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Foto: Montagem Revista Oeste/Shutterstock
Edição 312

A vida longe dos aiatolás

Exilados mudam seu destino no Brasil depois de se livrar da ditadura do Irã

O aiatolá Ali Khamenei, ex-líder supremo do Irã morto pelos Estados Unidos no último sábado, 28, era muçulmano xiita. Beny Fard, 47 anos, também iraniano, professa a mesma religião. As semelhanças entre os dois param por aí. Khamenei comandou o país com mãos de ferro por décadas. Fard deixou a terra natal com os pais e os irmãos porque a família não queria conviver com o regime de opressão dos aiatolás.

A ditadura religiosa começou em 1979, quando o aiatolá Ruhollah Khomeini tomou o poder. Na época, a família Fard tinha uma vida economicamente estável. Os pais e o próprio Beny nunca foram religiosos fervorosos. A relação deles com a fé se assemelha à da maioria dos brasileiros com o catolicismo: é influenciada pela doutrina, conhece as orações, cumpre alguns rituais, mas passa longe de seguir os preceitos à risca. Ainda assim, eles conseguiam conviver com as mudanças. O risco se tornou inaceitável depois da morte de um primo de 15 anos, conta Beny:

O empresário Beny Fard | Foto: Reprodução/arquivo pessoal

“Era a guerra contra o Iraque. O governo tomava os filhos homens a partir dos 12 anos e os levava para os quartéis, onde ficavam por três anos em treinamento. Aos 15, iam para o campo de batalha. Aconteceu com o meu primo: foi enviado para correr na linha de frente como uma espécie de radar humano de minas terrestres. Ele e outros tantos jovens morreram durante a explosão de um artefato para abrir frente a outros soldados. Em 1987, meu irmão tinha 11 anos. Meu pai não aceitou correr o risco de ele ter o mesmo destino. Fomos embora. Perdemos muito, mas ficamos vivos e reconstruímos a vida no Brasil.”

A migração da família, embora às pressas, deu-se dentro da lei. Como é muçulmano xiita, Fard pôde regressar ao país de origem para visitas. O primeiro reencontro com a terra natal trouxe sensações incríveis. “Reconhecer os cheiros e os sabores da infância foi único”, relata. A sensação de êxtase, porém, sumiu quando ele se deparou com o enforcamento de um homem em praça pública. O corpo ficou pendurado em um guindaste para que todos vissem o destino de quem não segue as regras do regime. “Esse não era o Irã dos meus pais”, lamenta.

Fard se integrou completamente ao modo de vida brasileiro. Formou-se em engenharia elétrica, fez carreira no setor financeiro, tornou-se empresário, casou-se com uma cristã e teve dois filhos. Em 2011, durante a primeira gravidez da mulher, decidiu não regressar mais à terra natal. “Toda vez, havia o risco de ficar preso”, lembra. “Na alfândega, o interrogatório era sempre o mesmo: ‘Por que você traiu o seu país e se mudou?’. Eu dizia que meus pais moravam fora e estavam doentes.”

Com a morte de Khamenei, o empresário tem a esperança de levar a família para conhecer a terra natal. Os filhos são criados ao modo brasileiro e ainda não têm uma religião definida. “O importante para mim é que eles cheguem a Deus”, diz. “Não importa se por Maomé, Jesus ou Moisés.” Em muitos aspectos, essa visão de mundo se assemelha à de Hooman Mani, 54 anos, outro iraniano que refez a vida no Brasil. Ele, porém, nunca pôde regressar. Diferentemente do compatriota, não é muçulmano. Professa a Fé Bahá’í, religião que surgiu no Irã no século 19, renegada pelos aiatolás.

Assim como o cristianismo, o islamismo e o judaísmo, a Fé Bahá’í é uma religião abraâmica. Seus fiéis acreditam em um único Deus e têm em Abraão o patriarca comum. Segundo a Bíblia, trata-se do pai de Isaque e Ismael. Isaque era filho de Sara, mulher de Abraão, e deu origem aos judeus. Já a mãe de Ismael era a escrava Agar. Essa história é comum às quatro religiões. O que as separa é o profeta em que seus fiéis acreditam como o último grande enviado de Deus. Para os judeus, Moisés (3,5 mil anos atrás). Para os cristãos, Jesus (há 2026 anos). Para os muçulmanos, Maomé (século 7 depois de Cristo). Para a Fé Bahá’í, Bahá’u’lláh, nascido em 1817 no Irã, época em que o país ainda se chamava Pérsia.

