Quando as sirenes soaram por toda Israel pela primeira vez, às 8 horas da manhã do último sábado, elas não serviram para alertar a população sobre a aproximação de mísseis iranianos: era o sinal de que, finalmente, o grande dia havia chegado. A Força Aérea israelense, atuando em sintonia com os Estados Unidos, escrevia as primeiras linhas da epopeia libertária prometida há semanas por Donald Trump para o povo iraniano. A reação do Irã foi rápida e voltada não só para Israel, como também para diferentes países vizinhos.
A muitos surpreendeu o fato de a ofensiva ser iniciada por Israel, e não pelos Estados Unidos. Washington entraria em cena mais tarde. Os alvos iniciais foram os lançadores e depósitos dos temidos mísseis balísticos, que há anos tiram o sono dos israelenses, e também o líder supremo do Irã, Ali Khamenei, e seu núcleo de poder. Horas depois, as mortes foram confirmadas.
O aiatolá estava em seu escritório quando as 30 bombas de longa distância lançadas por Israel atingiram seu complexo residencial. Quarenta de seus assessores seniores se reuniam em um prédio vizinho. A escolha de uma ofensiva matinal surpreendeu até mesmo os israelenses, acostumados a ataques noturnos como os que marcaram a Guerra dos 12 Dias entre Israel e Irã, em junho de 2025.

“O sucesso da operação se deveu ao trabalho fenomenal do serviço de inteligência dos dois países. Ainda assim, impressionou a arrogância do líder supremo e de seus subalternos, tão seguros de que os ataques só ocorreriam à noite”, afirmou David Petraeus, general americano da reserva e ex-diretor da CIA.
Segundo ele, a Força Aérea normalmente não conduz missões diurnas. “Você não quer dar ao inimigo a oportunidade de ver seus aviões no céu. Isso só foi possível nessa ocasião porque operações anteriores haviam criado corredores seguros para os pilotos israelenses”, explicou ele, lembrando que Israel arrasou completamente a defesa aérea iraniana durante a última guerra.
Houve ainda um detalhe simbólico nessa ofensiva: cerca de 30 integrantes da Força Aérea de Israel que participaram desse esforço — entre pilotos e navegadores — eram mulheres. Ou seja, há grandes chances de ter sido uma delas a responsável pelo fim daquele que poderá ser o último aiatolá do Irã.

O inimigo real de Trump: a China
Este conflito está longe de ser apenas regional, muito embora analistas e líderes ao redor do mundo prefiram interpretá-lo a partir de seus próprios filtros. Na Europa, o debate gira em torno do direito internacional. Na China, da estabilidade dos mercados globais de energia. Nos Estados Unidos, setores conservadores acusam Trump de arrastar o país para uma guerra distante que buscaria apenas satisfazer as necessidades de Israel. Em países como Rússia, Canadá e Brasil, o debate chegou a ganhar até mesmo nuances raciais.
Para o analista israelense Haviv Rettig Gur, no entanto, “falou-se muito e entendeu-se pouco”. Ele propôs uma leitura usando a imagem de dois tabuleiros. No regional, jogam Israel, Arábia Saudita, Catar e Emirados Árabes. No global, confrontam-se Estados Unidos e China, com Rússia e uma Europa em declínio orbitando a disputa. O Irã atua em ambos — como ator regional e também como peça estratégica global.
Nesse segundo tabuleiro está, segundo Rettig Gur, o verdadeiro alvo de Trump. A China, como sempre atuando nos bastidores, usa o Irã como instrumento para expandir sua influência no Oriente Médio, o maior polo energético do planeta. A República Islâmica do Irã, portanto, não é o alvo final, mas o terreno onde os Estados Unidos travam uma disputa muito maior, que determinará quem ditará as regras da ordem internacional nas próximas décadas.

China e Irã: parceria estratégica em construção
Essa leitura se sustenta na parceria formalizada em 2021, quando Pequim e Teerã selaram o Acordo de Cooperação Estratégica de 25 Anos. O pacto previu cerca de US$ 400 bilhões em investimentos chineses em energia, infraestrutura e segurança em território iraniano, em troca de petróleo fornecido com desconto.
