publicidade
Estudantes exibem uma faixa aérea com os dizeres "Harvard odeia judeus" sobre o campus da Universidade de Harvard em Cambridge, Massachusetts, EUA, em 7 de dezembro de 2023, enquanto líderes de diversas universidades são criticados pelas comunidades judaicas de suas instituições pela forma como lidaram com os confrontos entre grupos pró-Israel e pró-Palestina desde o ataque do Hamas a Israel em 7 de outubro | Foto: Reuters/Faith Ninivaggi
Edição 310

O lado sinistro do Catar (parte 3)

Estratégia para firmar posição no mundo inclui verbas para universidades americanas

A ofensiva do Catar para impulsionar suas narrativas e desidratar o apoio dado a Israel e a seus rivais árabes do Oriente Médio inclui algumas das principais universidades dos EUA. De acordo com um levantamento produzido pelo Instituto de Pesquisas e Relacionamento Contagion (NCRI, na sigla em inglês), o Catar foi o maior doador estrangeiro das universidades americanas entre 1986 e 2024.

Segundo o estudo, realizado com base em dados do Departamento de Educação dos EUA, que tem de receber informações das doações estrangeiras às instituições superiores a US$ 250 mil, os aportes do país, viabilizados por meio da Fundação do Catar e do Fundo Nacional de Pesquisa do Catar, chegaram a US$ 6,3 bilhões no período.

O Catar liderou o ranking à frente da China, com US$ 5,6 bilhões, e da Arábia Saudita, com US$ 3,7 bilhões. Só entre 2021 e 2024, as doações do Catar alcançaram mais de US$ 2 bilhões, o equivalente a cerca de um terço de todas as contribuições feitas pelo país em quase quatro décadas, sinalizando uma aceleração considerável dos aportes nos últimos anos.

Boa parte das doações foi feita para viabilizar a instalação dos campi de seis universidades americanas — Georgetown, Carnegie Mellon, Texas A&M, Northwestern, Virginia Commonwealth e Cornell (Faculdade de Medicina Weill Cornell) — na chamada Cidade da Educação, localizada nos arredores de Doha, que se propõe a reunir escolas e centros de pesquisa de prestígio internacional.

Incluem-se nesse total doações de US$ 894 milhões para a Universidade de Harvard e de cerca de US$ 400 milhões para a Universidade de Yale, duas das principais instituições de ensino dos EUA. Nos dois casos, boa parte das doações só se tornou pública depois que investigações do Departamento de Educação em 2020 apontaram subnotificações significativas nas contribuições de países estrangeiros para as duas instituições.

Edifício histórico e campus da Universidade de Yale no centro de New Haven, CT, EUA | Foto: Shutterstock

“Isto não é apenas uma questão financeira, é uma crise de segurança nacional”, diz o psicólogo e neurocientista Joel Filkelstein, cofundador do NCRI, na reportagem do site The Free Press. “Potências hostis estão comprando influência nos campi universitários americanos em escala industrial.”

Alguns dos think tanks mais renomados dos EUA também receberam doações vultuosas do Catar como forma de influenciar, segundo seus críticos, a atuação dessas instituições. No total, as doações do país a centros de estudos americanos chegaram a pelo menos US$ 9 milhões entre 2019 e 2023. Segundo registros públicos, a Instituição Brookings, que abriu uma base no Catar em 2008, recebeu US$ 6 milhões no período; o Centro Stimson, US$ 2,3 milhões; o Instituto do Oriente Médio, US$ 380 mil; e a Rand Corporation, US$ 300 mil, todos com sede em Washington.

Num horizonte mais longo, entre 2007 e 2022, só a Brookings, que produziu inúmeros eventos favoráveis ao Catar, conforme alguns analistas, recebeu US$ 30 milhões do país, o maior doador da entidade, colocando em xeque sua independência como órgão de debate e pesquisa de temas globais.