Hoomam Mani | Foto: Reprodução/arquivo pessoal

O bisavô de Mani, Abdul’i-Vahad Zabihi, conviveu com ‘Abdu’l-Bahá, o filho mais velho do profeta Bahá’u’lláh. Por décadas, a religião provocou a desconfiança das autoridades. “Temos mais de 30 mártires na família”, afirma Mani. No regime do xá Mohammad Reza Pahlavi, deposto pelos aiatolás em 1979, houve tolerância religiosa. O governo do monarca foi marcado pelo alinhamento com os Estados Unidos, Israel e todo o Ocidente.

“O xá se consultava com médicos da Fé Bahá’í”, diz. “O meu tio Firuz Naimi decidiu não deixar o país depois da revolução islâmica, era médico e foi assassinado pelo regime. Ele era uma figura proeminente. Ajudou a erradicar a malária do país e nem isso o salvou. Fuzilaram-no e mandaram a conta. A família teve de pagar.”

Alguns sites sobre vítimas dos aiatolás registram a história de Naimi. Em todos, a descrição é de um médico com grandes contribuições para a comunidade que foi torturado e fuzilado. A coluna dele teria sido quebrada antes da execução, e a aplicação da pena de morte aconteceu mesmo depois de nenhum crime ser encontrado pela Guarda Revolucionária. Ele foi preso com outros seis companheiros de fé em agosto de 1980. Todos morreram em 14 de junho de 1981. O motivo: recusaram a conversão ao Islã.

Para os aiatolás, a Fé Bahá’í não pode existir. É menos verdadeira que o cristianismo ou o judaísmo, justamente por ter surgido depois do islamismo. Para os muçulmanos, todos os personagens bíblicos até Cristo têm algum valor. Bahá’u’lláh está fora dessa lista. Por isso, a vida dos seus fiéis corre ainda mais risco, embora muitos preceitos muçulmanos tenham sido incorporados por eles. Além das semelhanças já citadas, como o monoteísmo e a origem abraâmica, há, por exemplo, um período de jejum todos os anos e a proibição de beber álcool. Contudo, grandes diferenças os separam. Quem crê nas revelações de Bahá’u’lláh não segue sacerdotes — um desafio frontal à base do poder na República Islâmica. “A relação dos fiéis é direta com Deus”, explica Fard. “Não existe um padre, um imã ou um culto. Consideramos todas as religiões boas. Meu pai me colocou em um colégio católico no Brasil e disse: ‘Jesus é bom, aprenda as palavras dele’.”

Mani sonha em reencontrar o Irã que deixou para trás. “Eu nasci num país onde as mulheres podiam usar minissaia”, lembra. “Os filmes eram lançados em Hollywood e no dia seguinte estavam nas telas dos cinemas em Teerã. Nosso passaporte era aceito em todo o planeta. Diziam que os persas eram tão ricos que tinham sangue azul.” A mulher dele, a brasileira Michelle, fica maravilhada com as histórias do marido. O casal tem três filhos: duas meninas e um menino. Ela já propôs uma viagem de férias da família ao Irã. Ele rejeitou a ideia. “Podemos ser presos e nunca mais voltar”, diz. Amiga da família Mani, Negar Malekzadeh Beust, 36 anos, é mulher, bahá’í, e ficou presa seis meses por causa da fé. Aconteceu em 2011.

Negar é professora de biologia, inglês e desenvolvimento espiritual. Ela lecionava sobre espiritualidade em um centro comunitário para crianças da Fé Bahá’í e muçulmanas, tudo consentido pelos pais. As autoridades não gostaram e a levaram sob custódia. Inicialmente, passou 20 dias na solitária. Depois de a família colocar a escritura da casa como fiança, teve o direito de responder em liberdade. O processo durou um ano, mas o direito à defesa não existiu. “Foi um advogado para 12 rés”, lembra. “Pagamos para ele apenas ler nosso processo. O juiz dizia: ‘Elas não têm direito à defesa, elas não deveriam nem existir nesse país’. As penas eram dadas sem nenhum critério objetivo. Se ele fosse com a cara, seis meses. Se não, cinco anos.”

A professora Negar Malekzadeh Beust | Foto: Reprodução/arquivo pessoal

Ao fim, Negar recebeu a condenação de seis meses de prisão, período em que ficou trancada em uma cela com outras nove mulheres. Elas dividiam três beliches, com três camas cada. Ela compara o lugar a um campo de concentração. Guardas e vigias o tempo todo. Diariamente, podiam tomar sol por uma hora e falar ao telefone por um minuto. Ao cumprir a pena, decidiu ir embora do país. Seus pais fizeram o mesmo. Eles escolheram a Austrália. Ela, o Brasil, onde reside há 12 anos, mantém a mesma fé e se encontra com compatriotas de diferentes credos — como sonha que seja rotina no Irã um dia.

Tanto ela quanto Fard e Mani enxergam a unidade nacional do Irã em torno de uma característica comum: persas. O sentimento de pertencer a esse legado está acima das religiões ou das etnias. Antecede Bahá’u’lláh, Moisés, Jesus e até mesmo Abraão, conforme explica Arios Nasiri, 41 anos. “Temos 7 mil anos de história. Não somos árabes nem muçulmanos, somos a Pérsia.”

