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Meir Litvak, especialista em islamismo xiita moderno e antissemitismo islâmico | Foto: Reprodução/Redes Sociais/Escola Diplomática de Bruxelas (CERIS)
Edição 311

China avança no Oriente Médio

País se aproxima cada vez mais do Irã e se afasta de Israel, comenta especialista

A China vai investir, em 25 anos, US$ 400 bilhões no Irã, por meio de acordo firmado em 2021. Em Israel, um fundo ligado ao comitê central chinês, neste mês, barrou a continuidade de um empreendimento. Recusou-se a investir US$ 11 milhões, valor baixo para a dimensão dos projetos chineses, em um kibutz (comunidade agrícola). O caso foi parar na Justiça, por iniciativa dos israelenses, e gerou relatos de que a China proibiu investimentos em Israel por causa da incursão em Gaza. A embaixada local negou haver rejeição a Israel. O retrato, porém, é claro: a China se cansou de ter um papel secundário no Oriente Médio. E optou por uma aliança estratégica com nações muçulmanas para mudar esse cenário.

A estratégia até agora deu certo. A China já é uma das protagonistas para pelo menos três delas: Irã, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos. Quase toda a produção de petróleo iraniano é absorvida pelo governo chinês que, dessa maneira, tem ajudado o país persa a encontrar um respiro em meio a sanções que arrasam a economia. O elevado consumo chinês, impulsionado por sua produção industrial, obriga o país a importar cerca de 70% do petróleo que utiliza. O casamento com o Irã tornou-se, assim, um caminho de duas mãos. A China contribui para a sobrevida do regime dos aiatolás enquanto, com um desconto de cerca de 10%, importa uma de suas commodities mais necessárias, embora lidere avanços em energia renovável.

A presença da China na região também se manifestou na reaproximação diplomática entre Irã e Arábia Saudita, restabelecida em 2023 sob mediação de Pequim, país em que também tem investido alto. No conflito entre Hamas e Israel, o governo chinês inicialmente aparentou ser um mediador. Aos poucos, foi se distanciando do governo israelense e, mesmo defendendo a solução de dois Estados, não classifica o grupo palestino como organização terrorista. Avessa a valores democráticos, a China se acostumou a fortalecer seus interesses econômicos por meio da pauta ideológica.

Em entrevista à Oeste, um dos maiores especialistas em Oriente Médio, Meir Litvak, Ph.D. por Harvard e chefe do Departamento de História do Oriente Médio, da Universidade de Tel Aviv, afirmou que a presença da China nesta parte da Ásia tem por objetivo ampliar mercados. Isso, no entanto, mina a influência dos Estados Unidos e leva a própria China a ser o principal antagonista dos norte-americanos na região, podendo até substituir a Rússia, sobrecarregada com a guerra na Ucrânia. Confira a entrevista a seguir:

Como Rússia e China têm lidado com as ameaças dos EUA contra o Irã?

Ambos os países denunciaram as ações norte-americanas na região, numa demonstração, do ponto de vista do discurso, de antagonismo com o governo de Donald Trump. Mas há alguns indícios de que os russos estão buscando mediar a situação entre o Irã e os EUA no que concerne à questão nuclear. Não acredito que a Rússia queira um Irã nuclear. Pode, por isso, concordar até em armazenar o urânio enriquecido do Irã, em seu próprio território, como um compromisso para acalmar os EUA. A China também se vê em uma grande competição com os EUA como potência emergente e busca minar o sistema internacional, mas muito mais por meio do aspecto comercial, dominado pelos norte-americanos.

Quais as possibilidades de a China ou a Rússia se envolverem em um conflito militar com os EUA por causa do Irã?

Nenhum deles tem interesse em um conflito militar com os EUA. Mas, como eu ressaltei, ambos se opõem ao governo norte-americano. A China fica satisfeita em ver os EUA envolvidos em conflitos no Oriente Médio, longe do Leste Asiático, o que dá a Pequim mais liberdade em relação a Taiwan. Ao mesmo tempo, apesar da competição, China e EUA ainda precisam um do outro economicamente. Portanto, o governo chinês não tem interesse em um confronto direto com os norte-americanos neste momento. Já a Rússia está em uma posição muito mais fraca. O governo russo gostaria de vincular o Irã à questão da Ucrânia. Envolver os EUA com o Irã desvia, ou pelo menos divide, a atenção norte-americana em relação à questão ucraniana. É provável que Putin queira obter um acordo melhor sobre a Ucrânia usando a crise iraniana, seja como pagamento por seus bons serviços ou esperando por um desgaste dos norte-americanos.

