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O presidente Donald Trump participa de uma reunião bilateral com o emir do Estado do Catar, Sheikh Tamin bin Hamad Al Thani, no Amiri Diwan em Doha, Catar (14/5/2025) | Foto: Casa Branca/Daniel Torok
Edição 309

O lado sinistro do Catar (parte 2)

O país não poupa recursos para fortalecer seu soft power

Em maio de 2025, o presidente americano fez uma visita cordial ao país, quando foi recebido com toda a pompa pelo emir, levando analistas a apontar que o poderoso lobby do Catar havia alcançado também a Casa Branca de Donald Trump. Na ocasião, o país anunciou a compra de 210 aviões Boeing 787 e 777X pela Qatar Airways, no valor de US$ 200 bilhões, além de um compromisso de investimento de US$ 1,2 trilhão nos EUA, sem prazo definido, nas áreas industrial, energética, de inteligência artificial e de semicondutores.

Sem qualquer constrangimento, Trump aceitou uma oferta do emir para lhe fornecer gratuitamente um Boeing 747-8 de luxo, avaliado em US$ 400 milhões, para ser usado como o próximo Air Force One, o avião presidencial americano, até a entrega dos dois novos modelos da companhia encomendados pelo governo dos EUA, prevista para 2027.

A aceitação do “presente” por Trump se tornou alvo de críticas dos democratas e até de aliados, pelo conflito de interesses existente na operação e pelo risco que o uso do avião pode representar à sua segurança, mas ele não se fez de rogado. “Acho que é um gesto fantástico do Catar. Agradeço muito”, afirmou. Para ele, só “uma pessoa estúpida” recusaria a oferta de “um avião gratuito e caríssimo”, como o que lhe foi oferecido pelo emir, chamado de “palácio do céu” e “cavalo de troia voador” por seus críticos. A aeronave, que está passando por adaptações antes de ser entregue a Trump, deverá ser doada à  biblioteca presidencial após o término de seu mandato.

Boeing 747-8 VQ-BSK, voo da Qatar Amiri, no Aeroporto de Zurique (2015) | Foto: Wikimedia Commons

“Os ‘acenos’ do Catar para Trump levantaram suspeitas dos dois lados do espectro político”, afirmou o escritor e jornalista Douglas Murray, autor do recém-lançado Sobre democracia e cultos da morte: Israel, Hamas e o futuro do Ocidente, em sua coluna no jornal New York Post. “Como informou o Post, o jato do Catar pertencia ao ex-primeiro-ministro do país, o xeique Hamad bin Jassim bin Jaber al-Thani. Suas iniciais — HBJ — estão até no número de registro da aeronave. Espero que (antes de Trump usar o avião) a CIA (agência de inteligência americana) faça pelo menos uma varredura em busca de escutas.”

A aproximação com o Catar acabou trazendo à tona uma parceria firmada com o país pela Trump Organization, o grupo empresarial do presidente americano, que impulsionou novas acusações de conflito de interesses. A parceria, formalizada por meio da Qatari Diar, a estatal de desenvolvimento imobiliário do país, prevê a construção de um campo de golfe e de um condomínio de alto luxo nas imediações de Doha pelas duas empresas, envolvendo investimentos estimados em até US$ 5,5 bilhões.

“É claro que nada é de graça”, diz a reportagem sobre o Catar publicada pelo site The Free Press, assinada pelos jornalistas Frannie Block e Jay Solomon, que trabalhou por 24 anos no Wall Street Journal e foi seu principal repórter na área de política externa e segurança nacional, de 2008 a 2017. “O que o Catar espera alcançar em Washington com sua estratégia perdulária é assegurar a fidelidade dos Estados Unidos a Doha em detrimento de outras potências do Golfo, como a Arábia Saudita e os Emirados Árabes, ao mesmo tempo em que neutraliza a capacidade americana de responder às ameaças islâmicas.”

Soft power

A metamorfose de Trump ilustra de forma emblemática como o Catar consegue navegar com relativa desenvoltura na arena global e impulsionar suas narrativas no Ocidente. O país não poupa recursos para fortalecer seu soft power (“poder suave”), com investimentos bilionários nas áreas política, econômica, educacional, cultural, artística, de comunicação e esportiva.