Até nas escolas de ensino básico dos Estados Unidos, as K12, o Catar infiltrou seus tentáculos, investindo milhões de dólares em programas de ensino de árabe e de “intercâmbio cultural”. A iniciativa, que incluiu 8 mil escolas e foi efetivada por meio da Fundação do Catar, também gerou muitos questionamentos sobre a influência adquirida pelo país na formação dos alunos nos EUA.

Ilustração: Shutterstock

Efeitos colaterais

À primeira vista, as generosas doações do Catar às universidades americanas podem parecer algo que só traz benefícios às instituições e à comunidade acadêmica. Os efeitos colaterais das contribuições bilionárias do Catar, contudo, logo começaram a aparecer.

Pelo menos quatro das instituições que mais receberam suas doações — Georgetown, Virginia Commonwealth, Texas A&M e Carnegie Mellon — concederam nos últimos anos o título de doutor honoris causa para a xeica Moza, responsável pela fundação que financia os projetos do país na área educacional. Entre as justificativas dadas para a concessão da honraria, figuraram “seu trabalho na promoção da educação no Oriente Médio” e “suas iniciativas globais de desenvolvimento, como a Cidade da Educação”.

Na comemoração dos 20 anos do campus da Universidade Georgetown no Catar, em abril de 2025, a xeica recebeu também a Medalha do Presidente concedida pela instituição. Trata-se de uma honraria que, como afirmou Robert Groves, presidente interino na época, seria “reservada aos indivíduos cujas contribuições refletem o compromisso mais profundo da universidade”.

Numa outra frente, uma pesquisa divulgada em 2024 pelo Instituto para o Estudo do Antissemitismo Global e de Políticas (ISGAP, na sigla em inglês) identificou uma forte correlação entre as universidades que receberam essa enxurrada de dólares do Catar (e de outros países) e o aumento do antissemitismo e do sentimento anti-Israel nos campi, principalmente após os atentados promovidos pelo Hamas em Israel em 2023. “É a maior operação de influência estrangeira na história acadêmica dos Estados Unidos”, afirma Charles Asher Small, diretor do ISGAP. “E está funcionando.”

Uma parceria firmada entre a base da Faculdade de Jornalismo da Universidade de Northwestern no Catar e a Al Jazeera, que incluía estágios, visitas a estúdios da emissora e projetos conjuntos, além da realização de palestras e workshops com seus profissionais, foi outra iniciativa que acabou gerando fortes questionamentos nos EUA.

Vista do campus da Northwestern University, no Catar, no complexo da Cidade da Educação, lançado pela Fundação do Catar Foundation em Doha, Catar | Foto: Shutterstock

Um relatório produzido pela Coalizão Contra o Antissemitismo da Northwestern (CAAN, na sigla em inglês) apontou que dois terços dos palestrantes da Al Jazeera expressaram apoio ao terrorismo islâmico, “demonizaram” Israel ou deram suporte ao movimento Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS) — uma campanha global que preconiza o isolamento político, econômico, acadêmico e cultural de Israel.

Resultado: após a divulgação do relatório, que trazia um alerta sobre o impacto que isso teria na credibilidade da universidade, as críticas e a pressão política se tornaram tão intensas que a Northwestern acabou encerrando a parceria em julho de 2024 e parou de aceitar novos alunos.

Já Texas A&M anunciou em fevereiro de 2024 que encerrará totalmente as suas atividades no Catar até 2028. A universidade, reconhecida pelas áreas de engenharia, em especial a ligada ao setor de petróleo, veterinária e agronomia, alegou que a “crescente instabilidade no Oriente Médio”, principalmente após a guerra Israel e Hamas, tornou a manutenção do campus no país um risco logístico e de segurança e decidiu concentrar sua atuação nos EUA.