Em 2014, ao lado da mulher, Maryam Hosseini, 41 anos, Nasiri deixou o Irã, terra onde nasceram, estudaram e se casaram. Por alguns anos, conseguiram seguir a vida mesmo sob o jugo dos aiatolás. Entretanto, ambos fazem parte de um grupo que é maioria entre os jovens no país, apesar de o regime tê-los como inimigos: os ateus. Ela conta que deixou de ter fé aos 9 anos, depois de uma festa na qual foi apresentada como se fosse uma mulher adulta. “Lembro daquele dia com choro”, diz. “A partir daí, tive de pensar em casar e fazer todas as coisas da religião. Eu era uma criança e não podia mais escolher cores alegres, só as escuras. Não podia mais brincar, andar de bicicleta nem usar salto. Comecei a pensar, a me questionar: ‘Como eu posso acreditar em um Alá que tanto me odeia? Por que me criou?'”

O casal Arios Nasiri e Maryam Hosseini | Foto: Reprodução/arquivo pessoal

Aos 11 anos, Maryam passou a comprar livros proibidos em PDF. O conteúdo podia levá-la à prisão. Não se importou. Queria entender como era aquele Irã. Assim como ela, o marido e Negar, a maior parte dos iranianos nasceu sob o jugo dos aiatolás. No ano da implantação da República Islâmica, a população iraniana era de 38 milhões de habitantes. Hoje, a Organização das Nações Unidas estima que seja de quase 95 milhões. As leis existem no papel, mas não funcionam no dia a dia. A população se ajuda como pode para burlar o sistema. Muitas vezes isso acontece para o bem. “Bahá’ís não podem ter empresas, mas acabam usando um amigo muçulmano de fachada para terem seus próprios negócios”, comenta Negar. Em outras, porém, para comportamentos que são o retrato da falta de esperança. “Nas festas de hoje no meu país têm mais drogas e bebidas que no Brasil”, conta a professora. “Tudo é escondido, mas acontece. Quase ninguém mais acredita nos aiatolás.”

Nasiri, Maryam, Negar, Mani e Fard, todos fazem coro a essa afirmação: “Quase ninguém mais acredita nos aiatolás”. Os cinco se valem da internet para manter conversas com amigos e parentes que ficaram na terra natal. Do outro lado, as mensagens mostram a descrença geral. Eles estimam que mais da metade dos jovens não tem fé em algum Deus e que 80% dos iranianos querem o fim da ditadura. Os 20% restantes se dividem em radicais fanáticos e oportunistas. A Guarda Revolucionária comete as maiores atrocidades em nome de um líder supremo. Em momentos de tensão, como os que começaram a ocorrer desde a última semana de 2025, quando a população passou a organizar protestos em todo o país, o governo interrompe o sinal de internet para o mundo externo. Contudo, mesmo com o bloqueio, há quem consiga transmitir informações por meio da Starlink. Os aiatolás não conseguem controlar o que vem do céu por meio dos satélites de Elon Musk. Em terra é diferente. Quem for pego com a antena da empresa vai preso. Muito pouca gente se arrisca. Quando o serviço oficial é restabelecido, as imagens da tragédia chegam ao exterior, ao lado das mensagens daqueles que ainda sobrevivem.

As cenas mostram pilhas de corpos nas ruas. A prática tem sido usada para impor o medo à população. A contagem do número de vítimas é incerta. Relatórios médicos falam em dezenas de milhares de mortes. “Assassinaram os iranianos com sangue frio”, diz Ario. “Pegaram muita gente no hospital. Arrastaram os feridos para fora dos leitos e atiraram no rosto deles.” São cadáveres que se juntam aos de jovens que nem chegaram ao hospital. Foram mortos nas ruas enquanto protestavam. Há também os sobreviventes que acabaram presos. Em janeiro, Mohammad Movahedi-Azad, procurador-geral do Irã, declarou que todos os manifestantes são “mohareb”. Trata-se do jargão jurídico para “inimigos de Deus”. A legislação iraniana define o ato como crime punível com a morte. Com a população desarmada, a esperança é pela intervenção externa. Nasiri, Maryam, Negar, Mani e Fard não se alegram em imaginar o Irã em guerra. Porém, todos eles acreditam que o Ocidente precisa depor os aiatolás e que chegou o momento de fazer a transição para a democracia, com tolerância a todos os povos, todas as religiões e também a quem preferir não acreditar em profetas.

Irã
A brutalidade do regime dos aiatolás escancara execuções sumárias de manifestantes classificados pelo Estado iraniano como inimigos de Deus | Foto: Reprodução/Flickr

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