O presidente Donald Trump caminha em direção ao Air Force One com o emir do Catar, xeique Tamin bin Hamad Al Thani, na Base Aérea de Al Udeid (15/05/2025) | Foto: Casa Branca/Daniel Torok

“A estratégia do Catar não é de dominação, mas de acesso aos tomadores de decisão, à mídia e à academia, para garantir que a sua voz seja ouvida e que os seus interesses sejam protegidos”, diz o pesquisador Kristian Coates Ulrichsen, do Instituto Baker para Políticas Públicas, ligado à Universidade Rice, dos EUA, numa reportagem publicada anos atrás pelo jornal The New York Times, mas que continua atual.

Nem Israel escapa das investidas do Catar para ampliar sua influência pelo mundo. De acordo com uma reportagem publicada pelo jornal The Times of Israel, baseada em investigações realizadas pelo Shin Bet (agência de inteligência israelense), o Catar pagou um total de US$ 10 milhões para assessores de Netanyahu entre 2022 e 2024, para impulsionar uma imagem positiva do país em Israel — caso que ficou conhecido como Catargate. Só a empresa PR Perception, do ex-assessor e conselheiro de campanha de Netanyahu, Yisrael Einhorn, recebeu US$ 45 mil por mês do Catar no período, segundo as investigações mencionadas pelo jornal.

Nos Estados Unidos, o Catar promove, conforme o site The Free Press, uma das mais agressivas operações de lobby já efetuadas em todos os tempos. Como diz a reportagem do site sobre a atuação do país nos EUA, “todos os governos estrangeiros fazem lobby, mas o Catar se destaca pelo número de lobistas contratados, pelo valor que eles recebem, pela capacidade de atuar junto aos dois partidos políticos (o Republicano e o Democrata) e de alcançar grande parte da elite de Washington”.

As estimativas de gastos realizados pelo Catar para lustrar sua imagem e obter apoio político para suas causas variam conforme a fonte e a abrangência do levantamento. Mas os valores envolvidos revelam, de qualquer forma, a extensão de sua operação de lobby, em geral destinada a reforçar sua relação militar com os EUA, amparar sua atuação como mediador de conflitos como o de Israel com o Hamas e se contrapor às críticas de seus rivais no mundo árabe, especialmente a Arábia Saudita.

Foto: Shutterstock

Pelos cálculos do Fórum do Oriente Médio, feitos com base nos registros oficiais obrigatórios para agentes estrangeiros que atuam na área, o Catar gastou um total de US$ 71,5 milhões com operações de lobby, relações públicas (RP) e escritórios de advocacia nos EUA desde 2016 — uma média de US$ 8 milhões por ano. Já pelas contas do Free Press, que diz ter garimpado cada operação registrada de lobby e de empresas de relações públicas que informaram ao governo americano ter sido pagas pelo Catar, o total é bem mais alto. Chega a US$ 225 milhões desde 2017 ou a mais de US$ 25 milhões, em média, por ano.

Um levantamento do próprio governo americano apontou, conforme o Free Press, que, só em 2021, o Catar gastou cerca de US$ 50 milhões para contratar 35 lobistas e empresas de relações públicas com registro de agente estrangeiro no Departamento de Justiça. O valor, de acordo com o site, foi quase três vezes maior que o dispendido por Israel no período e cerca de dois terços do total gasto pela China. Ainda para efeito de comparação, os gastos dos Emirados Árabes no mesmo ano foram de US$ 35 milhões, e os da Arábia Saudita, de US$ 25 milhões.

“O Catar compra acesso aos nossos corredores do poder, enquanto financia terroristas do Hamas que buscam nossa destruição”, diz Gregg Roman, diretor-executivo do Fórum do Oriente Médio, no texto de apresentação do estudo realizado pela entidade sobre os investimentos do país nos EUA, intitulado “América à venda: a farra de gastos de US$ 40 bilhões do Catar compra influência e controle de instituições de elite”.

Alto escalão

No atual mandato de Trump, vários integrantes do alto escalão do governo americano tiveram envolvimento direto com o Catar ou com empresas de lobby e RP que trabalham ou trabalharam para o país, antes de assumirem seus cargos atuais. Isso talvez ajude a explicar também a aproximação de Trump com o Catar, apesar do apoio dado a Israel na maior parte do tempo.

A procuradora-geral Pam Bondi, por exemplo, que deu seu aval ao avião presenteado pelo Catar a Trump, garantindo não haver conflito de interesse na operação, foi sócia e lobista da Ballard Partners, uma firma de lobby que trabalhava para o Catar. Segundo o levantamento realizado pelo Fórum do Oriente Médio, a empresa recebia US$ 115 mil por mês do país para “lutar contra o tráfico humano”, quando o Catar era acusado de cometer abusos contra trabalhadores estrangeiros, antes da Copa de 2022.

