Em um tempo não muito distante, o Irã era socialmente muito mais vibrante, liberal e secular do que é hoje. Antes da Revolução Islâmica de 1979, o país era governado por Mohammad Reza Pahlavi, o último xá da dinastia Pahlavi. Seu reinado de quase 40 anos (1941–1979) foi marcado por um projeto ambicioso de modernização econômica e social, aliado a um regime político autoritário.
Na década de 1960, o xá lançou a chamada Revolução Branca, um conjunto de reformas que incluía redistribuição de terras, expansão da educação pública, incentivo à industrialização e concessão de direitos às mulheres, como o voto (introduzido em 1963). O governo também investiu fortemente em infraestrutura, saúde e urbanização. Com o aumento expressivo das receitas do petróleo nos anos 1970, o país viveu rápido crescimento econômico e passou por intensa modernização, especialmente em grandes cidades como Teerã.
Havia crescimento de universidades, cinemas, cafés, empresas privadas e infraestrutura moderna. A elite urbana vivia de forma semelhante a padrões europeus ou norte-americanos, com acesso à moda ocidental, música internacional e maior liberdade social. Mulheres das classes média e alta, especialmente em centros urbanos, podiam frequentar universidades, ingressar no mercado de trabalho, vestir-se com saias curtas e sem véu (o uso não era obrigatório), além de participar da vida cultural e social.



O Irã mantinha relações estreitas com os Estados Unidos e países europeus, sendo considerado um aliado estratégico do Ocidente no contexto da Guerra Fria. O país adotava um modelo de desenvolvimento fortemente influenciado por padrões ocidentais, tanto na economia quanto nos costumes urbanos de parte da população.
Entretanto, o período também foi caracterizado por repressão política. A temida polícia secreta do regime, a Savak, era responsável por monitorar, prender e interrogar opositores. Partidos políticos tinham atuação limitada e críticas ao governo eram frequentemente reprimidas. A concentração de poder nas mãos do xá e as desigualdades sociais geradas pelo crescimento acelerado provocaram insatisfação em diferentes setores da sociedade, incluindo religiosos, intelectuais, estudantes e trabalhadores.

Além disso, parte do clero xiita se opunha às reformas do xá, considerando-as excessivamente ocidentais e contrárias aos valores islâmicos tradicionais. Essa oposição religiosa ganhou força ao longo dos anos 1970, especialmente em meio à inflação, ao desemprego e à percepção de corrupção no governo.
Esses fatores — modernização rápida, autoritarismo político, desigualdade social e tensões culturais — criaram um ambiente de crescente instabilidade. Em 1979, após meses de protestos massivos, greves e confrontos, o xá deixou o país, abrindo caminho para a Revolução Islâmica que transformaria profundamente o sistema político e social iraniano.
Assim, o Irã deixou de ser uma monarquia e tornou-se uma república teocrática. A nova Constituição, aprovada no fim de 1979, estabeleceu o princípio do Velayat-e Faqih (“governo do jurista islâmico”), que concede autoridade suprema a um líder religioso. O aiatolá Ruhollah Khomeini tornou-se o primeiro Líder Supremo, posição com amplos poderes sobre as Forças Armadas, o Judiciário, a mídia estatal e decisões estratégicas do país.

Embora eleições para presidente e parlamento tenham sido mantidas, candidatos são previamente avaliados por órgãos religiosos, como o Conselho dos Guardiães, o que limita a pluralidade política.
A legislação passou a ser baseada na interpretação xiita da lei islâmica (Sharia) e isso afetou diversas áreas:
- Implementação obrigatória do uso do hijab para mulheres em espaços públicos.
- Separação mais rígida entre homens e mulheres em determinados ambientes.
- Reformulação do direito de família e das normas de comportamento social.
- Introdução de punições baseadas na lei islâmica para certos crimes.
Universidades passaram por um processo conhecido como “Revolução Cultural”, com revisões curriculares e afastamento de professores considerados contrários ao novo regime, que adotou uma postura declaradamente antiocidental e passou a defender a exportação de sua revolução para outros países da região.
A Revolução Islâmica não foi apenas uma troca de governo, mas uma transformação estrutural do Estado iraniano — substituindo uma monarquia secular e pró-Ocidente por uma república teocrática baseada na autoridade religiosa, redefinindo o papel da religião na política e reposicionando o país no cenário internacional.

Daniela Giorno é diretora de arte de Oeste e, a cada edição, seleciona uma imagem relevante na semana. São fotografias esteticamente interessantes, clássicas ou que simplesmente merecem ser vistas, revistas ou conhecidas.
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Havia corrupção na monarquia do Xá que necessitava de mudanças, mas a “tomada de poder” dos que pretendiam um regime teocrático, fez com que o aiatolá Khomeini radicalizasse com a islamização, sendo a semente da barbárie que se vê hoje, com milhares de mortes fratricidas que nem precisam de motivos.
Aonde não existe corrupcao hoje em dia?
A monarquia iraniana não era um exemplo a ser seguido, mas o que veio após a revolução islâmica é contra tudo o que existe de civilizado.