“Em 2025, a China comprou mais de 80% do petróleo exportado pelo Irã. Ela é a tábua de salvação da economia iraniana”, explica Ahmed Aboudouh, membro do think tank inglês Chatham House e especialista na competição entre EUA e China e suas implicações globais. “Pequim também aliviou o isolamento do Irã ao associá-lo à Shanghai Cooperation Organisation e ao Brics” — do qual participa também o Brasil.
A visita mais recente do presidente iraniano Masoud Pezeshkian a Pequim ocorreu no ano passado, quando a China intensificou a transferência de tecnologia para a reconstrução da indústria iraniana de drones e mísseis. Relatórios indicam também o fornecimento de sistemas de defesa aérea e armamentos avançados.
Para Rettig Gur, o Irã caminhava para se tornar uma base avançada chinesa, um segundo fronte potencial no caso de um conflito entre Pequim e Washington. A aproximação acelerada entre os dois países — inclusive com o fornecimento chinês de infraestrutura cibernética, naval e estratégica ao Irã — pesou decisivamente no cálculo do timing da ofensiva americana.
Uma guerra americana
O próprio roteiro dos ataques demonstra que se trata de uma guerra americana, a qual poderá permitir a Israel abrir uma janela para o horizonte que pretende descortinar para a região.
Os Estados Unidos destruíram rapidamente a marinha iraniana, seu aparato de defesa costeira e suas fábricas de mísseis e drones. O objetivo deste último alvo é impedir que Teerã continue abastecendo China e Rússia — esta última dependente de drones iranianos em sua longa guerra contra a Ucrânia.
“Trump anunciou toda a sua estratégia em voz alta. Nunca escondeu que lutaria para impedir que o Irã possa atuar futuramente como um fator disruptor em defesa da China. Só uma guerra americana por interesses americanos levaria Trump a colocar em risco seu status doméstico, político e internacional”, conclui.
A liderança americana vem explicando repetidas vezes nos últimos dias como essa guerra atende aos seus interesses — os quais, obviamente, vêm antes dos interesses israelenses. “Os EUA querem remover a capacidade nuclear, balística e terrorista de um regime que declara guerra contra o país desde 1979, e que já matou milhares de americanos pelo mundo. Nós não estamos fazendo um favor a Israel: Israel nos fez um favor”, opina Mark Dubowitz, CEO da Foundation for Defense of Democracies. “Os israelenses respondem por 50% dos ataques aéreos dessa ofensiva. Nunca os EUA tiveram um parceiro que carregasse tal fardo em prol de um interesse americano.”
Inteligência e paciência
Segundo a mídia local, as Forças de Segurança de Israel recorreram a artifícios engenhosos, mas nada tecnológicos, para preservar o sigilo nos dias que antecederam o ataque no sábado.
Oficiais da Divisão de Inteligência, sediada no quartel-general do Exército em Tel Aviv — conhecido como Kirya —, foram orientados a estacionar seus veículos longe de seus locais habituais. A iluminação interna dos escritórios passou a ser alternada automaticamente, impedindo que se percebesse, do lado de fora, qualquer atividade fora do padrão. O chefe do Estado-Maior, Eyal Zamir, também se deslocou discretamente, criando a impressão de que passaria o fim de semana em casa. Imagens de satélite manipuladas exibiam caças americanos F-22 estacionados na base de Uvdá, no sul do país, desviando o foco da movimentação intensa em outras bases aéreas de Israel.
A precisão e a simultaneidade dos ataques a alvos espalhados por um país de grandes proporções como o Irã sugerem uma profunda penetração dos serviços de inteligência americanos e israelenses no aparato de segurança iraniano. Isso já não causa surpresa desde a última guerra, quando agentes do Mossad em terra neutralizaram lançadores de mísseis antes do início do avanço israelense. Como resumiu David Barnea, diretor da agência: “Nós continuamos lá, como sempre estivemos”.