A procuradora-geral dos Estados Unidos, Pam Bondi, discursando na Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC) de 2025, no Gaylord National Resort & Convention Center, em National Harbor, Maryland (20/02/2025) | Foto: Wikimedia Commons/Gage Skidmore

A chefe de gabinete de Trump, Susie Wiles, foi copresidente da Mercury Public Affairs, uma das maiores empresas americanas de lobby e RP, quando ela representava a embaixada do Catar em Washington. O diretor do FBI (polícia federal dos EUA), Kash Patel, também prestou serviços para a embaixada do Catar de 2021 a 2024, por meio de sua empresa, a Trishul LLC, especializada em consultoria de segurança nacional, defesa e inteligência. Mas, como revelado durante audiência realizada no Congresso antes de sua nomeação para o posto, ele não se registrou oficialmente como agente estrangeiro para realizar o trabalho para o país, o que lhe permite manter em sigilo o valor do contrato.

Já o conselheiro sênior de Trump, Steve Witkoff, seu amigo de longa data e enviado especial da Casa Branca para negociar a paz no Oriente Médio, na qual o Catar está envolvido, vendeu sua participação no problemático Park Lane Hotel, em Nova York, para o fundo soberano do país por US$ 623 milhões, em 2023.

De acordo com o estudo realizado pelo Fórum do Oriente Médio, parte da estratégia do Catar para ampliar sua influência e defender seus interesses no Capitólio se baseia na contratação de ex-congressistas americanos para atuar em seu favor. Conforme a pesquisa, diversos parlamentares antes críticos ao Catar acabaram mudando de posição depois de serem abordados pelos lobistas, visitarem o país a convite do governo e se encontrarem com autoridades locais para ouvir suas narrativas.

O ex-deputado democrata Jim Moran, que sempre foi um dos maiores críticos ao lobby de Israel como parlamentar, em especial do Comitê Americano-Israelense de Relações Públicas (AIPAC, na sigla em inglês), tornou-se, segundo o estudo, um dos principais lobistas do Catar junto ao Congresso americano.

O levantamento aponta que sua empresa, a Moran Global Strategies, firmou contratos com o Catar no valor total de US$ 1,7 milhão nos últimos dois anos. Parte do dinheiro foi para um escritório de advocacia subcontratado pela empresa, que recrutou ex-parlamentares republicanos para fazer o corpo a corpo com a bancada do partido de Trump na Câmara e no Senado dos EUA.

Foto: Shutterstock

Moran contribuiu de forma decisiva, de acordo com o Free Press, para ajudar o Catar a comprar um local privilegiado para abrigar a nova sede de sua embaixada em Washington. O imóvel, de 120 anos, construído no estilo belas artes, era sede da Instituição Carnegie para Ciência e não estava à venda. Acabou, porém, sendo comprado pelo Catar por US$ 65 milhões, cerca de três vezes mais do que seu valor de mercado. A venda, conforme o site, foi concretizada depois que Moran e outras pessoas próximas ao Catar passaram a noite contatando membros do conselho da entidade para convencê-los a apoiar a venda, como ele mesmo contou à revista Washingtonian.

Cabeça de Trump

Em 2018, no primeiro mandato de Trump, quando o lobby pró-Catar ganhou tração, The Wall Street Journal publicou reportagem sobre uma megaoperação montada durante o bloqueio imposto ao país no Golfo, que foi considerada uma inovação na área. Na época, Trump havia se alinhado com os rivais do Catar, chamando o país de “financiador do terrorismo”, e o objetivo declarado da operação era “restaurar as boas relações com os Estados Unidos” e levar o presidente americano a mudar sua posição em relação ao país.

Idealizada ironicamente por um restaurateur judeu de Nova York, com apoio de um lobista influente nas fileiras republicanas, e financiada pela embaixada do Catar nos EUA, a operação identificou e contatou 250 pessoas próximas a Trump, incluindo lideranças da comunidade judaica americana. Nas palavras do próprio restaurateur, que recebeu junto com o lobista US$ 3 milhões pela empreitada, conforme os registros oficiais, a ideia era criar uma campanha para “entrar na cabeça de Trump tanto quanto possível” por meio de influenciadores próximos a ele.

