No último domingo, na Marquês de Sapucaí, a escola de samba Acadêmicos de Niterói transformou seu desfile no Grupo Especial em um gesto político explícito. O enredo homenageava o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e tentou exaltar sua trajetória, mas trouxe consigo um espetáculo marcado pelo desrespeito e pela caricatura de adversários políticos.
Na avenida, uma das alas mais comentadas foi batizada de “neoconservadores em conserva”, com integrantes fantasiados como latas estampadas com imagens que remetiam a famílias tradicionais, evangélicos e outros grupos associados ao conservadorismo.
O Carnaval sempre foi espaço de crítica e irreverência. A tradição das escolas de samba inclui sátira política, denúncia social e provocações simbólicas — nada disso é novo. A ala foi apresentada como “crítica, ironia ou sátira”. Símbolos, contudo, nunca são inocentes.
A caricatura transforma complexidades humanas em rótulos simplificados. Uma lata sugere algo fechado, ultrapassado, homogêneo. A metáfora visual comunica mais do que ironia; estabelece um enquadramento moral. Ao reduzir adversários políticos a objetos embalados, consolida-se a ideia de um grupo uniforme, impermeável ao diálogo e destituído de interioridade. Quando cidadãos passam a ser representados como coisas, o debate deixa de ser mera divergência e adentra a esfera da desumanização. O impacto dessa representação ultrapassa a avenida. Não se trata de melindre ideológico. Trata-se de algo mais profundo: o reconhecimento da dignidade do outro como cidadão.
A política contemporânea vive de símbolos. Eles moldam percepções, organizam emoções e influenciam comportamentos. A desumanização raramente começa com atos extremos; ela costuma surgir em imagens aparentemente leves, que retiram do outro a condição de sujeito complexo.
As latinhas americanas
A história recente oferece um paralelo eloquente. Em 2016, durante a campanha presidencial norte-americana, Hillary Clinton descreveu parte dos eleitores de Donald Trump como um “basket of deplorables” — um cesto de deploráveis. A expressão marcou o debate público não apenas pelo conteúdo, mas pelo tom. Milhões de cidadãos perceberam-se classificados como moralmente inferiores.
A reação não se limitou à indignação momentânea. Ela se converteu em mobilização política. Naquele mesmo ano, Donald Trump venceu a eleição de 2016 em um movimento amplo, surpreendente e inesperado para grande parte do establishment político e da imprensa. Anos depois, retornaria à Casa Branca com uma vitória robusta em 2024, também impulsada por um aumento significativo dos eleitores cristãos. O episódio demonstrou que o desprezo possui força mobilizadora própria. Ele cria coesão entre aqueles que se percebem alvo de escárnio.
O voto tem dimensão programática, econômica e ideológica. Mas também possui dimensão simbólica. Ele afirma pertencimento e dignidade. Pessoas podem tolerar derrotas políticas. Podem suportar reformas com as quais discordam. O que não suportam indefinidamente é serem tratadas como caricaturas descartáveis.
No Brasil contemporâneo, atravessamos algo semelhante. A polarização deixou de ser apenas divergência programática e passou a assumir contornos morais absolutos. De um lado, iluminados; de outro, atrasados. De um lado, conscientes; de outro, ignorantes. O espaço intermediário, onde a maioria silenciosa costuma habitar, vem sendo comprimido.
Para milhões de brasileiros, essa dinâmica ganha contornos específicos. A caricatura de famílias tradicionais como latas de conserva foi vista por muitos como insulto não só político, mas religioso e moral — um ataque à própria noção de fé e valores que sustentam amplos segmentos da sociedade. Essa reação levou muitos a questionarem se o Carnaval foi utilizado como palanque antecipado, não apenas para um candidato, mas contra uma identidade cultural.
Esse enquadramento simplifica um país plural. O Brasil abriga milhões de cidadãos que valorizam família, fé, tradição, autoridade, e que participam da vida democrática com convicções legítimas. Tratá-los como caricatura reforça uma percepção de exclusão cultural.
Retratar conservadores como latas não é apenas uma piada carnavalesca. É parte de um método mais amplo. Nos últimos anos, tornou-se comum descrever o conservador como retrógrado, anticientífico, autoritário, moralmente suspeito. A caricatura substitui a complexidade. É mais confortável combater um estereótipo do que dialogar com um ser humano real.
Quando instituições culturais — escolas, universidades, meios de comunicação, entretenimento — passam a tratar um grupo inteiro como objeto de escárnio, deixam de exercer crítica e passam a promover exclusão simbólica. E exclusão simbólica costuma preceder fraturas mais profundas.

A juventude como termômetro
Observa-se, nos últimos anos, um movimento geracional interessante. Parte da juventude, exposta a discursos radicais e a uma atmosfera cultural marcada por permanente desconstrução, demonstra fadiga. Em diversos países ocidentais, jovens têm buscado referências mais estáveis, inclusive religiosas. Igrejas que vinham registrando declínio prolongado passaram a observar sinais de renovação entre segmentos juvenis.