A posição de Israel
Israel já havia anunciado, meses atrás, que se preparava para atacar o programa balístico iraniano, que se recuperou consideravelmente desde o fim da Guerra dos 12 Dias. Com a evolução sangrenta e desmedida da última onda de manifestações, seu objetivo ampliou-se: Jerusalém almeja uma mudança de regime, e não apenas no regime que, desde o dia em que subiu ao poder, em 1979, declara seu objetivo de erradicar Israel do mapa.
A República Islâmica canaliza para esse fim boa parte de sua economia nos programas balísticos e nucleares, e para financiar e liderar organizações terroristas cuja missão central é atacar judeus pelo mundo — a exemplo do atentado a bomba contra a Asociación Mutual Israelita Argentina (AMIA) em Buenos Aires, em 1994 — e destruir Israel.

A possibilidade de um futuro livre da ameaça dos aiatolás é suficiente para que a sociedade israelense apoie o conflito e aceite seu alto preço. Edifícios em Tel Aviv, Be’er Sheva, Beit Shemesh e outras cidades foram parcial ou totalmente destruídos por mísseis iranianos nos últimos dias, deixando para trás mortos e feridos.
A estratégia de ataque do Irã mudou. Em lugar das barragens noturnas massivas típicas da Guerra dos 12 Dias — mais eficazes para maximizar a destruição —, Teerã passou a lançar menos mísseis em horários imprevisíveis. A ausência de rotina e o estresse afetam fortemente a moral da população, que está vivendo em estado permanente de alerta.
Mais de 100 mil israelenses no exterior finalmente começam a ser trazidos de volta, a partir de quinta-feira, depois do total fechamento do espaço aéreo. No lugar das celebrações de Purim — festividade que lembra a alegria do Carnaval brasileiro —, o país reviveu uma rotina semelhante à da pandemia: escolas e comércio fechados, sistema de saúde focado em emergências e dezenas de milhares de reservistas convocados diante da expectativa de novos frontes. O Hezbollah, no Líbano, confirmou essa previsão.
Um detalhe curioso: Purim comemora, justamente, o evento que salvou os judeus persas da ameaça de aniquilação, coordenada por um tirano cruel no antigo reino da Pérsia.
O futuro do Irã
Nessa “primeira fase” da guerra, conforme está sendo chamada pelas forças de segurança dos dois países, o foco são ataques aéreos direcionados a alvos militares e ligados ao regime. Por estarem localizados muitas vezes dentro das grandes cidades, resultam em tristes cenas de sofrimento do povo iraniano. Embora cada morte seja por si só uma tragédia, trata-se, até o momento, de cerca de mil vítimas, um número baixo frente à intensidade da ofensiva.
Aos membros da Guarda Revolucionária e das Forças Basij, as mesmas que massacraram dezenas de milhares de iranianos desde o início das manifestações em 28 de dezembro do ano passado, Trump prometeu anistia em caso de rendição. Vídeos que circularam pela internet mostram guardas cruzando fronteiras de países vizinhos, irreconhecíveis sem suas barbas e seus uniformes.
Ainda falta um elemento central para que a Fúria Épica — nome da operação militar americana — de Trump permita que esta epopeia tenha um desfecho positivo: um líder capaz de conduzir o país para um novo governo. “Os serviços de inteligência americanos e israelenses estão trabalhando juntos, nos bastidores, encontrando formas de explorar a fraqueza e as fraturas do regime islâmico para conduzi-lo ao seu fim”, conta Dubowitz.
Essas ponderações certamente fazem parte também da cartilha da oposição iraniana neste momento — e precisam ser respondidas a tempo. Mesmo que haja um longo caminho pela frente, riquezas capazes de garantir a reconstrução não faltam ao país, que conta com a segunda maior reserva natural de gás e a quarta maior reserva de petróleo do mundo.
Está escrito no épico Shahnameh, clássico que narra justamente a criação mítica e histórica da Pérsia desde o surgimento do mundo até a conquista islâmica no século 7, que “nenhum trono construído sobre injustiça permanece de pé”. Que seja este o oráculo do Irã.
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Miriam, parabéns. Que excelente aula de geopolítica.