madeira, pode otimizar nosso transporte e a distribuição do fertilizante com um preço mais barato. O meio de transporte seriam as barcaças carregadas de grãos que hoje descem os rios Madeira e Amazonas com destino aos portos de Itacoatiara e Santarém, de onde a soja é exportada para a Europa e a China.
Ao invés de voltarem vazias, como ocorre hoje, poderão retornar carregadas com o potássio, diminuindo os custos sem aumentar os impactos ambientais. Isso retiraria milhares de caminhões de nossas estradas e seria ambientalmente mais adequado.

A sociedade brasileira não pode continuar dando ao Estado, principalmente ao Judiciário, o poder de impedir a geração de riqueza. Se o Brasil já é o que é, imagina o dia em que tivermos liberdade para construir nossas hidrovias ou construir nossas ferrovias, como a Ferrogrão. Ou liberdade para utilizarmos nossos recursos naturais para produzirmos nossos próprios fertilizantes. Isso trará uma competitividade gigantesca para o Brasil na produção de alimentos.
Em tempos de turbulência geopolítica, significaria menos pobreza e alimentos mais baratos.
Antonio Cabrera é veterinário com pós-graduação em produção animal e presidente do Grupo Cabrera, que atua no agronegócio. Foi ministro da Agricultura e Reforma Agrária no governo Fernando Collor e ex-secretário da Agricultura e Abastecimento do Estado de SP durante a gestão Mário Covas. Atualmente, é titular da Sociedade Nacional de Agricultura e membro de várias entidades nacionais e internacionais, além de cônsul honorário da Espanha. Ele está no LinkedIn: Antonio Cabrera
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Pois é Ministro.. Estamos enchendo a pança do mundo , com um preço muito caro ao produtor brasileiro. O custo de produção não acampanha o preço de venda. Há um custo elevadissimo para safras recordes. Uma mudança de tempo é prejuizo certissiimo com descapitalização. Somente uma única obsvação que vale para todas. Há quatro anos a soja tinha um valor de venda e que nestes anos só baixou. e há quatro anos que os insumos importados, juros, multas, etc,, aos produtores, so aumentou. A conta não fecha. É necessários safras récordes?Isto é como “tirar” leite de vaca. Voce enfia 10 litros de leite de custo na vaca e consegue tirar 10., quanto tira.