A busca por sentido, ordem e pertencimento revela inquietação diante de um cenário percebido como instável. O fenômeno não pode ser reduzido a modismo ideológico. Ele expressa uma necessidade humana elementar: encontrar âncoras em meio à fluidez contemporânea.
Quando instituições culturais tratam convicções tradicionais como atraso ou motivo de escárnio, fortalecem a sensação de deslocamento. Esse deslocamento alimenta reações políticas que surpreendem analistas e desorganizam prognósticos
Historicamente, sociedades que sobreviveram a grandes conflitos internos encontraram modos de preservar a dignidade do adversário político como cidadão legítimo. Não por ingenuidade, mas por pragmatismo cívico. A decepção com estereótipos e desumanizações pode gerar uma contramobilização, precisamente porque democracia não é apenas a soma de votos: é a soma de reconhecimentos mútuos.
O Brasil precisa decidir que tipo de diálogo deseja cultivar. A liberdade de expressão inclui o direito de provocar e ironizar. Também implica responsabilidade quanto aos efeitos culturais dessas escolhas.
A cultura nacional sempre se orgulhou de sua capacidade de integrar diferenças. O samba nasceu da mistura, da convivência, da criatividade coletiva. Ele floresceu como linguagem comum. Quando se converte em instrumento de segmentação, perde parte dessa vocação integradora.
Roger Scruton e o Sambódromo
No fim, a pergunta não é apenas quem ganhou ou perdeu no Sambódromo, mas que tipo de sociedade estamos construindo quando tratamos uns aos outros como latas a serem expostas, em vez de cidadãos a serem respeitados.
A obra de pensadores como Roger Scruton insistiu na importância da lealdade ao que foi herdado. Cuidar da herança cultural significa preservar instituições e costumes que sustentam a convivência. Entre esses costumes está o respeito no dissenso. A ridicularização constante corrói esse costume. A vida pública ensina que elevações e quedas raramente são acidentais no plano simbólico. Sociedades avaliam não apenas a técnica, mas o espírito.

Respeito não é concessão retórica. É fundamento estrutural. Ele sustenta a possibilidade de divergência sem ruptura. Em tempos de tensão, maturidade consiste em reconhecer que o adversário compartilha o mesmo espaço cívico. A democracia exige mais do que vitória. Exige convivência.
A imagem que permanece não é apenas a da ala das latas. É a da escola deixando o Grupo Especial. Há ironias que dispensam comentários extensos. Talvez a lição deste Carnaval esteja menos na coreografia e mais na consciência. Quando o respeito perde posição, todo o desfile se fragiliza. E a democracia, diferentemente de uma escola de samba, não possui grupo inferior para onde descer sem custo coletivo.
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Bom dia Ana, que lhe seja serena, como são suas posições. Chamou-me a atenção nesta questão das (dos) “conservas” é que a “latinha” traz as cores da Ucrânia. E depois dizem que o desastre ambulante que foi este desfile não tinha condão político. Sei, sei!
Ana, seus textos estão primorosos! Cada vez mais muito bem elaborados! Impressionante a evolução de seus artigos. Parabéns por se exceder em tudo que vc se propõe!
Eu me emociono quando leio Ana. Tudo que esta mulher resolvesse fazer na vida ela iria ser excepcional
Será que o Ministério Público vai tomar alguma medida contra os desrespeitos aos nossos valores?
Outra coisa, a Ministra Carmen Lúcia não proibiu a asquerosa exibição, notoriamente ofensiva à legislação (não só eleitoral), porque, então, não havia acontecido. Por que não teve o mesmo raciocínio a respeito da alegada tentativa de golpe contra o Estado de Direito?
Aliás, no que se refere ao golpe, que não houve, nem se tentou, pelo que pesquisei, houve uma minuta, assim dispondo:
Art. 1º Fica decretado, ……., o Estado de Defesa na sede do Tribunal Superior Eleitoral, em Brasília, Distrito Federal,
COM O OBJETIVO DE GARANTIR A PRESERVAÇÃO OU O PRONTO RESTABELEBIMENTO DA LISUA E CORREÇÃO DO PROCESSO ELEITORIAL PRESIDENCIAL do ano de 2022, no que pertine à sua conformidade e legalidade, as quais, uma vez descumpridas ou não observadas, representam grave ameaça à ordem pública e a paz social.
Fernanda Montenegro deve ter lembrdo de alguma frase dela…
A confusão entre a filha do Lula e a Janja mostra o que a esquerda quer da famíia: brigas e guerras que levam até a morte.
A escola não caiu porque agiu mal, Ela caiu apenas porque foi incompetente, se apresentou mal, não moralmente, mas tecnicamente naquilo que que os “jurados” esperam de uma escola de samba. Não há moral nisso. Não caiu por ser corrupta, caiu porque atravessou o samba.
Apenas houve a junção das afinidades: lugar de lixo é no lixo e gambá cheira gambá! Simples assim! Tinha que cair porque além de muito ruim, homenageou outro imprestavel!