Nas instituições beneficiadas pelas doações do Catar, houve ainda, de acordo com relatos dos profissionais atingidos e investigações independentes, o silenciamento de críticas ao país, a interferência em currículos e programas acadêmicos, a censura a palestrantes que questionam sua atuação e a propagação de valores antidemocráticos.

Relatórios internos vazados em 2024 mostram que os Departamentos de Estudos do Oriente Médio de 17 universidades americanas receberam ordens implícitas para não criticar o Catar nem a Irmandade Muçulmana.

Professores que falam demais, conforme os desafetos do país, são excluídos de eventos acadêmicos ou perdem os financiamentos para suas pesquisas. Em 2018, o campus da Universidade de Georgetown em Doha teve de cancelar um debate estudantil que discutiria se Deus deveria ser retratado como uma mulher, depois da forte repercussão negativa que a iniciativa teve na mídia e nas redes sociais em árabe.

Em 2021, uma professora da Texas A&M, segundo relatos de colegas e alunos da universidade, não teve seu contrato renovado por fazer postagens pró-Israel no antigo Twitter (atual X). Em 2015, um livro escrito pela professora Mohanalakshmi Rajakumar, da Universidade de Georgetown, intitulado O amor vem depois, no qual ela conta a história de dois primos do Catar envolvidos num casamento arranjado, já fora banido no país, sem justificativa oficial.

No projeto implementado pelo Catar em escolas de ensino básico dos EUA, alguns materiais didáticos apresentaram erroneamente Israel como Palestina. Na parede de uma sala de aula tinha um mapa do “mundo árabe” que omitia Israel, gerando críticas ao viés ideológico da iniciativa e ao seu impacto na educação dos estudantes.

Espionagem

Quem não reza pela cartilha do Catar no mundo político, na academia e na mídia acaba, muitas vezes, tornando-se alvo de perseguições e ameaças, dentro e fora do país. Ao menos é o que indicam os casos que ganharam destaque na imprensa, alimentando a percepção de que não há limites para o Catar garantir seus interesses, como dizem seus críticos.

Em outubro de 2025, num evento internacional sobre esportes realizado na Finlândia, o ex-responsável pela assessoria de imprensa do comitê organizador da Copa no Catar, Abdullah Ibrahis, revelou que o órgão produziu perfis sigilosos de jornalistas estrangeiros, classificando-os como “amigáveis” ou “problemáticos”, conforme o caso, para controlar a cobertura da mídia.

Sinal da Copa do Mundo FIFA Qatar 2022, em Doha, Catar (20/4/2025) | Foto: Shutterstock

Segundo Ibrahis, que passou anos na prisão e só foi libertado em 2025, por acusações que sofreu depois de se recusar a encobrir os abusos sofridos por trabalhadores estrangeiros no Catar, os jornalistas que “cooperavam” eram premiados com acesso a áreas restritas e entrevistas exclusivas. Os que criticavam o país eram tratados a pão e água. Na sua visão, “a Copa nunca foi sobre esportes; foi uma campanha de US$ 300 bilhões destinada a redesenhar a imagem do Catar no Ocidente”.

Também em outubro, o senador republicano Randy Fine, ligado a Trump, recebeu uma carta do embaixador do Catar em Washington repreendendo-o por ter aparecido no programa da jornalista Laura Loomer, para falar sobre a “nefasta influência” do país nos EUA e sobre o projeto de banimento da Sharia (a lei islâmica) em território americano, que está em tramitação no Congresso.

A reação gerada pela carta, cujo fac-símile foi publicado no X por Loomer, que antes atuou nos sites conservadores Project Veritas e InfoWars, levou a embaixada a fazer uma publicação oficial dizendo que havia procurado o deputado para “abrir um diálogo direto com ele e esclarecer os fatos”, depois de vê-lo propagando “desinformação” no programa. “Eu não sou um judeu com os joelhos tremendo. Eles vão ver isso em breve”, afirmou Fine, em comentário feito no próprio post de Loomer.