Entre os contatados pela dupla, ao menos duas dúzias, de acordo com a reportagem, aceitaram fazer uma viagem ao Catar com tudo pago para “conhecer melhor” o país e suas posições sobre as grandes questões do Oriente Médio. Fizeram parte do grupo o apresentador de rádio conservador John Batchelor e o consultor e ex-governador do Arkansas Mike Huckabee, que ganhou US$ 50 mil para participar do convescote.

No fim, o resultado da operação saiu melhor que a encomenda, levando até críticos do país a reconhecer os seus méritos e a uma mudança significativa na posição do presidente americano em relação ao Catar, que vem se consolidando no atual mandato. Em abril de 2018, Trump acabou recebendo o emir na Casa Branca e disse até na ocasião que ele era “um parceiro valoroso” e “um amigo de longa data”. Ao mesmo tempo, um projeto de lei que tramitava no Congresso para classificar o Catar como nação que apoia o terrorismo “subiu no telhado” e não desceu mais desde então.

O presidente Donald J. Trump cumprimenta o emir do Estado do Catar, Tamin bin Hamad Al Thani, na entrada do saguão da Ala Oeste da Casa Branca (09/07/2019) | Foto: Casa Branca/Shealah Craighead

Suborno na Europa

Algumas dessas empresas de lobby, RP e influência se envolveram em operações não registradas para o Catar, inclusive com o apoio de ex-conselheiros e aliados de Trump, principalmente durante o boicote promovido contra o país por seus vizinhos no Golfo, em seu primeiro mandato.

Para burlar a Lei de Registro de Agentes Estrangeiros (FARA, na sigla em inglês), segundo seus críticos, o Catar procurou fazer pagamentos para seus agentes por meio de ONGs, classificando as operações como “consultoria”, “relações governamentais” e “diplomacia pública”, em vez de considerá-las como lobby, dificultando a identificação das mesmas e um cálculo mais preciso dos valores gastos pelo país nos EUA.

Em 2016, um conselheiro da campanha de Trump firmou acordo para suspensão condicional de um processo instaurado contra ele, por não ter se registrado como agente estrangeiro ao realizar um trabalho destinado a “denegrir um dos rivais não identificados do Catar”, conforme relato da agência Associated Press. Depois, em 2021, um diplomata do país chegou a ser multado em US$ 8,2 milhões pelo Departamento de Justiça dos EUA, pela realização de atividades de lobby não registradas, feitas em nome de seu fundo soberano.

Na Europa, o Catar se viu envolvido num escândalo de corrupção que, como no caso de Israel, tornou-se conhecido como Catargate e gerou muita controvérsia. Revelado em dezembro de 2022, o imbróglio envolveu acusações de suborno em dinheiro e em presentes de luxo.

O principal objetivo, segundo as investigações, era impedir que o Parlamento Europeu tomasse decisões críticas a respeito das violações dos direitos humanos no país antes da Copa. Na época, foram realizadas 19 operações de busca e apreensão na Bélgica, na Itália e na Grécia, que levaram à prisão de oito pessoas e ao confisco de cerca de 1,5 milhão de euros em dinheiro vivo, que estava guardado em malas e escondido em imóveis dos envolvidos.

O caso — negado pelo Catar, que considera as acusações como  “infundadas” — envolveu, entre outros nomes, a então eurodeputada grega Eva Kaili, que ocupava uma das vice-presidências do Parlamento Europeu e acabou  destituída do cargo sob acusação de corrupção, lavagem de dinheiro e participação em organização criminosa. Envolveu também seu assistente e companheiro Francesco Giorgi, que confessou ter atuado como intermediário nas operações, e o então eurodeputado italiano Pier Antonio Panzeri, líder do grupo, que revelou em acordo de delação premiada ter recebido 4 milhões de euros por meio de ONGs.

Eva Kaili, em Debate no Espaço do Cidadão sobre o combate à corrupção na UE, no Parlamento Europeu, em Bruxelas (02/12/2014) | Foto: Wikimedia Commons

Kaili chegou a fazer um discurso no Parlamento Europeu elogiando o Catar como “líder em direitos trabalhistas”, enquanto Giorgi escreveu, ele mesmo, conforme as investigações, um discurso feito pelo ministro do Trabalho do Catar, Ali bin Samikh Al Marri, no Subcomitê de Direitos Humanos (DROI) da instituição, em novembro de 2022, poucos dias antes do início da Copa. Giorgi recebeu até instruções, assim como Panzeri, de acordo com as apurações, para viabilizar a remoção de trechos críticos à FIFA e ao Catar em relatórios produzidos pelo Parlamento Europeu.

