publicidade
venezuela
A ditadora interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, durante cerimônia para receber a insígnia de comandante-em-chefe das Forças Armadas - 28/1/2026 | Foto: Wendys Olivo/Palácio Miraflores/Divulgação via Reuters
Edição 308

O NYT e a ‘estrategista’ Delcy Rodríguez

O jornal confunde o colapso da capacidade de fiscalização com uma reforma econômica pró-mercado, e elege a ditadora da Venezuela como a "tecnocrata cosmopolita" da vez

O jornal The New York Times retratou a sucessora de Nicolás Maduro — a ditadora venezuelana Delcy Rodríguez — como uma tecnocrata pragmática, uma reformadora pró-mercado e uma “cosmopolita” que ajudou a estabilizar a economia do país. Em uma série de artigos assinados ou coautorados por Anatoly Kurmanaev e Simón Romero, o jornal argumentou que a revolução socialista de Hugo Chávez evoluiu para um “capitalismo bárbaro” sob o comando dela. Um texto afirma que “a hiperinflação foi contida e o crescimento econômico voltou” sob sua gestão. Romero e Kurmanaev contrastaram sua abordagem de comunicação “focada em números” com o “estilo popular” de Maduro. Outro repórter do Times, Pranav Baskar, classificou-a como “uma tecnocrata cosmopolita em um governo militarista e dominado por homens”.

O artigo do Times que mais provocou indignação na comunidade de exilados venezuelanos foi publicado em setembro passado e assinado pela repórter Julie Turkewitz, que recebeu “um raro visto para jornalistas estrangeiros” e viajou a Caracas para uma entrevista com Delcy. Ilustrando o artigo, um retrato da atual ditadora, elegantemente vestida, parecendo introspectiva e calma, enquanto espreitava por uma janela, por onde a luz refletia um brilho suave em seu rosto. O texto omitiu qualquer referência ao histórico de corrupção e abusos de direitos humanos dela. “É jornalismo de péssima qualidade classificá-la como moderada”, disse o líder da oposição Freddy Guevara à Reason em uma entrevista recente. Guevara salientou que, entre outras coisas, Delcy supervisionou o Sebin, a força policial secreta da Venezuela, acusada de tortura, execuções extrajudiciais e outros abusos de direitos humanos.

Foto: Reprodução/Redes Sociais

O que o Times caracterizou como uma “drástica liberalização econômica” na Venezuela foi, na verdade, o colapso da capacidade de fiscalização do regime socialista. Após anos de escassez generalizada e hiperinflação causadas por controles de preços e impressão irresponsável de dinheiro, Maduro e sua gangue de criminosos não conseguiam mais manter o aparato de planejamento da Venezuela. Não tiveram escolha senão abandonar essas políticas, o que levou a uma anarquia econômica desprovida do Estado de Direito.

Depois que a hiperinflação obliterou o bolívar venezuelano, o regime impôs o controle de preços sobre bens básicos. Os fornecedores foram forçados a vender com prejuízo, enquanto o regime alegava que era uma medida para ajudar os venezuelanos em dificuldade. Mas o controle de preços era aplicado de forma seletiva e desigual, permitindo que alguns importadores vendessem bens a preços de mercado. Ambulantes vendiam abertamente ovos, frango e peixe do lado de fora de supermercados estatais com prateleiras vazias. Alguns venezuelanos até se dedicaram à vida de revendedores, passando o dia comprando produtos com preço controlado para mais tarde revender a preço de mercado.

O controle cambial seguiu o mesmo padrão. O regime concentrou todas as transações em dólar nas agências governamentais. A taxa de câmbio oficial, mantida artificialmente baixa como subsídio para os aliados políticos, afastou-se cada vez mais da taxa do mercado. Os venezuelanos recorreram a cambistas do mercado negro operando nas fronteiras colombiana e brasileira. O regime ameaçou com prisão as empresas que usavam a taxa paralela, mas a fiscalização mostrou-se impossível. Um fluxo constante de moeda estrangeira, especialmente remessas enviadas pela diáspora venezuelana, passou gradualmente a sustentar as transações cotidianas. Em 2019, mais da metade das transações no país ocorreram em dólares americanos. Maduro descreveu a dolarização de facto da Venezuela como uma “válvula de escape”. Não havia escolha.

Os venezuelanos recorreram a cambistas do mercado negro operando nas fronteiras colombiana e brasileira | Foto: Shutterstock

O colapso das políticas socialistas e as intensas violações de direitos humanos contra dissidentes ocorreram ao mesmo tempo. Manifestações da oposição foram recebidas com brutalidade policial e prisioneiros políticos lotaram as celas do regime.