Até às acusações de envolvimento em operações de vigilância e espionagem contra políticos, empresários, advogados e jornalistas, que ameaçam seus interesses nos EUA, o Catar já teve de responder. As acusações vieram à tona a partir de processos movidos na Justiça americana pelo empresário Elliott Broidy, grande doador do Partido Republicano e aliado de Trump, e pelo jornalista Jay Solomon, autor de várias reportagens críticas ao Catar quando trabalhava no Wall Street Journal e um dos autores da reportagem sobre as ações implementadas para ampliar a influência do país nos EUA, publicada pelo site The Free Press.

O processo de Solomon, movido em 2022 e encerrado em 2023 por meio de um acordo extrajudicial cujos termos não foram divulgados, não acusava diretamente o Catar. Solomon alegava, porém, que o escritório de advocacia Dechert LLP e seus parceiros contrataram hackers na Índia, em nome de clientes ligados ao Catar ou de entidades relacionadas a eles, para roubar e divulgar e-mails que ele havia trocado com o empresário iraniano-americano Farhad Azima, para prejudicar sua carreira e provocar sua demissão.

Jay Solomon | Foto: Reprodução X/@jaysolomon

Os e-mails revelaram que Solomon havia considerado entrar numa parceria comercial com Azima, que era uma de suas fontes de informação. A parceria nunca se concretizou, mas a mera discussão do assunto violava as políticas éticas do Wall Street Journal e ele acabou deixando a publicação, depois do vazamento dos e-mails e de sua ampla divulgação nos EUA.

No caso de Broidy, o processo de espionagem foi movido diretamente contra o Catar e a Global Risk Advisors, uma empresa de inteligência privada fundada por um ex-agente da CIA. O empresário alegava que a Global Risk havia sido contratada para promover um ataque hacker contra ele, por sua oposição ao Catar e seu apoio à Arábia Saudita e aos Emirados Árabes, principais rivais do país no mundo árabe.

Iniciada em 2018, a ação também terminou com um acordo extrajudicial entre as partes, firmado dois anos depois, cujos termos não foram igualmente divulgados. Apesar de o Catar ter sido incluído como réu no processo de Broidy, as acusações ficaram prejudicadas devido à chamada “imunidade soberana”, que impede um país de ser processado nos tribunais de outro, sem seu consentimento.

É realmente surpreendente que um pequeno país do Golfo Pérsico consiga provocar tanta celeuma pelo papel geopolítico que desempenha e pelas ações controversas que realiza para aumentar sua influência na arena global, especialmente nos Estados Unidos, e conter as críticas de seus desafetos. Não é por acaso que o “lado B” do Catar, apesar de pouco conhecido no Brasil, gera tanta discussão lá fora.

Diante da gravidade das acusações feitas contra o país, porém, esse lado sinistro merece ser acompanhado mais de perto aqui também. Por trás do futebol, da Qatar Airways e da arquitetura inovadora de Doha, um outro país, que pouco tem a ver com a imagem polida que se tem dele no Brasil, revela seus contornos sombrios.

Leia também “O lado sinistro do Catar (parte 1)” e “O lado sinistro do Catar (parte 2)”

Leia mais sobre:

1 comentário
  1. Teresa Guzzo
    Teresa Guzzo

    Li as três partes partes de sua excelente série sobre o Catar. País pequeno mas muito poderoso, faz um jogo ambíguo entre EUA e paises intimamente ligados à grupos terroristas islâmicos. Rico ,explora trabalhadores imigrantes de paises pobres e compra poder e influência em Democracias como EUA, lançando seus poderosos tentáculos para influenciar corações e mentes.Nunca vi tanto dinheiro finananciando universidades americanas .São bilhões de dólares ,explica o apoio massivo desses estudantes a grupos como o Hamas e outros.Fica aqui a questão moral,vale a pena vender-se ?

Anterior:
O país do esgoto
Próximo:
Tirania digital
publicidade