Folha de pagamento

Além do lobby realizado junto a políticos e autoridades, o Catar dedica especial atenção à mídia — incluindo aí veículos de comunicação, jornalistas bem colocados, podcasters e influenciadores — para alavancar sua influência e conter danos à sua imagem no Ocidente, em particular nos Estados Unidos.

Em 2017, durante o bloqueio do Catar pelos seus vizinhos sunitas, o ex-primeiro-ministro Hamad bin Jassim bin Jaber Al Thani admitiu até o pagamento de “jabás” a jornalistas para moldar as narrativas políticas e defender o país de acusações de apoio a grupos islâmicos radicais, numa entrevista à Al Jazeera. “Tínhamos jornalistas em nossa folha de pagamento em muitos países”, afirmou Al Thani na ocasião.

Mais recentemente, logo depois do ataque do Hamas a Israel em 7 de outubro de 2023, o Catar promoveu uma forte campanha digital nos EUA. Segundo registros oficiais compilados pelo Free Press, o país investiu US$ 570 mil em ações para “alerta de marca”, US$ 170 mil no New York Times e na Clear Channel Outdoor, US$ 110 mil na controladora do Wall Street Journal, US$ 60 mil no Google e na Meta, que controla o Facebook, o Instagram e o WhatsApp, e US$ 70 mil na NJI Media, uma agência de publicidade especializada em assuntos públicos.

Desde 2024, com a eleição de Trump para seu segundo mandato, boa parte das ações do Catar na área passou a se concentrar nos veículos e nos profissionais ligados ao presidente americano e à direita. De acordo com informações publicadas pela revista Washington Examiner, com base nos registros oficiais das ações de lobby e de influência estrangeira feitos no Departamento de Justiça dos EUA, as ações com foco em veículos conservadores passaram de 10% do total entre 1º de janeiro e a eleição presidencial de 2024, ocorrida em 5 de novembro, para mais de 50% desde então.

O presidente Donald J. Trump se reúne com o emir e o primeiro-ministro do Catar a bordo do Air Force One durante uma escala para reabastecimento na Base Aérea de Al Udeid, a caminho da Ásia (25/10/2025) | Foto: Wikimedia Commons/Casa Branca

A recente investida na mídia conservadora, segundo os críticos do país, procura reforçar a estratégia já implementada no primeiro mandato de Trump, de mostrar que o Catar é um “parceiro confiável”, além de gerar divisão entre os principais aliados do presidente americano, que tradicionalmente têm uma posição mais próxima de Israel. Também tem o objetivo de alavancar narrativas favoráveis ao Catar e conter os apupos às suas ligações com grupos terroristas como o Hamas, que se multiplicaram depois dos atentados a Israel, principalmente entre os republicanos.

Catarlson

Em 2025, o caso que ganhou mais visibilidade entre as ações do Catar na mídia dos EUA foi o do jornalista conservador Tucker Carlson, ex-âncora do canal Fox News, hoje dono de sua própria plataforma de streaming, a TCN (Tucker Carlson Network), com 1,6 milhão de assinantes, e de seu próprio canal no YouTube, com cinco milhões de seguidores.

Chamado por seus críticos de “Catarlson”, por sua súbita guinada pró-Catar, ele realizou uma entrevista considerada “muito amigável” com o primeiro-ministro do país, Mohammed bin Abdulrahman bin Jassim Al Thani, em março de 2025. Na entrevista, ele fez perguntas pré-aprovadas, reforçou narrativas anti-Israel e não questionou as ligações do Catar com o terrorismo islâmico, que costumava criticar duramente até pouco tempo atrás.

Ao contrário do que têm afirmado muitos de seus desafetos, Carlson nega o recebimento de qualquer quantia pela realização da entrevista. Não há também registro no Departamento de Estado de qualquer pagamento feito diretamente a ele pelo Catar. Mas o fato de a entrevista ter sido intermediada pela Lumen8 Advisors — uma empresa de consultoria em comunicações que atua como agente estrangeiro registrado para a embaixada do Catar em Washington, recebendo US$ 180 mil por mês pelo serviço desde novembro de 2024, conforme os registros oficiais — turbinou as acusações de que Carlson pode ter sido pago, por vias transversas, para realizá-la.

No próprio vídeo da entrevista, que teve seis milhões de visualizações no YouTube nas primeiras horas após sua divulgação, aparece um aviso de que sua produção incluiu “parcerias pagas”, o que representou, na visão de seus críticos, uma “admissão indireta” de que ele recebeu uma remuneração para fazê-la.