Grande parte dessa liberalização limitada foi inicialmente encabeçada pelo ex-ministro do petróleo, Tareck El Aissami, agora caído em desgraça, como afirma o economista Giorgio Cunto Morales. Em 2023, quando Delcy Rodríguez assumiu o controle total dos assuntos econômicos após a remoção de El Aissami, a suposta recuperação da Venezuela já fracassava em razão de problemas estruturais não resolvidos. Distorções da taxa de câmbio aumentaram ao longo de 2024 e, quando o Banco Central parou de publicar estatísticas de inflação, o regime respondeu prendendo economistas que discutiam o assunto. Cinco anos depois dessa “estabilização”, o produto interno bruto real havia passado de 75% para 70% abaixo do nível de 2013. O saldo pode ser melhor que o do stalinismo, mas está longe de ser uma reforma capitalista.

O ministro venezuelano do Petróleo, Tareck El Aissami, fala durante a reunião binacional Venezuela-Turquia no Palácio Miraflores, em Caracas, Venezuela, 24 de janeiro de 2023 | Foto: Reuters/Leonardo Fernandez Viloria

Este período, enquadrado pelo Times como “liberalização econômica”, foi o que o cientista político venezuelano Guillermo Tell Aveledo chamou de pax bodegónica: uma farra de compras de uma elite corrupta disfarçada de melhoria econômica. Mercearias sofisticadas chamadas bodegones lotaram Caracas e outras grandes cidades, abastecidas com iguarias importadas e produtos da Costco, atendendo à boliburguesia (a burguesia bolivariana dos oligarcas conectados ao regime) mesmo enquanto o regime alegava sofrer sob um bloqueio dos EUA. Os bodegones eram, em sua maioria, de propriedade dos chamados enchufados da Venezuela, agentes corruptos com estreitos laços políticos com o regime. Venezuelanos comuns só podiam espiar pelas janelas dessas lojas caras.

A Venezuela aparece nas últimas posições em grandes rankings globais que avaliam o Estado de Direito e a liberdade econômica, em parte devido ao histórico político de Delcy Rodríguez. Ela defendeu a obscura Lei Antibloqueio, que classificou como confidenciais todos os contratos e registros administrativos, blindando-os do escrutínio público. Sob as disposições da lei, Delcy supervisionou US$ 3,2 bilhões em receitas anuais de petróleo coletadas e distribuídas sem prestação de contas, legalizando a corrupção em massa. Quando o governo venezuelano não teve escolha a não ser eliminar o controle de câmbio, Rodríguez insistiu, em uma entrevista de 2021, que isso não representava liberalização, mas sim “proteção e defesa” do socialismo bolivariano.

O direito de propriedade na Venezuela é aplicado ao bel-prazer do regime. Em junho de 2024, as irmãs Elis e Mileidis Hernández aprenderam essa lição quando serviram um café da manhã à líder da oposição e futura laureada com o Nobel, María Corina Machado, em seu humilde restaurante de beira de estrada. Horas depois de María Corina partir, fiscais de impostos e um agente da Guarda Nacional chegaram para fechar seu negócio de 20 anos por supostas violações contábeis, infrações que nunca haviam justificado uma inspeção antes e que não eram fiscalizadas em todos os estabelecimentos da cidade.

María Corina Machado Trump Nobel Venezuela
A líder opositora venezuelana María Corina Machado | Foto: Reprodução/ Redes sociais

Os fundamentos não mudaram. Jorge Rodríguez, irmão de Delcy e o principal negociador do regime, apareceu na televisão estatal na semana passada reclamando que o dólar havia caído, mas as lojas nos shoppings não haviam baixado seus preços em decorrência disso. “Eles aumentam o preço porque o dólar subiu”, afirmou, “e agora que o dólar cai, eles se fazem de desentendidos.” Ele disse que o controle de preços era a solução. A mentalidade socialista persiste. Jorge Rodríguez e sua irmã simplesmente perderam a capacidade de aplicá-la.

Se Delcy Rodríguez vai intensificar a repressão econômica, ainda não se sabe. Mas ela não é uma tecnocrata com uma visão pró-mercado e o colapso estatal não é liberalização da economia. O Times ajudou uma ditadora atroz em sua campanha para obter legitimidade internacional, enquanto o presidente eleito da Venezuela, Edmundo González Urrutia, permanece exilado na Espanha.


César Báez é repórter e produtor da Reason na cobertura da América Latina.

Leia também “Questões éticas dos EUA na Venezuela”

Leia mais sobre:

1 comentário
  1. Erasmo Silvestre da Silva
    Erasmo Silvestre da Silva

    Onde está o Trump pra continuar o trabalho que começou ?

Anterior:
O sequestro do Holocausto
Próximo:
O Agro é cada vez mais biológico
publicidade