Por que o senhor acredita que é interessante para a China que os EUA estejam envolvidos em conflitos no Oriente Médio?

A China caminha sobre uma linha tênue nesse aspecto. Ressalto: suas relações econômicas com os EUA ainda são muito importantes, apesar da rivalidade. Os EUA devem à China perto de US$ 1 trilhão, o que significa que, por um lado, a China tem influência sobre os norte-americanos, mas, por outro, uma grande crise econômica nos EUA ou um confronto pode colocar essa dívida em risco. Acontece que a China está interessada em Taiwan e decidirá seus próximos passos em relação à ilha muito com base na percepção de fraqueza dos EUA, que têm buscado conter a aspiração da China sobre Taiwan por meio de apoio militar e político. Assim como ocorreria com a Rússia na guerra na Ucrânia, os EUA também poderiam, inseridos em um conflito com o Irã, desviar suas atenções da questão entre China e Taiwan.

De que maneira esta movimentação do poder na região se encaixa na importância estratégica do Irã como exportador de petróleo e de armas?

O Irã está claramente mais dependente da China do que antes. A China tem consciência da importância estratégica do Irã e continua sendo seu principal consumidor de petróleo, com mais de 90% de suas exportações. Também tem sido essencial para contornar sanções em outros setores. A relação entre o Irã e a Rússia, hoje, surpreendentemente se tornou muito mais equilibrada. O Irã também se tornou um fornecedor de armamentos, tendo enviado aos russos drones essenciais na guerra contra a Ucrânia e outros sistemas de armas necessários para o poderio militar russo. Mas, mesmo mais dependente da China hoje, o Irã precisa da Rússia para, de alguma maneira, controlar as pressões norte-americanas.

Como os recentes protestos internos e o enfraquecimento do regime dos aiatolás têm facilitado a mudança desse cenário?

O regime certamente está mais fraco. Tem muito pouca legitimidade e depende da coerção. Os protestos prejudicaram a economia iraniana, o que foi mais um fator para tornar o país muito dependente da China. O regime não tem soluções para a crise econômica e pode enfrentar mais sanções, o que o faria entrar em um ciclo, ficando ainda mais dependente do mercado chinês, de mecanismos para contornar sanções e da cooperação com a Rússia.

Qual é o objetivo da China em se distanciar de Israel neste momento?

A China se voltou contra Israel porque associa Israel a um fantoche norte-americano, e parte de seu antagonismo com os EUA leva a esse distanciamento de Israel. No passado, os chineses necessitavam de tecnologias militares israelenses, mas não necessitam mais. Por ser o maior comprador de petróleo iraniano, a China utiliza isso para obter descontos significativos no petróleo que compra. Israel, neste cenário, é um parceiro comercial menor para a China.

Até que ponto o avanço dos Acordos de Abraão (aproximação diplomática entre Israel e alguns países árabes), de 2020, seria importante para Israel conter a influência da China na região?

As relações comerciais da China  têm chegado a tal dimensão que fazem os Acordos de Abraão terem um impacto mínimo sobre sua posição na região. Tanto os sauditas quanto os Emirados Árabes Unidos vendem enormes quantidades de petróleo aos chineses, mais até do que o Irã, e têm grandes acordos econômicos com o país. Eles ainda precisam dos EUA, mas preferem jogar um jogo de equilíbrio entre os EUA e a China.

Isto quer dizer que a influência da China é irreversível e cabe a Israel encarar essa realidade?

Sim. A China é um grande ator econômico no Oriente Médio. Ao mesmo tempo que quer estar presente, ela se sente confortável com a ideia de que os EUA estejam profundamente envolvidos na região. Seu papel é ambíguo. O governo chinês não quer interferir na guerra, mas está ajudando o Irã a reconstruir suas capacidades militares. Não fez nada quando os houthis no Iêmen interromperam o transporte marítimo no Mar Vermelho. Os Acordos de Abraão tiveram como objetivo principal conter a influência iraniana, não a influência chinesa e, portanto, têm pouco impacto sobre o papel da China. A presença da China já é uma realidade.

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