Seus desafetos relacionam a própria viagem de Carlson ao Catar para a realização da entrevista, considerada como a maior vitória da campanha promovida pelo país junto à direita americana depois da eleição de Trump, como um marco em sua repentina “conversão ideológica”. Depois da viagem, segundo eles, Carlson deixou muita gente surpresa ao reforçar narrativas favoráveis ao Catar, como a defesa do “isolacionismo” dos EUA, em especial no Oriente Médio, a minimização do papel desestabilizador do Hamas e a crítica ao sionismo, ao apoio do governo Trump a Israel e às sanções americanas contra o Irã.

As participações de Carlson e de Neil Patel, cofundador e CEO de sua empresa de mídia, como palestrantes no Doha Fórum, realizado no início de dezembro, reforçaram ainda mais a percepção de que o jornalista foi “capturado” pelo Catar. O evento contou também com palestrantes vistos com muitas reservas no Ocidente por suas ligações com grupos islâmicos extremistas, como Mohammad Javad Zarif, ex-ministro de Relações Exteriores do Irã, e Wael al-Dahdouh, ex-chefe da base da Al Jazeera em Gaza.

Outra figura carimbada que participou do fórum no Catar foi o financista Omeed Malik, fundador da empresa de private equity americana 1789 Capital, que aportou US$ 15 milhões para viabilizar o lançamento da TCN de Carlson, em dezembro de 2023, quando ele foi demitido da Fox News. Por coincidência, a fatia de Malik na TCN foi vendida para Carlson em março de 2025, na mesma época em que ele fez a entrevista.

Visto por muitos analistas como um aliado do Catar nos EUA, Malik também foi um dos primeiros investidores do Washington Reporter, um boletim digital lançado em maio de 2025 pelo republicano Garrett Ventry, ex-conselheiro do Comitê de Justiça do Senado. Curiosamente também, Ventry acabou se registrando como lobista do Catar seis meses depois, ganhando US$ 80 mil por mês, de acordo com o site The Free Press, para “promover uma imagem positiva” do país, especialmente “o importante papel do Catar nas relações internacionais”.

Influência no noticiário

Como Ventry, o âncora de rádio conservador John Fredericks, ex-vice-presidente do comitê de campanha de Trump no estado de Virgínia em 2016 e ativo na campanha de 2020, também entrou no borderô do Catar, conforme o Free Press.

Segundo informações publicadas pelo site, com base no registro obrigatório de lobby estrangeiro no Departamento de Justiça dos EUA, a empresa de Fredericks, a Common Sense Media Holdings, recebeu pelo menos US$ 180 mil do Instituto Catar América para Cultura (Qaic, na sigla em inglês), uma ONG financiada pela embaixada do país em Washington. Em troca, ele se comprometeu a “oferecer participações regulares em seus programas a altas autoridades” do país e a “transmitir um programa ao vivo todo mês da sede da entidade para promover o progresso do Catar”.

Em paralelo, o país está procurando se tornar um hub para grandes empresas jornalísticas do Ocidente no Oriente Médio. Em fevereiro, a CNN anunciou que abriria uma nova base este ano na chamada Media City, em Doha, com infraestrutura e suporte técnico fornecidos pelo governo. A ideia da emissora é produzir conteúdo em sua base no Catar para um programa semanal sobre a região. Recentemente, a Media City anunciou também parcerias com The Wall Street Journal e com a Bloomberg para a realização de eventos jornalísticos no país.

Em 2020, no primeiro mandato de Trump, o príncipe Sheikh Sultan bin Jassim Al Thani, membro da família real do Catar, já havia realizado um investimento de US$ 50 milhões na Newsmax, emissora de TV a cabo conservadora fundada pelo jornalista Chris Ruddy, amigo de longa data de Trump e membro de seu resort Mar-a-Lago. Embora Ruddy negue qualquer influência do Catar na cobertura jornalística, funcionários da Newsmax afirmaram, conforme notícias divulgadas na ocasião, que foram instruídos a “suavizar” o noticiário sobre o país, depois do fechamento do negócio.

*A reportagem continua na próxima edição de Oeste

Leia também “O lado sinistro do Catar (parte 1)” e “O lado sinistro do Catar (parte 3)”

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2 comentários
  1. DONIZETE LOURENCO
    DONIZETE LOURENCO

    Como diia minha avó: nem tudo que brilha é ouro.
    Tem muita sujeira embaixo deste tapete e de pessoas aparentemente insuspeitas.

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